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Milho

 

Momento dourado

Os números (e as perspectivas) do milho são favoráveis a quem cultiva o cereal. A escassez de oferta em razão da perda de áreas para a soja e as quebras de colheita do cereal pelo clima fizeram com que os preços disparassem no mercado interno. E Safras & Mercado projeta que as cotações permanecerão firmes no mercado doméstico ao longo do primeiro semestre de 2017, entre R$ 35 e R$ 40 a saca

Arno Baasch arno@safras.com.br]

O balanço do mercado de milho ao longo do primeiro semestre de 2016 apontou um ambiente de escassez de oferta em todo o Brasil. Na avaliação do analista de Safras & Mercado Paulo Molinari, as exportações recordes registradas em 2015, que superaram as 34,177 milhões de toneladas, somadas à queda de plantio na safra de verão, ocasionaram um quadro de oferta interna muito ajustada no período. A área de milho MF sofreu um corte significativo no verão, de 4,356 milhões de hectares para 3,902 milhões de hectares. Os estados que mais reduziram foram Mato Grosso (34,6%, de 115,2 mil hectares para 75,33 mil), Mato Grosso do Sul (28,7%, de 56,7 mil para 40,45 mil), Paraná (25,5%, de 714,56 mil para 531,99 mil) e Minas Gerais (23,4%, de 1,140 milhão para 872,5 mil hectares), que passaram a dedicar o cultivo da soja na primeira safra e aumentaram a produção do cereal na safrinha.

Ainda que a produtividade média da safra de verão tenha avançado por conta dos bons investimentos em tecnologia, passando de 5.537 quilos para 5.818 quilos por hectare, o volume colhido acabou recuando e sendo insuficiente para atender a necessidade de demanda interna. “A safra de verão desenvolveu-se praticamente dentro do normal na Região Centro-Sul. Mesmo assim, a produção atingiu 22,702 milhões de toneladas, volume inferior às 25,117 milhões de toneladas colhidas na safra verão 2015”, comenta.

Molinari ressalta, entretanto, que houve problemas de clima na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o que ajudou a reduzir a produção de milho, além de uma queda na área cultivada na Região Nordeste, de 1,722 milhão para 1,259 milhão de hectares, o que também acabou influenciando na diminuição da produção, de 7,003 milhões de toneladas para 4,628 milhões.

O analista entende que as importações da Argentina e do Paraguai ao longo dos primeiros seis meses do ano, ao redor de 1,6 milhão de toneladas, ajudaram um pouco, mas não foram suficientes para amenizar a escassez de oferta interna. Além da produção aquém da necessária, a exportação de pelo menos 7,804 milhões de toneladas entre fevereiro e junho contribuiu para agravar o problema. “Os produtores aproveitaram a boa oportunidade de negócios no cenário internacional com a desvalorização do real frente ao dólar, mesmo com os preços já aquecidos no mercado interno”, destaca.

Em razão do clima, Safras & Mercado estima a produtividade média de 3.990 quilos do cereal por hectare, bem distante dos 5.970 quilos da safrinha 2015

A primeira metade do ano foi um período bastante complicado para os consumidores de milho, mas muito favorável para os produtores que decidiram apostar na safra de verão de milho. “O cenário de milho deste ano mudou o panorama do mercado, apontando que a entressafra brasileira ocorre, agora, na primeira metade do ano”, explica. A escassez de oferta fez com que os preços disparassem no mercado interno, elevando os custos de produção dos setores dependentes de milho para alimentação dos animais, como avicultura, suinocultura e bovinocultura. “Isso fez com que os consumidores buscassem alternativas para poder manter a alimentação das granjas, como as compras de trigo, o que também propiciou um aumento de preços para esse cereal. Houve inclusive a liberação das importações de milho dos Estados Unidos, mas essas não trouxeram um grande resultado até agora”, avalia.

Plantio recorde na safrinha — Molinari destaca que a elevação do cultivo na segunda safra, ocupando áreas plantadas com soja no verão, já virou uma rotina no Brasil. “Esse é um binônio de culturas que deu certo e que continuará sendo praticado nos próximos anos”, analisa. Ele ressalta, entretanto, que neste ano fatores adicionais contribuíram para o aumento na área, como os elevados preços do cereal nos meses de fevereiro e março e o sentimento de baixa oferta interna. “Muitos produtores resolveram plantar milho mesmo fora do período ideal de clima recomendado, entre o final de março e o começo de abril, por conta dos preços atrativos”, afirma.

O analista destaca que a área cultivada com a segunda safra de milho foi recorde, de 11,319 milhões de hectares, incremento de 20,1% frente aos 9,427 milhões na safrinha 2015. O maior cultivo ocorreu no Mato Grosso, com 4,176 milhões de hectares, superando em 18,1% os 3,536 milhões do ano anterior. Logo atrás vem o Paraná, com 2,370 milhões de hectares, 21,4% acima dos 1,952 milhão na segunda safra de 2015. “O estado de Minas Gerais merece destaque também, por ter elevado a área em 48%, de 399,050 mil hectares para 590,635 mil hectares. Goiás apresentou um bom aumento, de 22,3%, com a área avançando de 1,557 milhão de hectares para 1,905 milhão de hectares”, salienta Molinari.

