A Granja do Ano – 33 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Ovinos/Caprinos

 

Espaço para expandir

Não falta demanda para a carne ovina no Brasil, mas o setor ainda carece de padronização da carne e políticas públicas de incentivo aos criadores, além de tecnologias de produção e de gestão em todos os estágios da cadeia

Jorge Correa

O consumo de carne ovina no Brasil foi de aproximadamente 89 mil toneladas em 2012, ano do último dado disponível. A tendência é que esse número cresça nos próximos anos. Especialmente porque apenas 7% da carne consumida é importada. Segundo o mais recente levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rebanho nacional de ovinos soma 17,6 milhões de animais. "Existe área para expansão e demanda pela carne ovina, mas o crescimento do setor ainda enfrenta alguns problemas, como a falta de padronização da carne, políticas públicas insuficientes para auxiliar os produtores e a falta de aproximação entre os diversos elos da cadeia da ovinocultura", explica Juan Ferelli de Souza, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Na avaliação dele, o desenvolvimento do setor depende da adoção de tecnologias de produção e de gestão em todos os estágios da cadeia produtiva, desde o setor de fornecimento de insumos aos produtores até o setor varejista, passando pelos estágios de produção rural, abate e processamento. "No estágio da produção rural, a principal carência está na adoção de tecnologias de produção que, mesmo simples, podem proporcionar incrementos de produtividade muito altos aos produtores rurais", afirma. Ele comenta ainda que, no estágio de abate e processamento da carne, os altos custos de produção impostos pela legislação sanitária em vigor, que é muito antiga, acabam por inviabilizar a atividade em muitos casos.

Conforme o pesquisador, as melhorias devem iniciar pelo setor de produção de insumos, que incluem tecnologias para a produção de alimentos, de recuperação e conservação de solos, de combate às enfermidades e de melhoramento genético, entre outras. Souza lembra que o estágio de abate e processamento da carne ovina ainda tem altos custos impostos pela legislação sanitária em vigor, que é muito antiga e acaba por inviabilizar a atividade em muitos casos.

O rebanho de caprinos no Brasil é estimado em 10 milhões de animais, distribuído em mais de 400 mil propriedades, mais de 90% no Nordeste

"Há uma grande carência de gestão profissional, especialmente em relação ao relacionamento com os produtores rurais que lhes fornecem os animais para o abate", explica. "Não há uma estratégia voltada para o desenvolvimento mútuo e comprometimento entre as agroindústrias e os produtores rurais, deixando uma grande lacuna para a atuação dos atravessadores", diz. Estes, denuncia Souza, utilizam estratégias de relacionamento muito mais eficientes com os produtores do que a indústria formal, o que faz com que os criadores lhes deem preferência na venda dos ovinos que produzem.

São Paulo, importante centro consumidor do Brasil, é um termômetro do consumo de carne ovina. Para o presidente da Associação Paulista de Criadores de Ovinos (Aspaco), Bruno Garcia Moreira, a situação faz com que os produtores optem por trabalhar com raças que apresentam aptidão forte para produção de carne de cordeiro de boa qualidade. Ele não dispõe de números que mostrem o perfil da demanda no estado, mas indica que existem alguns entraves para que o crescimento da atividade seja maior. O que não é muito diferente do restante do País. O dirigente cita como necessidades imediatas a assistência técnica especializada, o mapeamento e a quantificação do setor de ovinos no estado e a formatação e a consolidação da cadeia produtiva local.

As medidas estão sendo tomadas. Moreira lembra que a Aspaco desenvolveu recentemente um trabalho de pesquisa em parceria com a Faculdade de Medicina Veterinária de Araçatuba (Unesp/ Araçatuba) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pelo qual foi desenvolvido o Projeto Cordeiro Paulista (PCP), que foi publicado em uma revista norte-americana especialista na publicação de artigos científicos para pequenos ruminantes, como ovinos e cabras. "O mercado interno está ávido por carne de ovino de boa procedência e boa qualidade. Existe uma demanda muito maior de consumo do que de produção de carne no Brasil e de maneira muito clara no estado de São Paulo, que é sem dúvida, o grande consumidor de carne ovina no Brasil", destaca o dirigente.

Para ele, a evolução nos últimos anos foi boa. Devido à exigência do consumidor, produtores, frigoríficos e varejo foram obrigados a produzir e entregar ao consumidor um produto hoje de alta qualidade, com produção tecnificada. "Isso realmente foi muito rápido e sem volta", destaca.

Caprinos e a carne magra — O rebanho de caprinos no Brasil é estimado hoje em 10 milhões de animais, distribuído em mais de 400 mil estabelecimentos agropecuários. É uma evolução significativa se for considerado o número de cabeças existentes em 1970: 14,6 mil. A produção de leite de cabra é de cerca de 21 milhões de litros e envolve, em grande parte, empresas de pequeno porte. Segundo pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos, Vinícius Guimarães, 93% do rebanho caprino encontra-se no Nordeste, com destaque para Bahia, Pernambuco, Piauí e Ceará.

Segundo o especialista, está acontecendo uma mudança de atitude por parte dos consumidores de alimentos. "Existe uma tendência, principalmente nos países desenvolvidos, de que as preocupações com a saúde e bemestar em geral, incluindo receios ambientais, passem a ter cada vez mais importância no processo de escolha dos consumidores", ressalta, lembrando que esse cenário, aliado ao fenômeno da globalização, poderá impulsionar o consumo mundial de carne caprina.

Ele ressalta que, entre as carnes mais consumidas no mundo, a carne caprina é a mais magra (contém o menor teor de gordura), inclusive, mais que a de frango. Por exemplo, em cada 100 gramas de carne assada ao forno, a carne caprina apresenta 2,75 gramas de gordura, contra 3,75 da de frango, 17,14 da bovina e 25,74 da suína. "Esse diferencial, aliado às estratégias de conquista de novos mercados, poderá impulsionar consideravelmente o consumo mundial de carne caprina. Na avaliação de Guimarães, as condições dos mercados externo e interno são favoráveis ao desenvolvimento da caprinovinocultura. Salienta, entretanto, que para criar, manter ou ampliar parcelas nos mercados externo e interno será necessário produzir com qualidade total.