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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Açúcar e Etanol

Tendência amarga

Importadores relevantes de açúcar, Estados Unidos e China não dão mostras que vão adquirir mais o produto, devido a situações internas de suas economias. E na Europa, a beterraba açucareira ganha terreno. Em Nova York, a cotação caiu para o considerado "piso"

Fábio Rübenich fabio@safras.com.br

Apesar de muitas estimativas e projeções que apontam o contrário, a temporada 2014/ 15 no mercado internacional de açúcar deverá ser mais uma, a quarta consecutiva, de superávit entre oferta e demanda. Tanto o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) quanto a consultoria Safras & Mercado estão trabalhando com uma projeção na qual existe um excedente de produção de 2 milhões de toneladas para o ciclo que iniciará em outubro de 2014. “Considerando os anos recentes, quando o superávit de oferta chegou a 10 milhões de toneladas, uma sobra de 2 milhões de toneladas não representa um amplo excedente. Mas ainda assim será um superávit”, comenta o analista de Safras & Mercado Maurício Muruci.

No final de julho, apesar de não ter falado em números especificamente, o banco de investimento norte-americano Goldman Sachs também comentou que a produção será maior que o consumo em 2014/15, fazendo as cotações futuras do açúcar bruto caírem para mínimas de cinco meses na Bolsa de Nova York. “Mais do que isso, as cotações caíram para menos de 17 centavos de dólar por libra-peso, que era um suporte muito importante para o mercado, um suporte natural e psicológico, por ser um número inteiro, e um valor de referência desde a brusca queda de 2011, quanto os contratos caíram rapidamente de 28 para 15 centavos. A faixa dos 17 centavos funcionava como um piso, um chão do mercado, muito importante desde 2011, pois toda vez que rompeu acabou voltando. Enfim, era uma marca do mercado”, aponta Muruci.

Os comentários do Goldman Sachs acabaram, no final de julho, corroborando uma tendência negativa do mercado futuro de açúcar que se desenhara em 24 de junho. Só que o mercado sempre esteve sustentado no patamar de 17 centavos. “O Goldman Sachs foi a gota d’água”, ilustra.

Produção cai modestamente -— Consultorias e usinas como a Czarnikow e a Copersucar trabalham com um cenário de déficit de oferta para a temporada 2014/15, que varia de 500 mil a 3 milhões de toneladas. “O argumento para essas projeções é de que a produção está desacelerando, o que é correto. Mas, simultaneamente, há outros fatores, como o de queda na demanda, que acabam impactando de maneira ainda mais acentuada que a diminuição das safras”, coloca Muruci.

A economia internacional recupera-se de modo muito lento. Os Estados Unidos — grandes importadores de açúcar, com 2,806 milhões de toneladas estimadas para 2014/15, segundo o Usda — não conseguem elevar seus índices de inflação de longo prazo. Isso quer dizer que a demanda norte-americana de longo prazo não está garantida. O crescimento do PIB dos Estados Unidos em 2013 foi de 1,9%, com projeção de alta de 2,2% para 2014 e de 3% para 2015. “Para os padrões dos Estados Unidos, são índices bem moderados, dentro da média”, frisa o analista de Safras & Mercado.

Na China, outra grande importadora de açúcar (3,3 milhões de toneladas em 2014/15), ocorre uma tendência de desaceleração do mercado imobiliário, que responde por cerca de 20% do PIB do gigante asiático. Isso faz com que o crescimento projetado do PIB para 2014 da China seja de 7,3%. Já para 2015, a estimativa é de 7%, ante 7,7% de 2013.

Europa: fim de barreiras de exportação -— Há, ainda, um terceiro vetor que provoca queda na demanda mundial de açúcar, que é o crescimento da produção de açúcar de beterraba na União Europeia. No continente europeu, particularmente na Rússia e nos países do Leste, a produção de açúcar de beterraba vem crescendo, como um reflexo do desmantelamento programado para os próximos anos do sistema que atualmente contém as exportações do bloco. As barreiras aos embarques serão desarticuladas em breve, o que está motivando o crescimento de produção na atualidade.