Apesar do incremento na área, o fato de grande parte do milho ter sido cultivado fora da época recomendada trouxe problemas aos produtores. “Muitos estados enfrentaram dificuldades climáticas, seja com chuvas em excesso no início do cultivo, caso de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, como estiagens prolongadas nas fases de floração e enchimento de grãos, caso de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso. Além disso, é preciso mencionar ainda as baixas temperaturas e as geadas que afetaram o desenvolvimento das lavouras de safrinha no Paraná, Sul de Mato Grosso do Sul e de São Paulo, o que também ajudou a reduzir o potencial produtivo”, analisa.

Fonte: Safras & Mercado, IBGE, Cooperativas, Produtores e Indústrias
Os dados de 2014 estão embutidos no dados geral da safra de verão. A partir de 2015 estão separados (*)

Por conta dessas dificuldades climáticas, Safras & Mercado estima que a safrinha deve registrar uma produtividade média de 3.990 quilos por hectare, bem aquém dos 5.970 quilos por hectare obtidos em 2015. “As maiores quedas no potencial produtivo devem ocorrer em Goiás, de 6.270 quilos por hectare para apenas 2.550 quilos, em Minas Gerais, de 5.050 quilos por hectare para 2.550 quilos e em Mato Grosso, de 5.660 quilos por hectare para 3.850 quilos por hectare”, avalia.

Molinari afirma que a estimativa inicial de Safras previa uma produção de 61,276 milhões de toneladas de milho safrinha, mas com os problemas climáticos a produção foi revisada e deve atingir 45,169 milhões de toneladas. Esse volume é inferior às 56,277 milhões de toneladas de 2015 e também fica abaixo das 45,2 milhões de toneladas da segunda safra de 2014. “As maiores quebras serão registradas em Goiás, com uma produção de 4,858 milhões de toneladas, ante 9,765 milhões de toneladas do ano passado; no Mato Grosso, que colherá 16,078 milhões de toneladas, ante 20,014 milhões de toneladas da safrinha 2015; no Mato Grosso do Sul, cuja produção recuará de 8,810 milhões de toneladas para 7,622 milhões de toneladas; e em Minas Gerais, com uma safra estimada de 1,506 milhão de toneladas, aquém dos 2,015 milhões de toneladas obtidas no ano passado”, detalha.

O analista informa que a produção do cereal neste ano ficará abaixo dos 88,397 milhões de toneladas da temporada 2014/15. “O volume final ainda dependerá do desempenho da colheita da segunda safra, que tem avançado de forma gradativa por conta da elevada umidade dos grãos. Até o momento, a safra está estimada em 72,499 milhões de toneladas, mas ainda poderá ser revista conforme o potencial efetivamente colhido nos estados produtores”, sinaliza.

A área cultivada com a segunda safra de milho foi recorde em 2016, de 11,319 milhões de hectares, aumento expressivo de 20,1% ante os 9,427 milhões na safrinha anterior

Preço seguirá elevado — Analisando a perspectiva de queda na produção de milho de 2016, o quadro de oferta e demanda para a temporada deve ser apertado no País, de 4,131 milhões de toneladas, embora superior ao registrado ao final da temporada 2015, de 3,893 milhões de toneladas. Molinari entende que somente será possível chegar a esses volumes de estoques com a expectativa de queda nas exportações brasileiras do cereal. Até o momento a expectativa é de que os volumes alcancem 15,776 milhões de toneladas, o que representaria 18,401 milhões de toneladas a menos que o volume embarcado em 2015. “Dependendo ainda desse fluxo de exportações durante o segundo semestre, poderemos ter novamente uma repetição do quadro de escassez registrado neste ano”, comenta.

O analista entende que, independentemente do volume a ser exportado, o produtor nacional precisará recuperar a área de milho verão para tentar equilibrar a oferta no primeiro semestre de 2017. “Acredito que haverá uma recuperação regional, mas não o suficiente para recompor plenamente a oferta de milho, uma vez que os preços da soja e do feijão ainda estão mais atrativos que os do cereal”, avalia. A oferta total de milho na temporada 2016 deve alcançar 77,993 milhões de toneladas, abaixo dos 96,595 milhões de toneladas disponibilizadas no mercado interno em 2015. Por inexistência de maiores ofertas e por conta das alternativas buscadas pelos setores demandadores o consumo total de milho recuará dos 92,701 milhões de toneladas registradas em 2015 para 73,861 milhões de toneladas neste ano.

