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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Arroz

 

Esfriou com a economia

Os brasileiros passaram a consumir um arroz de menor qualidade visto o aumento do custo de vida das famílias, apesar do cereal normalmente ser imune a crises financeiras. E o orizicultor tem sofrido com o aumento dos custos de produção, enquanto o preço mínino do Governo é R$ 27 a saca de 50 quilos, a despesa para produzi-la aproxima-se de R$ 39. O Rio Grande do Sul deverá manter a área em 2015/16, porém, a produtividade será 5% inferior

Rodrigo Ramos - rodrigo@safras.com.br

As quedas acentuadas no preço do arroz no primeiro semestre já são familiares aos produtores. “Mas neste ano esses ‘ajustes’ foram bem acima do esperado por parte da oferta”, destaca o analista de Safras & Mercado Mahal Terra Ferreira. Mesmo sendo um grão de extrema necessidade no prato brasileiro, com o País em recessão devido aos inúmeros problemas da economia brasileira, a solução, segundo Ferreira, foi consumir um arroz de qualidade inferior, visando gastar menos do que os anos em que o investimento era abundante. Uma das características do arroz é se sobressair perante as crises, sendo um bem indispensável na vida do brasileiro, mantendo uma estabilidade nos preços. “Porém, o fato não se repetiu no ano de 2015”, lembra.

As condições climáticas beneficiaram os produtores do Mercosul em janeiro, favorecendo as lavouras. Em fevereiro, apenas com o início da colheita, o setor varejista já demonstrava sinais de abastecimento, fazendo com que paulatinamente as vendas e as movimentações diminuíssem bem antes do esperado e do já visto em outras safras. Entretanto, diferente da maior parte do primeiro semestre de 2015, os dois primeiros meses ainda eram caracterizados por uma estabilidade nos preços, adquirindo uma cotação média para o mercado gaúcho, principal referência brasileira para a base casca, de R$ 37,49 pela saca de 50 quilos qualidade 58-62% em janeiro e R$ 37,22 em fevereiro. Porém, com o andamento da colheita, em março a média caiu para R$ 36,05, indo para R$ 35,74 em abril e fechando em R$ 35,05 em maio.

Produção gaúcha — No término de maio, a colheita foi finalizada no Rio Grande do Sul. De acordo com o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), na safra 2014/15 a produção ficou estimada em 8,638 milhões de toneladas, com destaque para região da Fronteira Oeste (Uruguaiana, Itaqui, Alegrete, Quaraí, entre outros), que produziu, sozinha, 2,696 milhões de toneladas. A drástica elevação nos preços do óleo diesel causou repercussão imediata diante de transportadores do Brasil inteiro, que travaram uma grande paralisação. As cotações do grão sofreriam impacto da gasolina e de demais impostos mais próximo ao mês de junho, quando os vencimentos dos empréstimos junto aos bancos terminariam.

A área plantada em 2015/16 no Brasil deverá ser de 2,31 milhões de hectares, repetindo o cultivo da temporada anterior, de 2,318 milhões de hectares

Com uma comercialização bem abaixo da esperada e um preço de R$ 33,59 por saca, o produtor viu no sexto mês do ano os aumentos da água, da energia e do combustível pesarem nos seus custos, iniciando uma batalha contra o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). É que desde o final de maio os principais representantes dos produtores e o Irga debatem com os órgãos responsáveis sobre a Política de Preços Mínimos. “O valor defasado e sem a correção da inflação nivela o mercado a preços impraticáveis aos produtores, sendo que o custo de produção gaúcho foi de R$ 38,69 por saca, enquanto o preço mínimo ficou em R$ 27,25 a saca”, lamenta o analista.

A partir da metade de junho, a tendência de estabilidade foi tomando conta do mercado nacional, vertente que normalmente começa em maio. O primeiro semestre ficou caracterizado principalmente por um controle da demanda em relação ao preço, com as negociações baixas na maior parte do tempo. Os produtores com necessidades imediatas vendiam ao preço que o comprador estava disposto a comprar, mesmo que pouco, pois os estoques das principais indústrias e empacotadoras permaneceram abastecidos.

Em Chicago, recuo de 25% — Na Bolsa de Chicago, o preço do cereal sofreu uma retração de 25% em julho em relação ao ano passado, sendo comercializada no dia 13 de julho a US$ 235 a tonelada, equivalente a R$ 36,91 por saca de 50 quilos. Em igual período do ano passado, o mesmo grão era comercializado a US$ 316,14 a tonelada, equivalente a R$ 49,63 por saca. A principal causa para um fenômeno como esse foi o aumento dos estoques iniciais americanos. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), os estoques aumentaram 44,7%, chegando a 1,483 milhão de toneladas.

No Mercosul, a abundante produção paraguaia, junto aos seus preços mais favoráveis, aproximou o país guarani do brasileiro, tornandose a principal fonte de arroz para importação. Há algumas safras, o Paraguai dificilmente transportava mais grãos ao Brasil do que a Argentina e o Uruguai.

