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Trigo

 

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Os indicativos para o trigo não são favoráveis no passado recente e nem como perspectivas. Elevação dos custos, clima adverso que derrubou colheitas, principalmente no Rio Grande do Sul, e cotações mais baixas no mercado internacional em dez anos. E a Argentina, principal fornecedor do Brasil, animada com o novo governo, vai ampliar as lavouras em mais de 50%. Em síntese: a área no Brasil vai encolher

Gabriel Nascimento gabriel.antunes@safras.com.br

Os preços do trigo brasileiro no mercado interno ao final do ciclo comercial 2015/16 estiveram bastante superiores aos praticados no período anterior. No Paraná, as indicações ficam por volta de R$ 900 por tonelada no mercado de lote, o que corresponde a uma alta anual de 36%; no Rio Grande do Sul, a valorização de 66% sobre os R$ 500 verificados no ano passado, ou em torno de R$ 830 por tonelada. Segundo o analista de Safras & Mercado Elcio Bento, valorizações dessa magnitude poderiam sugerir que a temporada foi positiva para os triticultores. “Infelizmente, a realidade não é essa. A alta ocorreu apenas nos últimos meses do ano comercial e foi puxada pela demanda gerada no mercado de ração em função da elevação dos preços do milho”, explica. Dentro da cadeia produtiva, o ano foi de elevação dos custos de produção, recuo na moagem e de quebras acentuadas da produção.

O fenômeno El Niño, que trouxe chuvas acima da média para o período da colheita, resultou em uma quebra acentuada da produção nacional, principalmente no Rio Grande do Sul. Os poucos lotes de boa qualidade responderam por cerca de 5%, no início da colheita, no Oeste do estado. O restante da safra foi fortemente castigado pelo excesso de chuva. “Em uma área em que poderiam ser colhidas 2,6 milhões de toneladas em condições normais de clima, foram ceifadas apenas 1,3 milhão de toneladas”, destaca o analista.

No Paraná as perdas mais elevadas concentram-se no Sul e no Sudoeste, onde a colheita normalmente ocorre entre outubro e novembro. “De um potencial produtivo de 4 milhões de toneladas, o estado colheu 3,2 milhões de toneladas, ou seja, 20% a menos”, avalia Bento. “Os produtores catarinenses também sentiram os reflexos, com uma redução de 43% do potencial produtivo, de 200 mil para 115 mil toneladas. Com essas perdas, o total produzido no País foi de 5,305 milhões de toneladas, contra 6,345 milhões de toneladas da safra anterior”, descreve. “O excesso de chuva na colheita, além do efeito quantitativo, traz efeitos nefastos sobre a qualidade do cereal. Sem características reológicas para serem utilizados como farinha, os grãos prejudicados foram em grande parte escoados via exportação”. Segundo ele, foram vendidas ao exterior 1,05 milhão de toneladas, das quais 888 mil toneladas do Rio Grande do Sul e 159 mil toneladas do Paraná.

A elevação recorde do preço do milho poderia ter resultado em melhores negócios no mercado interno, porém, quando ela ocorreu, boa parte dessa mercadoria já havia sido embarcada ao exterior. Assim, o excedente que poderia ser destinado à moagem ficou em 3,6 milhões de toneladas, contra 4,1 milhões de toneladas da temporada anterior. Entre agosto de 2015 e maio de 2016, a média de preços ficou próxima a R$ 750/tonelada, contra R$ 600/tonelada no período anterior. Segundo o analista, essa elevação ocorreu em função da menor oferta interna e da elevação do dólar em relação ao real.

“Menor oferta no mercado doméstico leva a uma necessidade de aumentar as importações e, dólar valorizado em relação ao real encarece essas aquisições. De qualquer forma, uma elevação mais acentuada das cotações domésticas encontrava um ponto de resistência na paridade de importação, ou seja, a partir do momento em que comprar no exterior passa a ser uma alternativa ao trigo brasileiro”, explicou.

Efeitos do milho — Comprando mais da metade do consumo no mercado externo, essa paridade de importação historicamente baliza os preços no Brasil. Porém, no atual ciclo, a disparada dos preços do milho acabou gerando uma demanda extra para o produto nacional que possibilitou um novo saldo dos preços no Brasil. “A procura de trigo, até mesmo de boa qualidade pelas indústrias de ração animal permitiu um salto dos preços. Essa alta foi até o ponto em que a sua utilização em substituição ao milho deixou de ser atrativa”.

No Paraná, o trigo tipo 01 ficou com preços abaixo do milho entre abril e julho de 2016. Em meados de maio, por exemplo, as indústrias de ração tinham no trigo uma matériaprima quase 10% mais acessível que o milho. No Rio Grande do Sul, a atratividade do trigo para a alimentação animal estendeu-se entre fevereiro e julho de 2016. Em meados de maio, o preço do trigo estava 14% inferior ao do milho. A elevação do preço do trigo e a entrada do milho safrinha corrigiram essa diferença. Um dos efeitos de uma demanda adicional sobre um mercado já com oferta enxuta foi a alta expressiva que deixou o mercado de trigo com cotações acima da paridade de importação. Ao final da primeira quinzena de julho, por exemplo, o trigo argentino chegaria aos moinhos da capital paranaense 9% mais acessível que a opção de abastecimento doméstico.

