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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

 

Calmo demais

Embora a demanda por lácteos no Brasil tenha sido o principal estímulo para os aumentos de produção nos anos recentes, a atual retração econômica indica uma freada no crescimento do consumo dos brasileiros em 2015

Gilson R. da Rosa

A produção brasileira de leite, que ao longo dos últimos anos vinha apresentando um crescimento médio anual na faixa de 4,5%, não deverá repetir o mesmo desempenho em 2015. Embora os números ainda não sejam oficiais, a projeção inicial do setor é de que o volume possa chegar a 36,4 bilhões de litros, o que representaria um incremento de apenas 2,5% em relação aos 35,6 bilhões de litros estimados para 2014. De acordo com o diretor da Agripoint Consultoria, Marcelo Pereira de Carvalho, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná já respondem por mais da metade da produção nacional. "Em 2013, último dado oficial disponível, Minas produzia 27,2%; Rio Grande do Sul, 13,2%; e Paraná, 12,7% do total do Brasil", explica.

Ainda assim, na avaliação de Carvalho, há poucos indícios de que o volume coletado possa crescer muito além dos 36 bilhões de litros em 2015 já que a produção caiu 1% no primeiro trimestre. "Este é um ano de muitas variáveis. A mais nova no contexto dos últimos 15 anos diz respeito à relação preço e oferta. Sempre que havia queda nos preços era devido ao excesso de oferta. Entretanto, os preços no varejo, no atacado e os pagos ao produtor estão mais baixos que em 2014, ou seja, temos um quadro de oferta baixa e de preço baixo. No mercado externo, os preços são os menores dos últimos cinco anos e os piores desde 2009", compara.

Para o presidente da Comissão Nacional do Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvim, também são muitas as variáveis que inviabilizam uma prospecção futura do mercado. "Temos a questão do câmbio que vai influir nos preços do milho e do farelo da soja, os altos custos de produção, o clima e, obviamente, a queda nos preços internacionais, que tem contribuído para o aumento das importações de leite do Mercosul", observa.

Influências externas — Segundo o dirigente, as importações de lácteos do Mercosul cresceram 199,15% no primeiro semestre de 2015 em relação à média do mesmo período nos anos de 2011 a 2014 e atingiram 64,7 mil toneladas. Em relação ao mesmo período do ano passado, o incremento é de 34,1%. "Do total importado, 92,75% vieram do Uruguai, sendo que 89,72% do produto adquirido foi de leite em pó", aponta.

Conforme o diretor do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat-RS), Darlan Palharini, as importações de leite em pó no primeiro semestre cresceram 516,85% em relação à média dos primeiros semestres de 2011 a 2014, e atingiram 26 mil toneladas. "Hoje há uma queda no preço internacional do leite em pó e nessas condições o produto importado está em média 50% mais barato que o nacional, inviabilizando as exportações. Desse modo, para poder competir, seria preciso pagar R$ 0,50 o litro ao produtor, o que inviabilizaria a atividade", argumenta.

O analista sênior do banco holandês Rabobank, Andrés Humberto Padilla Villavaces, estima uma possível melhora nos preços internacionais dos lácteos, que estão em patamares historicamente baixos, somente para meados de 2016. Em sua apresentação no Congresso Internacional do Leite, em julho, em Porto Alegre, ele lembrou que a China diminuiu em 50% as importações de lácteos entre janeiro e abril de 2015 na comparação com o mesmo período de 2014, enquanto a Rússia diminuiu em 42% as compras, em igual base de comparação.

O evento organizado pela Embrapa Gado de Leite e pelo Instituto Gaúcho do Leite (IGL) reuniu especialistas de países como Holanda, Argentina, Colômbia, Uruguai e Brasil, para discutir temas como a qualidade do produto que chega à mesa dos brasileiros, inovação, sustentabilidade, políticas públicas, gestão e sucessão de propriedade, novas abordagens sobre assistência técnica e extensão rural. Para esse público Padilla explicou que existe uma tendência de estabilidade nas compras chinesas já a partir do segundo semestre, o que deve favorecer o mercado, mas não será suficiente para compensar o desempenho do início do ano, nem para reverter a pressão sobre os preços. “Só esperamos uma trajetória de recuperação de preços internacionais no segundo trimestre do ano que vem. Ainda temos pelo menos nove meses de preços pressionados pela frente”, afirmou.