Segundo o Usda, a produção de açúcar do bloco de 28 países vai ser de 16,3 milhões de toneladas em 2014/15, cerca de 200 mil toneladas a mais que no ano anterior, devido ao incremento da área cultivada de beterraba e também a uma maior produtividade. Esses fatores somados tendem a reduzir a demanda de importação da União Europeia junto ao Brasil e à Índia. As taxas de importação de alguns produtores também estão sendo reduzidas, e as barreiras de exportação serão retiradas. “O mercado europeu de açúcar está se reestruturando, se abrindo mais. Esse é um fator que desestimula a demanda internacional. O consumo de açúcar na Europa tende a ser praticamente todo atendido pela própria produção. O bloco ainda não será totalmente autossuficiente, mas isso impactará o consumo internacional de açúcar”, aponta Muruci.

A produção mundial de açúcar ficará praticamente estável em 2014/15, pois a queda no Brasil será em grande parte compensada por elevação de produção na Índia

A produção mundial de açúcar em 2014/15 deverá totalizar 175,589 milhões de toneladas, uma queda modesta em comparação com o ciclo anterior, quando a safra atingira 175,703 milhões de toneladas, de acordo com relatório semestral Usda, divulgado no final de maio. Conforme o Departamento, o consumo total de açúcar deverá atingir 170,528 milhões de toneladas em 2014/15, aumentando 3,042 milhões de toneladas em números absolutos, ou 1,81%, em comparação às 167,486 milhões de toneladas de 2013/14. Haverá, então, um superávit de oferta de 5,061 milhões de toneladas na temporada 2014/15. Ainda um excedente, porém, menor que o superávit de 8,217 milhões de toneladas do ano anterior. Os estoques finais do ciclo 2014/15 estão estimados em 44,441 milhões de toneladas, diminuindo 1,074 milhão.

O etanol recuperou parte da competitividade perdida para a gasolina no segundo trimestre de 2014

De acordo com análise do Usda, a produção mundial de açúcar ficará praticamente estável em 2014/15, pois a queda no Brasil será em grande parte compensada por elevação de produção na Índia. “Com abundantes ofertas continuando a pesar sobre o mercado, o consumo global de açúcar deve crescer, com expansão prevista principalmente para a Índia e para a China.

A safra brasileira deverá diminuir 1 milhão de toneladas em 2014/15, atingindo um volume de 36,8 milhões de toneladas, resultado de uma queda de produtividade nos canaviais por conta de uma estiagem. Por países, as estimativas para a Ásia no ciclo 2014/15 ficaram assim: Índia (27,9 milhões de toneladas, elevação de 900 mil), China (13,7 milhões de toneladas, contra 14,3 milhões), e Tailândia (11 milhões de toneladas, contra 11,4 milhões). A produção da União Europeia deverá aumentar levemente em 2014/15, passando de 16,1 milhões para 16,3 milhões de toneladas.

Etanol recupera competitividade -— O etanol recuperou parte da competitividade perdida para a gasolina no segundo trimestre de 2014. Em julho, a relação de paridade entre os dois combustíveis estava na casa dos 65% em São Paulo, maior produtor de etanol. Segundo os levantamentos de preços da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), também é mais vantajoso para o motorista abastecer seu veículo com etanol nos Estados de Goiás, Mato Grosso e ainda no Paraná. Mesmo assim, o consumo de etanol segue fraco de uma forma geral no Brasil, e a remuneração que as usinas recebem pelo açúcar tem se mantido maior que a recebida pelas vendas de etanol, o que tende a manter em alta o mix produtivo para o açúcar.

Em junho de 2014, o açúcar remunerou 17,7% mais as usinas que o etanol no mercado interno brasileiro. Em maio, o retorno fora 21% maior, e na média da safra 2014/15, a rentabilidade está em 16%, contra os 11% da safra anterior. Assim, as usinas têm direcionado cada vez mais cana para a produção de açúcar, em detrimento do etanol. Conforme relatório da União da Indústria de Cana-de- Açúcar (Única), no início da safra, em abril, 33% da cana estava sendo direcionada para o açúcar. Na primeira quinzena de julho, esse mix já estava em 46%.