O consumo interno de milho deverá ficar ligeiramente abaixo dos 58,524 milhões de toneladas registradas em 2015, alcançando 58,085 milhões de toneladas. O consumo humano é estimado em 1,253 milhão de toneladas, sem alterações ante 2015, enquanto o segmento industrial deverá demandar 7,883 milhões de toneladas, aquém dos 8,178 milhões consumidas em 2015. Já o consumo voltado à alimentação animal deverá aumentar um pouco, de 48,137 milhões de toneladas para 48,209 milhões de toneladas.

Molinari projeta que os preços do milho permanecerão firmes ao longo do segundo semestre, mas talvez não tão altos quanto na primeira metade do ano. “A preocupação no momento está com o forte movimento de retenção de oferta por parte do produtor. Essa decisão acaba fazendo com que os preços permaneçam firmes neste momento de pleno andamento da colheita (da safrinha). Por outro lado, ajudam a inibir um maior movimento na exportação, o que evita uma elevação ainda mais acentuada dos preços”, sinaliza.

Área da safra verão vai crescer — Por conta dos preços atrativos do cereal, melhorando a relação na comparação com a soja, e diante da necessidade de recomposição nos estoques, a previsão de Safras & Mercado aponta para um incremento de 7,8% na área de milho na safra verão 2016/17 em relação à anterior, ocupando 4,205 milhões de hectares. Em termos de custos, Molinari acredita que haverá um equilíbrio em relação à safra passada, por conta de não ter havido uma forte correção nos valores de insumos e fertilizantes, que inclusive estão mais baratos em relação a 2015.

O analista afirma que o maior incremento de área, de 17%, está previsto para Minas Gerais, que poderá ocupar 1,021 milhão de hectares de milho verão, seguido por Goiás e Distrito Federal, de 13,1%, cuja área pode alcançar 424,6 mil hectares. “O Mato Grosso, por outro lado, concentrando o cultivo de soja na primeira safra, deverá cultivar 67,2 mil hectares de milho, o que representa uma queda de 10,8%. O Mato Grosso do Sul deve apresentar uma retração de área de 1,3%, ocupando 39,93 mil hectares”, detalha.

Molinari estima que a produtividade média possa voltar a crescer frente à obtida neste ano, chegando a 5.841 quilos por hectare. Se confirmada, esse rendimento médio possibilitará uma colheita de 24,564 milhões de toneladas de milho verão 2016/17, crescimento de 8,21%. “A expectativa é de que o Rio Grande do Sul produza o maior volume, de 5,693 milhões de toneladas, seguido de perto por Minas Gerais, com 5,614 milhões de toneladas. Logo atrás deve aparecer o Paraná, com 3,967 milhões de toneladas, e Santa Catarina, com 3,764 milhões de toneladas”, sinaliza.

No que tange à segunda safra 2017, a expectativa inicial de Safras & Mercado é de que a área cultivada poderá atingir 11,217 milhões de hectares, o que representa uma queda de 0,9% frente à plantada neste ano. A maior retração na área até o momento é esperada para Minas Gerais, de 22,7%, ocupando 456,7 mil hectares. Além disso, há expectativa de recuo de 0,8% na área de São Paulo, atingindo 540,5 mil hectares, e de retração de 0,7% em Mato Grosso do Sul, para 1,72 milhão de hectares.

Em contrapartida, Molinari estima que a área em Goiás possa crescer 2,4%, para 1,95 milhão de hectares. “Um leve incremento de área também esperado para o Mato Grosso, de 0,1%, que deve ocupar 4,180 milhões de hectares de milho”, analisa. Safras estima que a produtividade média da safrinha deverá alcançar 5.501 quilos por hectare, superando a de 2016, o que proporcionaria uma produção de 61,708 milhões de hectares. A previsão é de que o Mato Grosso lidere a produção segunda safra, com 20,9 milhões de toneladas, seguido pelo Paraná, com 14,694 milhões, Goiás, com 11,7 milhões, e Mato Grosso do Sul, com 9,116 milhões.

O analista informa que as Regiões Norte e Nordeste deverão ter uma retração de 5,7% na área do cereal em relação ao 1,546 milhão de hectares cultivados em 2015, ocupando 1,456 milhão de hectares. A produtividade média esperada deverá avançar bem, de 2.997 quilos por hectare para 4.071 quilos. Se confirmada, possibilitará uma produção de 5,929 milhões de toneladas, superando a deste ano, de 4,628 milhões.

A estimativa de Safras & Mercado prevê ainda que a safra total de milho 2016/17 possa atingir 92,202 milhões de toneladas, com a produtividade média avançando de 4.324 quilos por hectare para 5.463 quilos. Molinari ressalta que o milho seguirá enfrentando a concorrência da soja, tanto no mercado interno quanto no cenário internacional, o que poderá influenciar na área final a ser plantada. “Em termos de comercialização, a tendência é que os preços do cereal no mercado doméstico oscilem entre R$ 35 e R$ 40 no primeiro semestre de 2017”.

Fonte: Safras & Mercados, Cooperativas, Produtores e Indústrias