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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Algodão

 

Na safra e na coragem

Os custos de produção do algodão aumentaram, a demanda interna pela pluma diminuiu em razão da crise econômica e há indústrias de tecelagem demitindo. O resultado: deverá haver redução de área na safra 2015/16 em 10,5% ante 2014/15, que já tinha encolhido em 13%. No mercado internacional, as perspectivas são semelhantes

Rodrigo Ramos - rodrigo@safras

O mercado doméstico de algodão iniciou 2015 com a mesma tendência do que vinha sofrendo no final de 2014: preços estáveis e baixa liquidez. “A razão dessa mesmice foi a baixa demanda dos consumidores no mercado em geral, devido à retração sofrida na economia, tanto brasileira como mundial”, explica o analista de Safras & Mercado Cezar Marques da Rocha Neto. Outros fatores que prejudicaram o mercado cotonicultor foram políticas micro e macroeconômicas realizadas pelo Governo para tentar ajustar o déficit interno do País. As novas alterações realizadas pelo Governo elevaram o preço da energia elétrica, o que refletiu no aumento dos custos internos das indústrias.

O incremento na conta de água por causa de escassez de chuva também trouxe reajuste nos produtos têxteis, assim como o aumento nos preços da gasolina, o que ocasiona em alta nos custos de transporte. Os meses de janeiro e fevereiro, historicamente, apresentam menores comercializações em virtude de os consumidores darem prioridade para gastos em viagens, férias e datas festivas. Assim, os primeiros meses do ano encerraram com preços médios de R$ 1,88 por libra-peso.

Preços e liquidez surpreendem — Mas o mês de março superou as expectativas dos agentes. Houve forte aumento nos preços, na liquidez, no dólar e na demanda. Desde o começo do ano, o preço estava seguindo o seu indicador de referência Esalq/ Cepea. Porém, neste mês, o preço descolou de seu indicador e chegou a ser cotado a R$ 2,10 por libra-peso, valorização de 11% frente à média dos dois primeiros meses do ano. “A grande demanda pelas indústrias ocorreu para recompor estoque, com receio de que o preço pudesse subir mais por causa da disparada do dólar”, pondera Marques. A moeda norte-americana saltou de R$ 2,70 para R$ 3,23.

A alta demanda para recompor estoques pelas indústrias no mês de março refletiu em escassez de oferta de produto de boa qualidade e sustentação aos preços em abril em consequência do período de entressafra. “Com os preços em alta e as indústrias estocadas, a demanda por algodão ocorria sob necessidade”, lembra Rocha Neto. No mês de maio, com a aproximação do fim da safra e escassa oferta do produto de boa qualidade, o cotonicultor com produto estocado pede valores mais altos do que o mercado está disposto a pagar, o que reflete em menor liquidez. “O impacto sofrido pela economia foi sentido, principalmente, em maio, quando as indústrias, por estarem vendendo menos – e consequentemente com menor receita –, começaram a dar férias coletivas ou praticar o layoff para tentar conter as demissões em alta e o baixo lucro”, destaca.

Em suma, por estar no período de fim de safra e safra nova, que iniciou em julho, o mês de junho apresentou baixa demanda, pela conjunção de pouca oferta do produto de boa qualidade e preço muito alto. “Por causa disso, as indústrias aguardaram o mês de julho, com expectativa que aumentasse a oferta e reduzisse o preço”, comenta. Entretanto, a safra nova está atrasada e o dólar muito valorizado, o que ainda deixa a mesma morosidade no mercado. A balança comercial foi positiva na temporada 2014/15. Foram exportadas quase 860 mil toneladas e importadas quase 11 mil.

A primeira intenção de plantio para 2015/16 aponta que a área na Bahia, segundo maior produtor, poderá recuar de 5% a 10%; e no Mato Grosso, principal produtor, em 1,6%

Perspectivas nada animadoras — O mercado interno de algodão poderá demonstrar um ano difícil para os cotonicultores em consequência de um aumento nos custos de produção e menor demanda pelo produto devido à retração da economia brasileira. As indústrias, tanto as de grande quanto as de pequeno porte, para conter custos, estão demitindo e fornecendo férias coletivas. Os aumentos de custos da produção e dos insumos, como água e luz, anunciados pelo Governo no início do ano, prejudicaram as ambições dos produtores para este ano. E dados divulgados pelo Banco Central do Brasil e intenção de plantio de algodão confirmam isso. Segundo os dados divulgados pelo Boletim Focus, as perspectivas para a economia brasileira não são nada agradáveis: retração de 1,7% até o final do ano; inflação em 9%; Selic em 14,25%, o que dificulta na tomada de empréstimos para financiamento e, por fim, retração na produção industrial de quase 5%.

A primeira intenção de plantio reflete esses dados não animadores para este ano. Devido às incertezas e ao atraso na colheita na Bahia, segundo maior produtor do Brasil, e o forte aumento dos custos, a área de algodão na região poderá vir a recuar de 5% a 10%. “E a área do maior produtor, Mato Grosso, deverá se manter estável, com leve perspectiva de alta caso venha a ocorrer uma possível reversão de cenário”, frisa o analista. Com a perspectiva de redução de 1,6% de área, passando de 976.200 hectares na temporada 2014/15 para 960.160 hectares em 2015/16, e usufruindo de leve incremento monetário em tecnologia, a produção brasileira de algodão deverá cair em 10,5% na próxima safra, ou seja, totalizando em 1,347 milhão de toneladas.