Na opinião de Marcelo Pereira de Carvalho, da Agripoint, para que ocorra um equilíbrio nos preços internacionais, teria que haver uma queda significativa na produção. “Mas não é o que se prevê. Em abril deste ano, a União Europeia removeu as restrições que limitaram a expansão da produção de lácteos no continente europeu por três décadas. Com isso, a produção na Europa deverá crescer”, ponderou.

Mercado interno — Embora a demanda por lácteos no País tenha sido o principal estímulo para os recentes aumentos de produção, no curto/médio prazo, a conjuntura macroeconômica indica uma retração na capacidade de crescimento do consumo dos brasileiros. “Se em 2014 houve uma queda no consumo de lácteos por conta da desaceleração da economia brasileira, essa tendência deverá ser ainda mais acentuada em 2015, desta vez, pelo decréscimo da economia. O consumidor continua comprando leite, mas não outros produtos como queijos e outros derivados lácteos de maior valor agregado. Assim, não creio em um aumento do consumo per capita, que é de 180 litros por habitante. E com isso, os preços também não vão melhorar”, estima o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), Jorge Rubez.

O mercado não tem perspectivas de que o volume coletado de leite possa crescer neste ano muito além de 36 bilhões de litros, já que a produção caiu 1% no primeiro semestre

As perspectivas para o mercado do leite em 2015, segundo ele, são de preços firmes para o produtor, porém, em patamares mais baixos que no ano passado. “O leite longa vida no varejo está sendo vendido em média a R$ 2,80, enquanto o preço pago ao produtor varia de R$ 0,98 a R$ 1,10. A margem para o produtor é muito apertada, já que, além dos custos de produção, há uma série de fatores que contribuem para encarecer a atividade, como os impostos estaduais, a inflação, o dólar valorizado, a questão logística, o preço dos combustíveis, a situação precária das estradas, a mão de obra escassa”, avalia o dirigente.

Em anos como este, a alternativa encontrada por boa parte dos produtores para ajustar o custo de produção à realidade, conforme Jorge Rubez, é baratear os gastos com a alimentação do gado. Ou seja, reduzir o concentrado, que é a ração, e aumentar o volumoso, no caso o capim e a silagem. “O problema com essa prática é a queda na produtividade por vaca”, considera.

Para Rodrigo Alvim, da CNA, a baixa produtividade dos rebanhos brasileiros é uma questão que preocupa não apenas o setor produtivo, mas o próprio Ministério da Agricultura. “Em reunião com a ministra Kátia Abreu, os representantes da cadeia produtiva do leite levantaram sete questões que são os pilares de um projeto voltado ao crescimento da produção: qualidade, assistência técnica, mão de obra, consumo, genética, comercialização e sanidade”, informa.

dade”, informa. O projeto, conforme Alvim abrange cinco estados produtores, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Com a implementação desse trabalho, o ministério pretende, nos próximos dez anos, proporcionar condições para que a produção brasileira de leite possa crescer a uma taxa anual entre 2,4% e 3,3% e alcançar 47,5 bilhões de litros em 2025. O objetivo inicial é incrementar a produção em 27,6%, mas o ministério estima que o volume possa chegar a 52,7 bilhões de litros caso todas as metas estabelecidas sejam cumpridas”, explica.

Com base nessa projeção, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que os preços domésticos de leite e derivados devam elevar-se de 6% a 8% nos próximos dez anos. Já o consumo está estimado para crescer 26,5% no período, para 47,6 bilhões de litros, acompanhando a projeção de produção nacional. Seguindo o mesmo raciocínio, as importações deverão passar dos atuais 698 milhões de litros, projetados para 2015, para 435 milhões de litros em 2025, recuo de 37,6%. Já a exportação em dez anos deve crescer de 508 milhões de litros, estimada para este ano, para 748 milhões de litros em 2025, incremento de 47,2%.

A abertura de negociações para restringir as importações de produtos lácteos do Mercosul encabeça a lista de reivindicações do setor a ser apresentada ao Governo Federal por um grupo de dez entidades que reúnem indústria e produtores. O documento foi produzido durante o Congresso Internacional do Leite. “A intenção é restringir a entrada de produtos do Uruguai por dois anos. O Brasil não negociou um sistema de cotas para a entrada de produtos lácteos do país assim como fez com a Argentina, que pode embarcar para o Brasil 3,3 toneladas por mês”, adianta o diretor do Sindilat-RS, Darlan Palharini.