Em razão do aumento dos estoques americanos, na Bolsa de Chicago, o preço do cereal sofreu uma retração de 25% em julho em relação ao mesmo mês do ano passado

Segundo o Usda, a tendência é que os preços no mercado mundial recuperem-se, com um estoque inicial de 98,95 milhões de toneladas na temporada 2014/15, contra 107,36 milhões em 2013/14. “A falta de grãos no mercado pode impulsionar as cotações a outros patamares”, estima Ferreira. Outra variável que novamente irá interferir no mercado asiático é o El Niño. A região mais consumidora e produtora do grão no mundo é atingida pelo fenômeno, quebrando a safra e automaticamente sustentando os preços.

O relatório de julho de oferta e demanda do Usda estimou a produção norte-americana de arroz beneficiado em 6,57 milhões de toneladas para a safra 2015/16, ante 6,95 milhões do mês anterior. Para 2014/15, a produção daquele país foi apontada em 7,07 milhões de toneladas. As exportações em 2015/ 16 foram previstas em 3,49 milhões de toneladas do produto beneficiado, mesmo patamar do relatório anterior. A projeção de consumo doméstico é de 4,14 milhões de toneladas de beneficiado em 2015/16, ante 4,17 milhões do mês anterior. Baseado nas estimativas de produção, exportação e consumo, os estoques finais norte-americanos de arroz beneficiado foram previstos em 1,22 milhão de toneladas para a temporada 2015/16, ante 1,54 milhão no relatório anterior. Para a safra 2014/15, os estoques finais somaram 1,48 milhão de toneladas.

O relatório de julho de oferta e demanda do Usda estimou a produção mundial de arroz beneficiado em 480,34 milhões de toneladas para 2015/16, ante 481,74 milhões no mês anterior. Para 2014/ 15, foi estimada safra de 476,28 milhões de toneladas. As exportações mundiais do beneficiado foram estimadas em 42,24 milhões de toneladas para 2015/16, ante 42,51 milhões no mês passado. A estimativa para o consumo é de 488,78 milhões de toneladas para 2015/16, ante 488,99 milhões de toneladas indicadas no mês anterior.

Baseado nas estimativas de produção, exportação e consumo, os estoques finais mundiais de arroz beneficiado na temporada 2015/16 foram previstos em 90,51 milhões de toneladas, ante 91,44 milhões de toneladas no relatório passado. Para 2014/15, foram estimados estoques de 98,95 milhões de toneladas. A Índia deverá produzir 104 milhões de toneladas beneficiadas em 2015/ 16; a Tailândia, 19 milhões; o Vietnã, 28,20 milhões; a Indonésia, 36,65 milhões; a China, 146 milhões. E a safra brasileira está estimada em 8 milhões de toneladas de beneficiado.

Mercado nacional lento — O mercado nacional de arroz não demonstrava em julho as grandes negociações vistas nos outros anos. A recessão econômica brasileira desaqueceu até mesmo o mercado orizicultor, que sempre foi visto como uma commodity que passou ao largo das crises. Na safra 2014/ 15, o consumo permaneceu o mesmo, mas com uma redução de qualidade na aquisição do grão. No ano passado, na mesma época, o arroz irrigado em casca era comercializado a R$ 35,50 a saca, 5,82% superior ao preço no dia 20 de julho de 2015 – R$ 33,43. “Mesmo com uma estabilidade aos poucos se fazendo presente nos preços, a tendência é que esta seja a nova cotação no mercado, uma média de R$ 33,37 por saca”, aposta o analista. Após a entrada de grãos até o final de maio, como ocorrido na safra passada, o esperado era que os preços aos poucos voltassem a um patamar de R$ 36.

Sendo assim, o segundo semestre torna-se mais aguardado. Alguns produtores conseguiram através do Banco do Brasil, do Banrisul e do Sicredi adiar as parcelas e os custos para produção para novembro e dezembro. Com um custo por saca tão alto, dificilmente as parcelas serão quitadas com o arroz sendo comercializado com preços tão baixo. A tendência era que o mês de julho enfim trouxesse os aumentos esperados, mas após a Conab divulgar que os preços mínimos não seriam alterados e que não haveria mais leilões nas principais praças brasileiras, os tomadores de preço nas negociações permaneceram sendo os compradores.

Gaúchos deverão colher menos — O Rio Grande do Sul, referência para o Brasil na produção e comercialização, deverá sofrer algumas variações em relação à produtividade e ao investimento na safra de arroz. E mesmo a safra 2014/15 passando por uma recessão anormal, a tendência é que a área seja mantida. “As principais regiões do estado não passam por disputa de áreas com outras commodities, sendo assim, uma fuga a outras culturas não ocorrerá”, pondera Ferreira. O estado, segundo Safras & Mercado, deverá manter a área de 1,1 milhão de hectares. A produtividade deverá cair 5%, de 7.853 quilos para 7.455 quilos por hectare. Com isso, a produção vai recuar de 8,638 milhões para 8,2 milhões de toneladas.

No Brasil, a área plantada em 2015/16 deverá ocupar 2,31 milhões de hectares, praticamente repetindo o total cultivado na temporada anterior, de 2,318 milhões. A projeção faz parte do relatório de intenção de plantio, divulgado por Safras & Mercado. A previsão inicial de rendimento é de 5.215 quilos por hectare, 4% abaixo da produtividade do ano passado, de 5.445 quilos. Confirmadas essas projeções, a produção deverá recuar de 12,622 milhões para 12,048 milhões de toneladas.