Para a safra atual, a estimativa ficou em 1,506 milhão de toneladas. A indicação inicial é de uma queda de 9,02% na produtividade, que passaria de 1.543 quilos para 1.404 quilos por hectare. “Seguindo no mesmo cenário apresentado e com o dólar valorizado frente à moeda nacional, a tendência é que os preços do algodão se mantenham entre R$ 2 e R$ 2,10 por libra-peso até o fim de 2015”, aposta o analista.

A safra brasileira de algodão em pluma na temporada 2014/15 está estimada em 1,505 milhão de toneladas, recuo de 13,2% na comparação com as 1,734 milhão de toneladas indicadas na safra 2013/ 14. Os números são do 10º levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No levantamento anterior a expectativa era de 1,507 milhão de toneladas. A produtividade das lavouras está estimada em 1.543 quilos de pluma por hectare, ante 1.546 quilos por hectare em 2013/ 14, baixa de 0,2%. A área plantada na temporada 2014/15 está estimada em 976,2 mil hectares, retração de 13% na comparação com a área de 1,121 milhão de hectares da safra passada.

O Mato Grosso, principal produtor, deverá colher uma safra em pluma de 865,5 mil toneladas, número que representa um recuo de 14% ante 2013/14, quando a produção foi de 1,005 milhão de toneladas. A Bahia, segundo maior produtor de algodão, deve colher 434,1 mil toneladas, retração de 10,2% sobre 2013/14 (483,3 mil toneladas). Goiás deverá ter uma safra 2014/15 de 52,2 mil toneladas, com decréscimo de 37,1% sobre 2013/14, que foi de 83 mil toneladas.

Mercado internacional também complicado — No mercado internacional, a perspectiva também não é muito favorável. Por mais que no quadro de oferta de demanda mundial do algodão venha a ocorrer redução em grande parte de seus números, essa redução ainda é muito baixa em relação ao que há de estoque e oferta. Por enquanto, as estimativas de julho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) mostram que haverá redução na produção de 6%, de 25,905 milhões de toneladas (118,98 milhões de fardos) para 24,267 milhões de toneladas (111,46 milhões de fardos) e também redução nos estoques finais de 24,159 milhões de toneladas (110,96 milhões de fardos) para 23,543 milhões de toneladas (108,14 milhões de fardos), 2,54% inferior.

O Comitê Internacional do Algodão projeta a produção mundial da fibra em 23,92 milhões de toneladas na temporada 2015/16, ante 26,2 milhões na safra 2014/15

Ainda no relatório de oferta e demanda de julho, as exportações mundiais de algodão foram estimadas em 34,05 milhões de fardos para 2015/16, ante 33,80 milhões em junho. A estimativa para o consumo mundial era de 114,44 milhões de fardos, ante 115,31 milhões de fardos indicados no mês anterior. Os estoques finais foram projetados em 108,14 milhões de fardos, ante 106,08 milhões de fardos esperados em junho. A expectativa é que a China colha 27 milhões de fardos na temporada 2015/16, mesmo patamar do mês anterior. A produção do Paquistão para 2015/16 foi prevista em 10 milhões de fardos, mesmo nível de junho. O Brasil tem a safra 2015/16 estimada em 6,75 milhões de fardos, mesmo patamar do relatório anterior. A produção indiana deve chegar a 29,5 milhões de fardos em 2015/16, mesmo nível do relatório passado.

O Usda estimou a produção dos Estados Unidos na temporada 2015/ 16 em 14,5 milhões de fardos, ante 16,32 milhões de fardos em 2014/ 15. No relatório passado, também eram esperados 14,5 milhões de fardos para 2015/16. As exportações deverão ficar em 10,80 milhões de fardos em 2015/16, ante 10,7 milhões do relatório anterior. O consumo interno foi previsto em 3,75 milhões de fardos para 2015/ 16, ante 3,8 milhões do mês de junho. Baseado nas estimativas de produção, exportação e consumo, os estoques finais norte-americanos foram previstos em 4,2 milhões de fardos para a temporada 2015/16, ante 4,4 milhões do mês anterior.

O Comitê Internacional do Algodão (Icac) projeta que a produção mundial da fibra totalizará 23,92 milhões de toneladas na temporada 2015/ 2016, ante 26,2 milhões na safra 2014/15, conforme sua estimativa de julho. Em junho, eram esperadas 23,90 milhões de toneladas. O consumo mundial de algodão deve totalizar 24,91 milhões de toneladas na safra 2015/2016, enquanto para 2014/2015 são esperadas 24,36 milhões de toneladas. As exportações para 2015/2016 foram projetadas em 7,74 milhões de toneladas, ante 7,64 milhões da temporada 2014/2015. Já os estoques finais para 2015/ 2016 foram previstos em 20,90 milhões de toneladas. Na temporada 2014/15, o número foi de 21,89 milhões de toneladas.

O Comitê divulgou também a sua projeção de julho para a média do Índice A do Cotton Outlook na temporada 2015/2016. Conforme o Icac, a média do Índice deve ficar em US$ 0,72 por libra-peso, mesmo patamar do mês anterior. Para 2014/ 15, são esperados US$ 0,71 por libra-peso. Para 2013/14, são projetados US$ 0,91 por libra-peso e US$ 0,88 centavos de dólar para 2012/13. Na temporada 2011/12, a média ficou em US$ 1,00 por librapeso.