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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Algodão

 

No embalo da economia do País

O mercado doméstico da pluma foi pouco animador no primeiro semestre de 2016 em razão do freio de mão puxado pelo consumidor pela economia estagnada desde 2015. Crédito dificultado e medo do desemprego deverão manter a timidez nas vendas. A área 2016/17 deverá encolher quase 3%, inclusive pelo bom momento dos “concorrentes” soja e milho

Rodrigo Ramos rodrigo@safras.com.br

Uma retrospectiva do mercado doméstico de algodão mostra que o ano de 2016 iniciou ainda com reflexo do pífio desempenho do consumo nacional verificado em 2015. “Havia fraca comercialização tanto para o mercado spot como para o futuro, em virtude do maior numero de indústrias fornecendo férias coletivas e também pela escassez de oferta”, lembra o analista de Safras & Mercado Cezar Marques da Rocha Neto. A valorização em janeiro fez com que o preço no Cif/São Paulo fosse o maior dos últimos cinco anos. “Nesse período, os produtores estavam sem pluma, o que fez com que o preço fosse balizado pelas tradings atrelado às variações do mercado internacional e do dólar”, explica. O preço no Cif/ São Paulo saltou de R$ 2,24 centavos por libra-peso para 2,60 centavos por libra-peso, variação de 16,07%, sendo que a média do período foi de R$ 2,42 centavos.

O mercado iniciou fevereiro com negociações mais aquecidas. “Depois do período de férias coletivas, grande parte das indústrias teve que recompor estoques, mas encontrou um vendedor elevando as pedidas”, pondera Rocha Neto. No entanto, essa recomposição foi para período curto, pois não justificaria uma maior aquisição de estoques, visto que os consumidores estavam demandando menor quantidade de produtos têxteis em consequência da crise econômica. Na segunda quinzena, a desvalorização do dólar frente ao real e a maior flexibilização de oferta disponível fizeram com que o preço não se sustentasse e retornasse para patamares inferiores a R$ 2,60 centavos por libra-peso.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados sobre o varejo em 2015, que apresentou recuo de 4,3%, pior resultado desde 2011. “O Natal, período em que se espera um maior número de vendas, foi o pior nos últimos 15 anos”, destaca. Conforme o analista, toda essa queda foi reflexo dos dados ruins de economia, fazendo com que a população reduzisse o consumo e tivesse menos acesso ao crédito. Aliado a isso, o período de Carnaval, em fevereiro, diminuiu a intenção de compra. “Após o período de recesso carnavalesco, os compradores voltaram a tomar posições para demandas pontuais”, comenta. No início de março, a maior oferta em posse das tradings fez com que elas tivessem maior poder de barganha na hora da venda em comparação aos produtores, tirando espaço dos mesmos. Isso porque tinham comprado antecipadamente e agora podiam flexibilizar as pedidas.

Segundo trimestre — O começo de abril foi de fraca disponibilidade de oferta, tanto por parte dos produtores como das tradings. “A volatilidade do dólar no final de março e início de abril também foi um empecilho para que houvesse maior comercialização”, lembra Rocha Neto. A falta de oferta sustentou o preço em R$ 2,65 centavos por libra-peso. A maior oportunidade de negócios foi com as tradings, por causa dos contratos previamente acordados. Já os produtores estavam segurando algodão o maior tempo possível, com a expectativa de alta nos preços. “O spread entre tradings e compradores na hora da venda esteve em cerca de 300 pontos”, acrescenta.

Área plantada no Brasil em 2016/ 17 deverá ser de 930,07 mil hectares, recuo de 2,9%, segundo previsão de Safras & Mercado, que estima avanço de 0,8% na produtividade, para 1.444 quilos por hectare

O mês de maio manteve o ritmo lento de comercialização. A indústria demonstrava baixo interesse em virtude de o preço estar acima do que estava disposta a pagar. As exportações também apresentaram um baixo desempenho devido à falta de competitividade no mercado internacional. “O produto nacional estava cerca de 20% mais caro, fazendo com que a exportação fosse mais complicada”, explica o analista. E dados divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) referentes às vendas líquidas norte-americanas, em 5 de maio, trouxeram um sinal importante sobre o quadro de abastecimento de algodão no Brasil no final da atual temporada. “Pela primeira vez em dois anos, o Brasil teve um alto número de importação para maio”, frisa. Os Estados Unidos registraram para o Brasil 5.148 toneladas. “Para se ter ideia, nos 11 primeiros meses da temporada 2015/ 16, as aquisições internacionais foram de 6.484 toneladas”, pondera.

Em junho, o mercado trabalhou de forma tímida nas diversas praças de negociação do País. O fraco apetite das indústrias para o mercado disponível diminuiu a liquidez, pois grande parte delas estava suprida até o final do mês. Porém, houve uma quantidade considerável de consultas para a primeira quinzena de julho e de agosto em diante. “Muitos compradores estiveram aguardando uma maior flexibilização de oferta que deveria vir com o início da colheita na Bahia”, explica. “Teoricamente, com maior quantidade de oferta disponível, poderia haver uma pressão nos preços, fato que não ocorreu, pois havia preocupação sobre a qualidade do algodão que viria e também qual seria o tamanho da safra devido aos problemas climáticos enfrentados”, justifica.

