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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Boi Gordo

 

De cabeça erguida

O consumo de carne bovina caiu em razões dos problemas econômicos do País, inclusive pela concorrência com carnes mais baratas. Já as cotações evoluíram em função da escassez de oferta e há boas perspectivas para o mercado externo, sobretudo após o acordo para venda de carne in natura aos americanos

Arno Baasch arno@safras.com.br

O perfil de consumo no setor carnes passa por um período de mudanças ao longo de 2016, especialmente no que tange à carne bovina. Conforme o analista de Safras & Mercado Fernando Iglesias, a forte recessão econômica, combinada com as elevadas taxas de desemprego e a Kadjah Suleiman/Embrapa queda no rendimento das famílias tem levado a população a buscar proteínas alternativas frente à bovina, como a carne de frango e a suína, que apresentam valores mais acessíveis ao bolso do consumidor.

Iglesias sinaliza que a carne bovina, após registrar expressivas altas de preço nos últimos anos, agora se depara com um quadro de saturação nas cotações. “O momento é delicado, pois mesmo em um período de elevação dos custos, em face do encarecimento dos grãos usados na alimentação animal, os frigoríficos enfrentam dificuldades para estabelecer novos reajustes de preços no mercado interno. Por conta do consumo doméstico retraído, eles vêm apostando de forma efetiva nas exportações como uma alternativa para a manutenção das receitas”, detalha.

Os sinais de saturação dos preços da carne bovina evidenciamse no comportamento dos cortes de traseiro, dianteiro e da ponta de agulha no mercado paulista durante 2016. “O valor dos cortes de traseiro vem despencando ao longo do ano. Em janeiro, o valor médio do quilo era de R$ 12,69, chegando a R$ 10,85 por quilo em junho, o que aponta para uma queda de praticamente 15%. O valor médio do quilo dos cortes de traseiro chegou a R$ 11,73 ao longo do primeiro semestre, mas supera o preço praticado na primeira metade de 2015, de R$ 11,30”, disse.

Iglesias ressalta que os preços dos cortes de dianteiro avançaram 2,45% na comparação entre janeiro e junho, de R$ 8,19 para R$ 8,35, mas têm oscilado bastante durante todo o período. O valor médio do quilo na primeira metade do ano ficou em R$ 8,11, acima do registrado nos seis primeiros meses do ano passado, de R$ 7,27. A ponta da agulha apresentou retração de 2,36% no comparativo entre janeiro e junho, cujos valores eram, respectivamente, de R$ 8,06 e R$ 7,87. “A média de preços da ponta de agulha ficou em R$ 7,90 no primeiro semestre deste ano, acima dos R$ 6,78 praticados entre janeiro e junho de 2015”, sinaliza.

Na avaliação de Iglesias, a queda significativa dos preços dos cortes de traseiro, de maior valor agregado, reflete a migração de consumo por grande parte da população brasileira para cortes mais baratos de carne bovina, obtidos no dianteiro do boi, ou mesmo para proteínas alternativas, como a carne suína e de frango, que apresentam valores mais atrativos ao consumidor. “Esse fator contribuiu para o aumento no preço dos cortes de dianteiro e justificam a retração de preços da ponta da agulha na primeira metade do ano”, avalia.

Por outro lado, o analista explica que a gradativa alta nos preços da carne bovina ao longo dos anos decorre dos ajustes feitos pelo setor. Houve uma diminuição nos abates de bovinos, que trouxeram, em consequência, uma queda na produção de carne bovina no Brasil. No acumulado de janeiro a maio de 2016, por exemplo, os abates atingiram 14,104 milhões de cabeças e a produção, 3,804 milhões de toneladas, retrocedendo 5,3% e 5,1%, respectivamente, frente ao mesmo período do ano passado. Na comparação com as 16,945 milhões de cabeças e a produção de 4,547 milhões de toneladas registradas nos cinco primeiros meses de 2014, a queda em relação aos números acumulados alcançou, respectivamente, 16,77% e 16,35%.

Exportações avançam — Com a queda na demanda no mercado doméstico e aproveitando o fator cambial, com a boa desvalorização do real frente ao dólar no primeiro semestre, os frigoríficos conseguiram exportar mais frente ao mesmo período do ano passado. Levantamento de Safras & Mercado, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), revela que as exportações, de janeiro a junho de 2016, em equivalente carcaça, atingiram 1,049 milhão de toneladas, superando as 921,7 mil toneladas embarcadas nos seis primeiros meses de 2015. A receita cambial também cresceu na mesma comparação, de US$ 2,610 bilhões para US$ 2,682 bilhões. O preço médio, por outro lado, sofreu queda, de US$ 4.495,00 para US$ 4.290,00 por tonelada.