“Até mesmo o trigo hard norteamericano, que tem sua aquisição encarecida pela Tarifa Externa Comum de 10% e o Adicional sobre o Frete para Renovação da Marinha Mercante de 25% do valor do frete marítimo, chegaria a Curitiba abaixo do custo do cereal produzido no estado”, destaca Bento. Segundo ele, essa distorção do mercado deve-se ao reduzido volume de oferta interna. “O ritmo dos negócios é baixo, porém, a demanda por parte de indústrias de menor porte que não têm acesso ao mercado externo segura os preços domésticos em alta”. Segundo o analista, assim que as ofertas da safra nova do Paraná e do Paraguai ingressarem no mercado, as cotações domésticas devem voltar à realidade de paridade de importação e os comportamentos dos preços internacionais e do câmbio retornam a ser variáveis-chaves.

Mundo — No cenário global, depois de quatro anos consecutivos de produções acima do consumo, os estoques do cereal para o final do ciclo 2016/17 são previstos em 254 milhões de toneladas, os maiores da história, conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda). A relação estoque/consumo subiu para 35%, a maior desde a temporada 2001/02. Segundo o analista, esse quadro de sobreoferta exerce forte pressão sobre as cotações que estão nos menores níveis desde 2006. “O preço atual (segunda quinzena de julho/2016), próximo a US$ 4,30/ bushel em Chicago, deve estar próximo de um ponto de suporte, pois existe a pressão sazonal da entrada da safra do Hemisfério Norte que ocorre entre junho e setembro. Porém, o quadro fundamental anteriormente mencionado deixa claro que não ocorreram grandes elevações das cotações internacionais”, explica.

O analista ressalta a necessidade de se ficar atento ao quadro de abastecimento do Mercosul. Depois de quase uma década de desestímulo à produção na Argentina, após a isenção das retenciones (imposto de exportação de 23%) e a desvalorização do peso em relação ao dólar, os argentinos devem voltar à cena do mercado mundial como um exportador de peso. “Com preços em alta no padrão monetário local e sem precisar deixar quase 25% do valor recebido para os cofres do governo, estima-se que os produtores daquele país elevarão a área plantada em 51% em relação à safra anterior, para 5,33 milhões de hectares”. A superfície seria a maior desde 2007/ 08. “Assim, o total produzido deve se elevar de 11 milhões de toneladas em 2015/16, para 16,5 milhões de toneladas na próxima temporada”.

No Paraná, a disputa com o milho safrinha reduziu a área do trigo em 15%, para 1,13 milhão de hectares, e no Rio Grande do Sul, será plantado 9% a menos, ou área de 800 mil hectares em 2016

A safra nova argentina ingressa no mercado em meados de dezembro e deve surtir efeito sobre a formação de preços no Brasil. “Nos últimos anos, em que o total ofertado no Mercosul não atendia à necessidade brasileira, os preços no bloco descolaram da referência de preços internacionais, as bolsas norte-americanas. A nova realidade argentina deve fazer com que se retorne ao que se verificava antes de 2007/08, quando esse país atendia mais de 95% das importações do Brasil”.

Menos área no Brasil — No Brasil, depois das frustrações ocorridas nas duas últimas safras gaúchas e com a valorização dos preços do milho, a safra 2016/17 terá redução na área plantada. No Paraná, a disputa com o milho safrinha derrubou a superfície em 15%, para 1,13 milhão de hectares. No Rio Grande do Sul, que na temporada 2014/15 plantou 1,15 milhão de hectares, as duas quebras consecutivas devem resultar em uma área de apenas 800 mil hectares, recuando 9% em relação ao ano anterior.

Conforme Bento, mesmo com essa queda na área, o potencial de produção de 6,175 milhões de toneladas supera a safra anterior em 16%. “Para que essa safra seja consolidada, terá que passar pelo crivo climático. Com o El Niño encerrado, esperasse um inverno mais seco e frio. Assim, o excesso de chuva no período da colheita deixa o posto de principal risco para as geadas em períodos críticos das plantas”, avalia. Para o segundo semestre de 2016 a expectativa é de clima positivo às lavouras. A passagem do La Niña, que é favorável à cultura do trigo, deve colaborar para uma safra cheia.

De acordo com o analista Jonathan Pinheiro, de Safras & Mercado, os preços tendem a recuar. No mercado internacional, a tendência é de manutenção da proximidade com os patamares mais baixos desde meados de 2006. “Os referenciais nas bolsas americanas seguirão pressionados, e consequentemente, devem pesar sobre as cotações no Mercosul. Mesmo que a taxa cambial se eleve, o trigo nacional deverá ter retração de preços, visto que o mercado segue bem acima dos praticados no âmbito internacional”, ressalta Pinheiro. “Vale destacar também que, devido à situação econômica do País, houve forte retração do consumo dos subprodutos da farinha, gerando redução no ritmo de moagem nacional. Com o consumo de trigo reduzido, a necessidade de importação é menor, e uma possível formação de estoques de passagem também é um fator baixista”.

Segundo ele, uma eventual elevação dos preços do milho, poderá puxar os preços do trigo também, já que esse é uma alternativa as indústrias de ração. “Em um primeiro momento, com a entrada concentrada da safra, os preços naturalmente irão recuar, e passado esse momento de pressão de oferta, o mercado internacional se encarregará de pressionar as cotações internas, baseado nas paridades de importação”, comenta Pinheiro. Ele indica que existe a possibilidade de intervenção governamental, por meio de leilões de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro), dentro da política de preços mínimos, para viabilizar o escoamento da produção, caso ocorra reduções muito fortes, que levem as cotações abaixo do mínimo de R$ 644,20 por tonelada para o trigo pão.