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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

 

O problema está no cocho

A demanda aquecida pelo leite associada à oferta menor em 20% no primeiro semestre de 2016 elevou os preços ao produtor. O preço em julho/2016 estava 54% superior ao mesmo período do ano anterior. Porém, as margens dele seguem apertadas por causa da alta dos insumos

Leonardo Gottens

Após um longo período de baixa remuneração, o preço do leite pago ao produtor começa a recuperar perdas e voltar a estimular a atividade. Apesar de um consumo final de produtos lácteos enfraquecido pela redução geral do poder de compra do brasileiro, o mercado interno encontra-se extremamente aquecido. Há grande competição das indústrias por matériaprima, explicada pelo baixo estoque ao final da safra passada e altas expressivas em produtos como muçarela e leite longa vida no mercado atacadista.

De acordo com Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a demanda industrial tem elevado os preços pagos pelo litro de leite produzido, mas o produtor segue com margens apertadas. “Apesar da melhora na remuneração, os gastos com milho e farelo de soja, maiores componentes do concentrado da alimentação do rebanho, oneraram bastante o custo de produção”, explica.

Jorge Rubez, presidente da Associação Leite Brasil, corrobora essa posição e acrescenta que, no acumulado do primeiro semestre de 2016, as estimativas apontam para uma queda na oferta de leite para processamento industrial de perto de 20%. “Não está bom para o produtor de leite, pois os aumentos de preços do produto foram neutralizados por aumentos nos custos de produção”, confirma. Segundo ele, esse cenário é decorrente de um conjunto de fatores que se acumularam nos últimos dois anos.

O desestímulo nos preços pagos pelo leite e o bom valor alcançado na arroba de carne bovina resultou no crescimento da venda de matrizes para abate e um mercado atual estagnado na venda de matrizes leiteiras. “No Rio Grande do Sul, estado que é o segundo maior produtor de leite do Brasil, pesaram os problemas climáticos no período de formação das pastagens de inverno, além de preços baixos no ano passado e concorrência com culturas mais rentáveis como soja e milho”, completa.

No setor de produtos derivados, a situação é um pouco pior. Alexandre Guerra, presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Rio Grande do Sul (Sindilat), explica que o sentimento de incerteza nos campos da política e economia gerou reflexo no consumidor, que está receoso em gastar com produtos mais elaborados e, consequentemente, mais caros – o que acaba freando a economia ainda mais. “No setor alimentício, esse movimento é menor uma vez que estamos falando de produtos básicos. Ao falar de leite, estamos tratando de um produto essencial para a saúde humana e que, apesar das dificuldades, mantém seu consumo. O mesmo não é verificado em itens de maior valor agregado, que, geralmente, estão mais sujeitos ao impacto na renda das famílias”, afirma

“No entanto, a expectativa é que, nos próximos meses, a situação se estabilize e o leite volte a patamares mais moderados. Mas é preciso ter consciência que o produto vinha de margens muito baixas e que não estavam remunerando o setor. Agora, estamos em uma situação mais condizente com a realidade”, sintetiza Guerra.

Apesar da tendência de recuperação na remuneração, os setores ligados à atividade leiteira não estão muito otimistas em relação ao futuro. “Historicamente, após um período de aumento de preços a tendência é uma queda de consumo e um reequilíbrio nos preços do varejo. Trabalhamos com a perspectiva de a produção total de leite manter-se em relação a 2015 ou ter um pequeno aumento. O cenário atual da economia brasileira poderá pesar mais do que no passado se as incertezas permanecerem.

O poder de compra do consumidor em queda é o principal fator que preocupa como principal variável que pode determinar queda de consumo”, ressalta Rubez. E Alvim, da CNA, lembra que previsões são sempre complicadas na atividade leiteira. “Caso se confirme as estimativas para a safrinha de milho, por exemplo, teremos queda na produção desse grão, o que pode influenciar no aumento de preço da saca. Nesse exemplo, o impacto sobre a produção de leite é imediato. Com o cenário adverso, o produtor começa a cortar custos e alguns desses cortes afetam diretamente o volume de leite produzido”.

Dependência do clima — Por outro lado, Alvin aponta que condições climáticas favoráveis ao longo do período de safra podem impulsionar a produção, principalmente nas regiões que tem como base a produção de leite a pasto, o que geraria uma recuperação no abastecimento das indústrias e uma desaceleração nos preços praticados. Em termos produtivos, a previsão é que 2016 se encerre com queda no volume produzido, o que pode ser explicado pela diminuição constante que vem ocorrendo na captação de leite desde janeiro. Contudo, alguma recuperação na oferta pode ser alcançada. “O produtor é altamente responsivo a incrementos de preços. Com um maior valor recebido, ele aumenta o uso de ração e segura os animais de descarte”, analisa Alvim.

