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Açucar e Etanol

 

Temporada aquecida para o açúcar

Crescimento da demanda e queda significativa nos estoques internacionais projetam cenário de preços globais do açúcar com viés de alta. Para o Brasil, as perspectivas são de produção e embarques maiores e de queda na demanda interna e nos estoques. O etanol vive um ano de queda na demanda

Fábio Rübenich fabio@safras.com.br

A temporada 2015/16 (outubrosetembro) no mercado internacional de açúcar mostra-se muito peculiar, quando analisada sob a ótica dos fundamentos. É a primeira, desde 2008/09, que apresenta déficit de oferta. Segundo estimativas de Safras & Mercado, de julho de 2016, a diferença entre a produção e o John Deere consumo de açúcar no ciclo ainda corrente deve ficar em 8 milhões de toneladas.

Já o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) estimou um diferencial de 6,8 milhões de toneladas. Para a Organização Internacional do Açúcar (OIA), o déficit somará 6,65 milhões de toneladas, ante uma estimativa prévia que apontara uma diferença de 5 milhões de toneladas. “A nossa estimativa considera os dados de produção mais recentes da Ásia, que não foram levados em conta por entidades como o Usda e a OIA”, disse o analista de Safras & Mercado Maurício Muruci.

De modo geral, o cenário para a temporada é de crescimento na demanda e também na produção, embora em menor escala, com queda significativa nos estoques internacionais, fator esse que deve manter os preços globais do açúcar com viés de alta, segundo Muruci. Para a temporada 2016/17, estimativa do Usda indica que o consumo mundial de açúcar deve atingir o recorde de 173,63 milhões de toneladas, alta de 1,07% no comparativo anual.

Com isso, os estoques finais devem cair 13%, passando de 37,7 milhões para 32,8 milhões de toneladas, menor nível desde 2011. Já a produção mundial de açúcar deve passar de 164,9 milhões para 169,3 milhões de toneladas, alta de 2,7%, por conta dos ganhos de volume no Brasil e na União Europeia, que “mais do que compensarão uma quebra de safra na Índia e em outras partes da Ásia”.

Índia: queda de 65% nas exportações — “Chama a atenção nesta parte final da temporada a forte desaceleração nas exportações da Índia”, assinala Muruci. Ele comenta com base em informações que circulam no mercado que o segundo maior produtor mundial de açúcar e principal consumidor deve exportar, no máximo, 1 milhão de toneladas no próximo ano, 65% a menos que em 2015/16, para quando são projetados embarques de 2,9 milhões de toneladas. “Isso é reflexo das chuvas abaixo da média no período de monções na Índia, em decorrência do El Niño, que foi um dos mais intensos já registrados”.

Já a demanda interna de açúcar na Índia deve crescer 1,5%, de 26,8 milhões para 27,2 milhões de toneladas, volume que, se confirmado, será o mais expressivo dos últimos dez anos. Para evitar alta nos preços domésticos, o governo da Índia retomou a cobrança de uma taxa de 20% sobre as exportações do produto.

Brasil: oferta e estoques em alta e queda no consumo — Para o Brasil, líder na produção e na exportação, as perspectivas para 2016/17, segundo o Usda, são de produção e embarques maiores e de queda na demanda interna e nos estoques. As exportações entre 2016 e 2017 devem passar de 24,35 milhões para 26,1 milhões de toneladas. A produção deve aumentar 7% em 2016/17, na safra atual que está sendo processada no Centro- Sul, totalizando 37 milhões de toneladas, contra as 34,65 milhões de toneladas registradas no ciclo anterior.

Para Muruci, o aumento na produção é influenciado pelos preços internacionais atrativos e pela taxa cambial expressiva durante o primeiro trimestre de 2016, quando as usinas aproveitaram o dólar bem mais caro para fixar vendas para cerca de 80% da produção esperada. “Nesse contexto, grande parte da cana que seria destinada para o etanol acabou sendo direcionada para o açúcar”, diz.

A demanda interna de açúcar no Brasil deve alcançar 10,8 milhões de toneladas em 2016/17, queda de 0,92% contra o ano anterior, quando o consumo chegou a 10,9 milhões de toneladas. Os estoques finais, conforme o Usda, aumentarão de 350 mil para 520 mil toneladas em 2016/17. Para Muruci, o crescimento da produção de açúcar no Centro-Sul foi resultado da renovação de canaviais efetuadas nos últimos três anos e também por um aumento marginal na área cultivada.

“O detalhe é que o índice de renovação de lavouras foi bem maior que o de aumento de área, porque as usinas ainda enfrentam problemas financeiros. Em evento do setor, em julho, surgiram especulações de que 50% das usinas em atividade ainda trabalham com questões de caixa. Isso, mais além, pode reduzir a utilização de defensivos agrícolas e fertilizantes, o que, por sua vez, resultará em redução na qualidade industrial e na quantidade de cana a ser colhida”, aponta.

