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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Café

 

Um morno palatável

Após um 2014 de preços altos e agressividade da demanda, 2015 mostra uma acomodação dos compradores. A queda da cotação em dólar é compensada pelo câmbio favorável às vendas externas

Lessandro Carvalho - lessandro@safras.com.br

O começo da temporada 2015/ 16 (outubro/setembro) para o café é de apreensão para os produtores, que estão colhendo uma safra prejudicada pelo clima e observam preços relativamente fracos nas bolsas de futuros. Porém, a melhor forma de descrever como tende a ser a nova temporada é que ela deve ser ainda favorável aos produtores, mas não tanto quanto a passada, e é isso que aflige o cafeicultor. O dólar é um componente muito importante, especialmente neste momento, na formação das cotações nas bolsas e no Brasil. Enquanto em Nova York e em Londres a subida da moeda americana ante o real e outras moedas pressiona para baixo os preços, aqui no mercado interno a alta do dólar dá sustentação aos preços em reais, já que cada saca cotada em dólar vale mais na moeda brasileira.

Nas bolsas, a subida do dólar em comparação ao real representa ainda maior competitividade para o Brasil nas exportações, soando como fator baixista para as cotações. E o avanço da moeda americana contra outras divisas acaba afastando compradores dos papéis, porque eles ficam mais caros, e isso também pressiona para baixo os preços. Contraditoriamente, é a subida do dólar no Brasil que atenua o impacto dessas perdas nas bolsas.

Segundo o analista de Safras & Mercado Gil Barabach, depois de um ano de 2014 de preços altos e agressividade da demanda, 2015 está sendo de acomodação dos compradores e de uma forte influência do câmbio. Vale lembrar que em 2014/15 o Brasil viveu um período de quebra na safra e de demanda mais agressiva, recompondo estoques, com as cotações avançando. O sentimento era de maior aperto na oferta global. Agora, “a firmeza do dólar vem pressionando o preço das commodities. Assim, enquanto o dólar sobe, o preço do café recua. No meio do caminho, o mercado físico brasileiro encontra um equilíbrio. E isso traz boas oportunidades, inclusive, na entrada da safra”, comenta.

A colheita da safra de 2015 está com atraso, em função de chuvas em pleno período de trabalhos e da maturação desuniforme dos grãos. “Esse atraso na colheita limita o efeito sazonal baixista e contribui com a firmeza interna (dos preços)”, coloca o analista. Uma característica da safra deste ano é que, embora de muito boa qualidade no arábica, é uma produção com grãos mais miúdos, o que deve garantir ágio para lotes com percentual maior de peneiras mais graúdas (17/18).

De modo geral, o analista pontua que a nova temporada não deve ser tão favorável como foi 2014. “A expectativa é de uma safra 2015 brasileira ligeiramente melhor e de uma demanda menos agressiva. Depois do susto em 2014 e da recomposição do estoques, a postura dos compradores mundiais, agora, tende a ser mais cadenciada”, pondera Barabach. O Brasil contribuiu muito para essa recomposição nos estoques, fechando a temporada 2014/15 (julho/junho) com exportações recordes de mais de 36 milhões de sacas, desovando, inclusive, produto de safras anteriores com os preços considerados vantajosos.

Adiante, o mercado global vai olhar para a safra de 2016 do Brasil, e “há também uma nítida aposta em uma produção grande do Brasil futura, o que contribui para a tranquilidade no abastecimento e joga contra os preços”, explica o analista. Por outro lado, o quadro de oferta e demanda segue muito justo. Qualquer problema no Brasil ou com outras nações produtoras pode gerar desconforto e causar avanços nos preços. O fenômeno El Niño ameaça a safra do Vietnã e da Indonésia, por exemplo, com o clima seco podendo prejudicar a produção e gerar maiores temores quanto à disponibilidade do grão no mundo.

O Brasil fechou a temporada 2014/15 (julho/junho) com exportações recordes de mais de 36 milhões de sacas, desovando até grãos de safras anteriores

Positivo — Barabach salienta que o mercado seguirá positivo para os produtores, embora não com o mesmo vigor do ano passado. “Não será tão bom quanto 2014, mas também longe do que foi em 2013. O que se espera é um meio termo, ainda favorável aos produtores”, coloca. Os estoques baixos junto aos produtores e as dúvidas produtivas podem trazer estresse ao mercado. “Além disso, a incerteza financeira pode trazer volatilidade. Em ambos os casos, oportunidade aos produtores. Deve ser um ano mais trabalhoso na parte comercial”, indica.

Na Bolsa de Nova York, que baliza a comercialização internacional do arábica, o contrato spot fechou em 29 de julho a 122,15 centavos de dólar por libra-peso. Isso representa uma queda de 32,4% no preço no comparativo com o mesmo período do ano passado, quando o referencial chegava a 180,70 centavos. O dólar no mesmo período comparativo subiu 49,3% em comparação ao real, de R$ 2,23 para R$ 3,33. Assim, mesmo com a queda do arábica em Nova York, no Brasil o café arábica bebida boa no Sul de Minas Gerais chegou ao dia 29 de julho em R$ 440 a saca, com alta de 5,3% contra o mesmo período do ano anterior (R$ 418), sustentado pelo câmbio.

Na Bolsa de Londres, entre o final de julho de 2014 e o dia 29 de julho de 2015, o preço do robusta caiu mais de 22%. Foi uma queda bem menor que a do arábica em Nova York. Por isso, o conilon no Brasil valorizou-se mais que o arábica no comparativo. O tipo 7 em Vitória, Espírito Santo, ao final de julho de 2015, estava em R$ 308 a saca, 26,7% a mais que em igual dia do ano passado. Além do dólar, o atraso na colheita do grão em 2015 e a postura bem defensiva dos vendedores vêm garantindo a sustentação dos preços. O “gatilho psicológico” para os produtores de arábica no Brasil continua sendo a linha de R$ 500, patamar em que o cafeicultor tende a se dispor mais para as negociações.