Guerra, do Sindilat, sustenta que “é preciso ação, não ficar falando de crise e deixar o barco correr”. De acordo com ele, a indústria de lácteos aposta que o futuro de desenvolvimento do setor está em abrir novos mercados externos para garantir o escoamento de excedentes por meio de leite em pó, o que garantiria uma rentabilidade mais equilibrada durante o ano todo: “Já estamos abrindo mercados e participando de ações internacionais de prospecção. Dessa forma, será possível administrar o mercado interno com mais regularidade e rentabilidade”, destaca.

“A indústria precisa de uma política de enfrentamento para o custo Brasil, que tira a competitividade da produção nacional frente aos importados que ingressam no nosso mercado todos os meses. Precisamos reagir e estamos trabalhando nesse sentido. Esperamos uma retomada da produção. Estamos prospectando mercados e negociando junto ao Governo apoio para exportação de produtos lácteos. O Brasil e, em especial o Rio Grande do Sul, tem condições de se tornar um grande exportador de leite. Temos área para isso e, especificamente o Rio Grande do Sul tem condições de qualidade superior que nos permitem abrir clientela internacional”, afirma Guerra.

Profissionalismo e qualidade — Para que os setores ligados à atividade leiteira possam recuperar sua competitividade, alguns desafios e obstáculos precisam ser vencidos. Como o produtor trabalha sem garantias de preços, a atividade não pode ser conduzida como antigamente, devendo evoluir em direção ao profissionalismo e, principalmente, à qualidade. Os casos de adulteração ou descaso na produção e armazenagem do leite são tratados como exceções entre os participantes desse mercado. No entanto, os escândalos continuam repercutindo junto à opinião pública e acabam sempre influindo no consumidor final. Para vencer esse entrave, especialistas do setor apontam que produtores, indústria e comércio devem investir cada vez mais em passar confiabilidade à população, seja por campanhas de esclarecimento, propaganda positiva e ações de transparência.

O preço de referência do leite nunca esteve tão elevado ao atingir R$ 1,317 por litro no final de julho de 2016, 54,5% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo o Conseleite

Alvim aponta que, pelo lado comercial, a busca da indústria deve ser por “qualidade da matéria-prima que capta, seja para obter maior rendimento dos produtos que vende ou ainda visando a um possível futuro exportador para a produção nacional”. “Sem dúvida, o tema qualidade de leite é um dos pontos cruciais”, diz. Na outra ponta, o produtor precisa ter acesso à assistência técnica de qualidade, estimulando a profissionalização e o desenvolvimento, tendo como base a orientação técnica.

O presidente do Sindilat aponta ainda que o setor enfrenta dificuldades devido à guerra fiscal entre os estados da Federação e o que qualifica como “concorrência desleal com os lácteos importados de países do Mercosul, que entram no Brasil com vantagens tributárias e a preços bem mais competitivos do que os nossos”. Outro fator de dificuldade, segundo Guerra, são as questões referentes à normatização da produção de lácteos:

“O Brasil é um País onde há muitas regras e normativas que regem o processo. São normas que se contrapõem e se sobrepõem”. Ele afirma que o há um trabalho junto ao Governo na tentativa de equalizar essas normas para tornálas um regramento claro e unificado. Além disso, as entidades representativas de classe tentam definir em Brasília questões de rotulagem, qualidade dos lácteos e abertura de novos mercados.

O mercado interno está em um momento de alta. O preço de referência do leite nunca esteve em um patamar tão elevado, atingindo R$ 1,317 por litro, segundo dados divulgados pelo Conseleite no final de julho. O resultado representa um aumento de 54,5% sobre julho de 2015. No mercado externo, há um horizonte promissor de novos negócios, principalmente em ações voltadas para os países do Oriente, onde há um amplo potencial de consumo e interesse em adquirir a produção nacional. Sanitariamente, o setor garante que está habilitado a exportar por ter um dos mais altos padrões de fiscalização do mundo. Parece viável projetar que, vencendo os entraves que ainda seguram a produção, a atividade leiteira no Brasil posso entrar, no médio prazo, em um novo ciclo positivo.