Preços internacionais — Os contratos mais ativos do açúcar bruto negociados na Bolsa de Nova York alcançaram a marca de 21,22 centavos de dólar por libra-peso em 29 de junho, nível mais alto desde outubro de 2012. O mercado foi puxado por um pesado movimento de compras por parte de fundos e com a valorização do real frente ao dólar. Como outras commodities cotadas em dólar, o açúcar tende a avançar quando a divisa se desvaloriza.

O mercado vem sendo largamente sustentado ao longo do ano por um consenso de que após cinco anos de superávits, o consumo irá superar a oferta pelos próximos dois anos. No decorrer do segundo trimestre, as cotações futuras saltaram de 15 centavos para 21 centavos, uma alta acumulada de 75%.

O crescimento na demanda mundial por açúcar é mais notável no Oriente Médio — principalmente no Irã —, e também na União Europeia, onde há tendência de flexibilização de barreiras de importação devido à crise política deflagrada pela saída do Reino Unido do bloco (Brexit). “Com aumento no consumo na Ásia, União Europeia e Oriente Médio, em meio a uma queda na produção da Índia, os preços futuros em Nova York devem se solidificar entre 18 e 22 centavos até a finalização do ano”, projeta Muruci.

Risco climático — O ano de 2016 está sendo marcado por um risco climático muito acentuado para as commodities em geral. O El Niño, que atuou até o final do primeiro semestre, foi um dos mais fortes já registrados, trazendo muitas chuvas para o Centro-Sul do Brasil entre dezembro e março, durante a entressafra da cana-de-açúcar, o que possibilitou um pleno desenvolvimento e maturação para as lavouras. A partir de abril, o cenário climático alterou-se, passando a ser marcado por baixos índices de precipitação, que, por sua vez, também colaboraram para a cana, desta vez ajudando a acelerar a colheita e a moagem e a posterior produção de açúcar pelas usinas.

O segundo semestre, por outro lado, deve ser marcado pelo desenvolvimento do La Niña, o qual deve completar sua formação entre setembro e outubro. “É necessária muita atenção nesse ponto, porque historicamente os anos de La Niña são amplamente mais voláteis nos mercados de commodities em comparação aos anos de El Niño”, diz Muruci. Assim, é provável que a partir de outubro os preços do açúcar fiquem ainda mais voláteis. Alguns dos efeitos do La Niña já se mostram presentes na Ásia, onde as chuvas de monção, que se desenvolvem entre junho e setembro, estão com índices abaixo da média, o que já levantou especulações sobre uma segunda quebra na safra de açúcar da Índia.

Até julho, na safra 2016/17, a produção de etanol das usinas do Centro-Sul cresceu 10%, para 10,579 bilhões de litros, puxado pela elevação de 27% na produção de anidro, para 4,275 bilhões de litros

De acordo com projeções de Safras & Mercado, as cotações futuras do açúcar bruto em Nova York devem oscilar durante o segundo semestre entre a mínima de 17 e a máxima de 22 centavos de dólar por libra-peso, considerando variáveis como clima, conjuntura macroeconômica internacional e câmbio. Já em Londres, as cotações futuras do açúcar refinado devem variar entre US$ 520 e US$ 540 por tonelada. No mercado físico brasileiro, a saca de 50 quilos do açúcar cristal deve ter preço oscilando entre R$ 80 e R$ 89,00 “Essas projeções foram realizadas a partir de dados conjunturais da economia e fundamentais do mercado até o final de julho”, assinala Muruci.

Estoques sustentam preços do etanol — Para o etanol, o ano tem sido marcado por queda na demanda, devido à recessão econômica que diminuiu o consumo de combustíveis de uma forma geral no País. Isso em meio a uma oferta que cresce modestamente. Até julho/2016, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), a produção no Centro-Sul cresceu 10% na safra 2016/17, totalizando 10,579 bilhões de litros, puxado pela elevação Renato Lopes de 27% na produção de anidro, para 4,275 bilhões de litros.

A produção de hidratado apresenta alta de 1%, atingindo 6,4 bilhões de litros. As usinas da principal região produtora continuam priorizando o etanol no mix produtivo, (56% contra 44% do açúcar), pois o fluxo financeiro é bem mais rápido comparado ao açúcar, em um momento de grande necessidade de caixa para as unidades produtoras.

O analista Maurício Muruci avalia que o Governo não deve elevar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina, o que era uma grande aposta das usinas durante o primeiro semestre. O aumento na tributação da gasolina traria mais competitividade ao etanol. “Assim, as usinas têm se voltado à formação de estoques para a entressafra, enxugando o volume de oferta no mercado à vista, o que dá sustentação para os preços em plena safra”, coloca.

Na região de Ribeirão Preto/SP, o preço médio do etanol hidratado em julho foi de R$ 1,70 o litro, alta de 23% contra o preço médio de R$ 1,38 o litro registrado no mesmo mês do ano passado. Para o anidro, a média foi de R$ 1,67 o litro, valorização de 20% no comparativo anual.