A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortalicas

 

Mais organização

O setor de hortaliças no Brasil carece de estatísticas confiáveis e união de produtores de culturas específicas. A partir da venda de sementes, deduz-se que são produzidas ao ano quase 20 milhões de toneladas e movimentados R$ 53 bilhões

Thais D’Avila

A falta de números querepresentem corretamente osetor de hortaliças no Brasil é um dos problemas que a recém-criada Comissão Nacional de Hortaliças e Flores da CNA tem pela frente. Hoje, a principal estimativa de volume produzido e comercializado pelo setor no Brasil é feita pela Associação Brasileira de Comércio de Sementes e Mudas (ABCSem) e apontou que, entre as 18 principais hortaliças produzidas no País, o faturamento é de quase R$ 53,5 bilhões. O último levantamento realizado pela ABCSem apontou que o Brasil produz 19,6 milhões de toneladas de hortaliças. Conforme o secretário executivo da entidade, Marcelo Pacotte, a associação vai realizar no próximo ano um novo levantamento sobre a importância socioeconômica do setor de hortaliças no Brasil. As empresas associadas à entidade são responsáveis por 95% das sementes e mudas utilizadas no Brasil.

A busca de números que identifiquem corretamente a aptidão e as particularidades de cada região é o principal desafio que o presidente da Comissão de Hortaliças da CNA, Renato Abdo, tem pela frente. O grupo foi criado no final de julho com o objetivo de organizar a cadeia e fortalecer os micro, pequenos e médios produtores de hortaliças. “Não conseguimos ter informações precisas pela dinâmica da atividade. Os produtos ficam prontos em 40 a 45 dias”, justifica.

As hortaliças são os alimentos que mais rapidamente refletem os problemas climáticos no preço pago pelo consumidor. Se chove demais em uma localidade produtora, logo as gôndolas de supermercados apontam uma alta de preços. Em 2014 e neste ano não tem sido diferente. Desta vez, quem acusou o golpe mais forte foi a cebola. A hortaliça registrou, para o consumidor, preços superiores a R$ 8 o quilo. Porém, apesar de a chuva ter sido fator importante na alta do preço da hortaliça, o clima não foi o único culpado. “A cebola está cara também de onde importamos”, diz o presidente do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), Carlos Schimdt. Segundo ele, boa parte da cebola importada vem da Espanha, onde o produto também está caro.

Schmidt fala que o que ocorreu com a cebola acontece com quase todas as hortaliças. “É uma cadeia que não está organizada. Temos cebola no Brasil com pequenos produtores de 4 a 5 hectares, no máximo 30 a 40 hectares”, descreve. Isso não seria um problema se, conforme ele, produtores com essa característica não migrassem de uma cultura para outra conforme a remuneração, tornando a oferta instável. A solução, explica, é criar sistemas para organizar esses produtores. “Se você tem uma associação de ceboleiros, isso não acontece. Por isso, o Ibrahort está trabalhando para criar associações para cada cultura, com a finalidade de organizar a produção e ter preços mais estáveis”.

O chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Hortaliças, Ítalo Guedes, concorda com o presidente do Ibrahort. “Nós notamos que o setor de produção de hortaliças, com algumas exceções como alho e tomate para indústria, é pouco organizado. A forma como o produtor conseguiria superar muitas dificuldades seria se organizando em associações e cooperativas”, diz.

Cada brasileiro consome em média 30 quilos de hortaliças/ano, enquanto a média mundial é de 70 quilos e, em países como Coreia do Sul e Itália, o consumo supera 150

Mesmo com a gangorra de preço e produção, o setor vem melhorando de condições, afirma Schmidt. “Se analisarmos os últimos dez anos, a produtividade aumentou e muito”. O presidente do Ibrahort explica que muito se deu em função da adoção de algumas tecnologias como irrigação por gotejamento e hidroponia. “No cultivo protegido, o Brasil está se desenvolvendo. Temos telas com quatro a sete metros de altura. O sol e a chuva são filtrados, os pingos são ‘quebrados’ para evitar que o impacto na folha”, explica. Já na hidroponia, uma das grandes vantagens é o bemestar do trabalhador. “A maior parte das pessoas trabalha em pé. O produto sai mais limpo e a produtividade melhorou bem”.

Mão de obra escassa — O presidente do Ibrahort ratifica um problema enfrentado em diversas outras culturas. “Temos dificuldade de mão de obra no campo das hortaliças, sim”, revela Schmidt. Como exemplo, cita um produtor que tem 60 hectares de área coberta, mas como todos os funcionários precisam trabalhar agachados, ele tem dificuldade de mão de obra. De olho no crescimento dos cultivos protegidos, a Embrapa Hortaliças está desenvolvendo trabalhos para a melhor adaptação das culturas para esse sistema de cultivos nas regiões tropicais. Conforme o chefe-adjunto da unidade, o foco é no controle interno de temperatura, sem aumentar o consumo de energia.

Um problema identificado pelo presidente da Comissão de Hortaliças da CNA é que apenas os horticultores com produção familiar conseguem as linhas de financiamento para investir em cultivo protegido. Para quem é micro, pequeno ou médio produtor, mas não está enquadrado nos critérios do Pronaf, as linhas de financiamento possuem valores menores, não suportando a instalação de uma plantação coberta.

A ABCSem aponta que atualmente os destaques no cultivo protegido são alface, rúcula, tomates e pimentões. “Não precisamos desenvolver sementes específicas para essa modalidade de cultivo, a genética é a mesma. A hidroponia já é uma realidade no Brasil e a indústria de sementes, através da ABCSem, vem realizando encontros itinerantes para capacitar o produtor”, explica Pacotte.

Mais perto do consumidor — O consumo de hortaliças no Brasil ainda é pequeno se comparado à média mundial, de 70 quilos/habitantes/ano. Cada brasileiro consome, em média, 30 quilos, enquanto em países como Coreia do Sul e Itália o consumo supera 150 quilos. O chefe-adjunto da Embrapa Hortaliças junta no mesmo raciocínio os números de consumo e desperdício. “O desperdício no segmento de hortaliças chega a 40% em algumas espécies. Isso acaba interferindo até mesmo na disponibilidade de produtos”, explica Ítalo Guedes.

Uma das apostas da unidade é no desenvolvimento de soluções para a agricultura periurbana, justamente para reduzir o desperdício. “O cultivo protegido ao redor dos grandes centros consumidores de hortaliças, esses cinturões brancos de estufas, tem o potencial de diminuir a distância entre os centros produtivos e os consumidores”, avalia Guedes.

Segundo ele, o sistema traz uma série de vantagens, já que uma das razões do grande percentual de perdas é a distância. “Quanto mais próximos estiverem, quanto menor a distância tiverem que deslocar as hortaliças para chegar ao consumidor final, menores as perdas e as variações de preço e maior a disponibilidade”.

O presidente do Ibrahort aponta que São Paulo vem despontando nesse quesito. Em 2006, eram entre oito e dez polos de hortaliças ao redor das grandes cidades. “Hoje temos mais de 40 polos em cidades como Ribeirão Preto, Jales, Presidente Prudente. É uma tendência ainda é aumentar esse número. Levar o produto para mais perto do consumidor é o que já acontece em países como a Itália, onde a produção está espalhada pelo País”.