O cenário é de dificuldades para os confinadores, já que os custos mostram-se bem mais elevados nos últimos tempos, sobretudo por causa do milho e, mais recentemente, pelo farelo da soja

Iglesias afirma que o desempenho das exportações pode ser considerado muito positivo, não somente por já superar os dados do ano passado, mas por estar próximo aos excelentes resultados obtidos há dois anos. “No primeiro semestre de 2014 foram embarcadas em torno de 1,07 milhão de toneladas. Na comparação com o primeiro semestre do ano vigente, o recuo verificado é de 2,4%. A continuidade desse movimento ao longo dos próximos meses e a possibilidade de um novo recorde nas exportações, entretanto, depende da paridade cambial favorável”, comenta.

Fonte: Secex, Safras & Mercado
Em mil toneladas
Em equivalente carcaça
(*) receita líquida sobre volume efetivo, em US$/mil
(**) preliminar

Ele salienta, entretanto, que a partir da troca de Governo no Brasil a moeda nacional passou a se valorizar frente ao dólar, desafiando uma atuação maior do Banco Central na tentativa de manter a paridade cambial em níveis atraentes para a exportação. “É importante salientar também que a manutenção de uma balança comercial superavitária é essencial para a correção das deficiências macroeconômicas do País no curto e médio prazos, bem como para a garantia de receita às empresas exportadoras”, analisa.

Para o segundo semestre, o analista entende que as perspectivas são favoráveis às exportações, a depender da paridade cambial, uma vez que o Brasil está próximo de anunciar o começo dos embarques de carne bovina in natura para os Estados Unidos. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), ainda não existe uma perspectiva dos volumes a serem comercializados, mas a tendência é de que os americanos possam comprar cortes bovinos de dianteiro, visando suprir a demanda para a produção de alimentos industrializados de maior valor agregado, como hambúrgueres e pratos prontos. Segundo a entidade, a abertura do mercado americano também facilitará as negociações visando a uma participação brasileira em países que participam do Nafta e que demandam bons volumes de carne bovina, como México e Canadá.

Preços aquecidos no Brasil — Iglesias diz que os preços médios do boi gordo continuam evoluindo nas principais praças de comercialização do Brasil, o que aponta para um quadro de escassez de oferta. “Esse cenário está presente nos principais estados produtores, mas tomando como exemplo o mercado paulista, verifica-se que o preço da arroba chegou ao final de junho cotado a R$ 158,60, acima dos R$ 147,59 praticados no mesmo mês do ano passado, o que representa um aumento de quase 7,46%”, compara. O analista informa que os preços do boi magro também continuam em elevação no Brasil, com o valor médio no Centro-Sul alcançando R$ 1.788,40 por cabeça em junho, à frente dos R$ 1.708,40 praticados no mesmo período do ano passado, uma alta equivalente a 4,68%.

Iglesias destaca ainda que os preços do bezerro na Região Centro-Sul também não vêm cedendo. Pelo contrário, as cotações vêm evoluindo bem ao longo do ano, passando de R$ 1.357,90 por cabeça para R$ 1.483,10 em junho, o que representa elevação de 9,22%. Na comparação com os R$ 1.228,00 praticados nos mesmo período de 2015, o incremento acumulado chega de 20,77%. “Esse cenário mostra que o ritmo de nascimento de animais permanece aquém da necessidade de demanda por gado de reposição, o que leva a esse preocupante quadro de descolamento de preço”, avalia.

Confinamento é desafiador — Essa combinação de variáveis mostra um cenário desafiador aos pecuaristas no que tange à atividade de confinamento, já que os custos mostram-se bem mais elevados em 2016 em relação ao anterior. “Os preços do milho tiveram uma forte elevação no primeiro trimestre e agora o farelo de soja vem despontando como o novo vilão na estrutura de custos, fazendo com que o setor de carne bovina tenha uma necessidade ainda maior de repassar esses custos ao preço final”, sinaliza.

Uma boa notícia aos pecuaristas é a perspectiva de que os preços tanto do bezerro quanto do boi magro possam vir a recuar ao longo do terceiro trimestre, tendo em vista os preços elevados desses segmentos e a dificuldade de repassar essa diferença ao preço final da carne bovina. Por outro lado, para o restante do ano, Iglesias acredita que os custos mais altos do confinamento possam ser compensados pela perspectiva de preços ainda bons do boi gordo no mercado futuro. “Teremos novamente a substituição de áreas de pastagem destinadas ao cultivo de grãos, como milho e soja, que vem apresentando bons preços no mercado interno, o que deverá manter a oferta de gado de reposição ainda restrita no mercado interno”, conclui.

Fonte: Safras & Mercado
Em toneladas
Abates levantados com inspeção federal, estadual, manicipal e sem inspeção - preliminar (*)
preliminar (**)