As vendas dos produtores e dos comerciantes eram realizadas entre R$ 2,65 e R$ 2,70 por libra-peso. “As tradings, que conseguiam praticar preços mais baixos anteriormente, já não possuíam esse poder de barganha, pois a alta do mercado internacional fez com que os preços se sustentassem”, ressalta. Em julho, o preço sofreu desvalorização, ficando por volta de R$ 2,50 centavos por libra-peso. “A crise econômica atual será um dos problemas para a comercialização do algodão no mercado interno em consequência do desemprego e da falta de crédito para o cidadão brasileiro, pois o primeiro corte de gastos do cidadão seria de consumo no varejo”, lamenta. “Assim, as exportações tendem a continuar sendo o componente dinâmico do lado da oferta”, completa.

Nova York dispara em julho — No mercado internacional, o grande destaque ocorreu no início de julho, quando o Usda surpreendeu ao estimar um aumento de 1 milhão de fardos nas exportações norteamericanas. Com isso, o preço da pluma na Bolsa de Nova York chegou a bater na casa de 75 centavos de dólar por libra-peso, segurando inclusive o preço doméstico, mesmo com a entrada da safra no Brasil. O relatório de julho de oferta e demanda estimou a produção de algodão dos Estados Unidos na temporada 2016/17 em 15,8 milhões de fardos, ante 14,8 milhões no relatório passado. Para a safra 2015/16, eram esperados 12,89 milhões de fardos.

As exportações deverão ficar em 11,5 milhões de fardos em 2016/17, ante 10,5 milhões no relatório de junho. O consumo interno foi previsto em 3,6 milhões de fardos para 2016/17, mesmo patamar do mês anterior. Os estoques finais norte-americanos foram previstos em 4,6 milhões de fardos para a temporada 2016/17, contra 4,8 milhões do relatório anterior. No âmbito global, o Usda estimou a produção mundial em 102,55 milhões de fardos, ante os 103,17 milhões indicados em junho. As exportações mundiais foram estimadas em 34,46 milhões de fardos para 2016/17, ante 33,33 milhões em junho. A estimativa para o consumo mundial é de 111,60 milhões de fardos, ante 110,59 milhões indicados no relatório anterior. Os estoques finais foram projetados em 91,29 milhões, ante 94,73 milhões no relatório passado.

A expectativa é que a China colha 21,50 milhões de fardos na temporada 2016/17, mesmo patamar do relatório anterior. A produção do Paquistão para 2016/17 foi prevista em 8 milhões, ante 9 milhões no relatório anterior. O Brasil tem a safra 2016/17 estimada em 6,4 milhões de fardos, mesmo nível de junho. A produção indiana deve chegar a 27,5 milhões de fardos em 2016/17, ante 28 milhões no mês anterior.

Perspectivas não são boas para segundo semestre — Como o algodão é bem de consumo e o Brasil está com problemas de desemprego e no PIB, o primeiro corte é na venda de vestuário no varejo. “A alta taxa de juros para tomar crédito limita a compra de pessoa física em loja, o que faz com que haja menor número de vendas”, explica Rocha Neto. “O medo de desemprego no País também faz a população reduzir o consumo”, acrescenta.

O custo para plantar algodão é alto e a rentabilidade para safra 2015/ 16 deverá ser abaixo do esperado, em especial na Bahia e algumas regiões do Mato Grosso, o que faz com que os produtores prefiram mudar para alguma cultura que tenha maior rentabilidade, como soja e milho. “O alto preço dessas commodities está sendo um atrativo para diversos produtores que estão pensando em substituir a área de algodão”, frisa. A lucratividade do algodão, seguindo a produtividade média da última safra e o custo de produção levantados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agrícola (Imea), está atualmente em (-10,8%).

A boa cotação da soja e o custo elevado para a lavoura do algodão estão desestimulando os cotonicultores, sendo que no maior produtor, Mato Grosso, há ainda a "concorrência" com o bom momento do milho

No âmbito global, haverá redução de estoque final para a próxima temporada, o que poderá sustentar o preço. “Contudo, apesar da queda de estoques, o volume ainda está muito acima da média histórica”, lembra. “Isso mostra que, fundamentalmente, os preços devem ser mais firmes em relação ao ano anterior, mas ainda em níveis baixos”, frisa. Corroboram para essa última visão a tendência de manutenção do dólar forte no âmbito mundial, os preços do petróleo ainda baixos – favorecendo a fibra sintética - e o fraco desempenho da economia mundial.

Plantio deverá cair 2,9% — A área plantada com algodão no Brasil em 2016/17 deverá ser de 930,07 mil hectares, recuo e 2,9% sobre em 2015/16, de 957,99 mil hectares. A previsão é de Safras & Mercado em julho de 2016. A indicação inicial é de um avanço de 0,8% na produtividade, que passaria de 1.433 quilos para 1.444 quilos por hectare. Com isso, a produção poderá atingir 1,552 milhão de toneladas, elevação de 3,79% ante a safra anterior, de 1,496 milhão. Para o analista Rocha Neto, o alto preço da soja, o custo elevado para a produção de algodão, a quebra de safra em algumas regiões e a dificuldade em tomar crédito desestimularam os cotonicultores. Em Mato Grosso, maior produtor, a queda reflete também a melhor remuneração do milho. “Já na Bahia, segundo maior produtor, a quebra da safra passada desanimou o produtor”, completa.