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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frutas

A missão é o exterior

Apesar de um potencial enorme, sobretudo para produzir frutas tropicais, o segmento frutícola brasileiro exporta muito pouco. Até uma nova entidade, a Abrafrutas, foi criada para fomentar a exportação

Thais D’Avila

De US$ 100 bilhões exportados pelo agronegócio brasileiro em 2013, pouco mais de 0,5% está ligado à fruticultura (ou 3% da produção de frutas). Os dados são da recémcriada Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), que tem o objetivo de mudar essa realidade. O País é o terceiro maior produtor, atrás apenas de China e Índia. Com a situação delicada na União Europeia, responsável por 70% da importação das frutas nacionais, a entidade foi fundada em março para garantir o alcance de novos mercados.

O presidente da entidade, Luiz Roberto Barcellos, explica que o mercado interno também tem muito espaço para crescer. “Mas não podemos contar só com isso, pois a inflação em nosso País já voltou a se manifestar e isso pode afetar o consumo”, alerta. “Nós temos a vocação de produção de frutas tropicais e isso tem uma diferenciação de preço nos países consumidores de alto poder aquisitivo. Como eles não produzem, elas têm um valor agregado bastante interessante que remunera bem a exportação”.

A intenção é fazer com que o Governo se envolva mais nas negociações, para que o Brasil possa passar, por exemplo, por análises de risco de pragas. “Esta análise deve ser feita pelo país importador. Entretanto cabe ao Governo negociar, pressionar para que esse trâmite seja feito. É pura burocracia, mas precisa ser feita”. Barcellos defende o Nordeste como polo de exportação. “A produção e exportação estão no Nordeste. A região está em uma situação boa em relação aos portos – e no Nordeste os portos estão muito próximos à Europa. Temos uma condição favorável no transporte para o Continente Europeu. Em torno de dez dias já chega lá e com uma qualidade bem interessante para o consumidor”, analisa.

Competitividade —- Para que o fomento à exportação priorizado pela Abrafrutas possa ter um resultado positivo é preciso ter produção. E o Brasil sofre, conforme as lideranças, com diversos problemas relacionados à competitividade. Segundo Luiz Clóvis Belarmino, da Embrapa Clima Temperado, “se criado um programa nacional de fomento à produção, as importações poderiam ser substituídas, gerando mais renda para o País e melhorando o saldo da balança comercial”.

Outra questão importante é a liberação de defensivos específicos para as pequenas culturas, como explica Carlos Prado, da Comissão de Fruticultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). “Nós temos países do primeiro mundo que usam defensivos modernos, que têm um grau de risco menor para os operadores e que têm muito mais efetividade. Só que aqui no Brasil nós não temos acesso porque dependemos de as indústrias que fabricam esses produtos terem interesse em registrá-los no Brasil”, enfatiza. E, por fim, conforme Ribeiro Neto, do Ibraf, a velha questão do custo Brasil. “Tributação, insumos aumentando, insumos atrelados ao dólar, e o valor que é comercializado não aumentou nos últimos anos na mesma proporção. Temos aumento de custos e a comercialização continua estável. Você não consegue repassar”, enumera.

No mercado interno, a aposta é na elevação do consumo de frutas pela população, que está aquém do que recomenda a Organização Mundial da Saúde, e muito abaixo de países como Espanha (120 kg/ habitante/ano) ou Itália (115 kg/ habitante/ano). No Brasil, o consumo médio de frutas por ano não passa de 40 quilos por pessoa, conforme dados do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf). A novidade que vem chamando a atenção são as chamadas “superfrutas”. O produtor vem acompanhando as pesquisas e a movimentação do consumidor. “São frutas, algumas já conhecidas, mas que de alguns anos pra cá vem sendo estudadas pelas suas características nutracêuticas, muito superiores às demais frutas”, afirma Cloves Ribeiro Neto, gerente de Inteligência Comercial do Ibraf. Entre elas, a goiaba vermelha, com mais vitamina C, o açaí, com muito antioxidante, e a romã, que vem sendo estudada.

Problemas com a maçã -— Com uma produção estimada em 42 milhões de toneladas de frutas por ano, o Brasil tem no clima o principal fator que contribui para as pequenas oscilações no volume produzido. E a partir de 2013, vários problemas foram registrados. Conforme o Ibraf, no Sul houve problemas com a safra da maç㠓Começamos com alguns problemas de estiagem e depois granizo, ainda no ano passado. Agora em janeiro também teve granizo e prejudicou muito a qualidade da maçã. Perdemos volume e qualidade”, explica Ribeiro Neto.

Esse problema gerou um grande aumento no volume de importação da fruta no primeiro semestre de 2014. Foram 68% a mais no volume, 26,4 mil toneladas na primeira metade de 2013 e 44,5 mil no mesmo período de 2014. As frutas vieram basicamente da Argentina, do Chile, da Itália e da Espanha. Esta alta ocorreu por causa das perdas na produção nacional. O preço do produto nacional ao consumidor não chegou a registrar queda, conforme Neto. “Valores mantidos, mesmo com a qualidade um pouco ruim, devido à baixa oferta. No início da safra o valor foi até maior por conta da baixa oferta”, conta. Com preço semelhante entre a fruta brasileira e a importada, o consumidor nacional preferiu a importada, que apresentava melhor qualidade. “Esperamos alguma recuperação para 2015. No segundo semestre começa a safra. Agora está no período de dormência”, afirma.

O presidente da CNA, Carlos Prado, afirma que no Nordeste o clima também provocou sérias ameaças, especialmente na região que compreende o Rio Grande do Norte e o Ceará. “A seca ao mesmo tempo em que beneficia o fruto, na fruticultura irrigada ela prejudica os produtores que dependem de água de poços, de lençol subterrâneo, porque com a falta de chuvas houve uma redução dos lençóis”, lamenta. Prado diz que a seca se repetiu por dois anos e em 2014 a temporada de chuvas encerrou com redução drástica nos volumes, colocando em risco a produção em alguns locais. “Em Mossoró/RN e no Vale do Jaguaribe, Ceará, dois polos produtivos na área de melão e melancia, as chuvas variam entre 500 e 700 milímetros. Agora, nós tivemos uma redução em torno de 50% em números redondos”, declara Prado.

Mão de obra escassa -— A escassez e o alto custo da mão de obra também vêm sendo motivo de preocupação para as lideranças e produtores ligados à fruticultura. Conseguir pessoal para trabalhar na lavoura fica mais complicado ainda quando a atividade oferece dificuldades. “Algumas culturas são mais penosas, como a do abacaxi. Como é uma cultura difícil de colher, os trabalhadores não gostam”, exemplifica. O presidente da Abrafrutas acredita que falta qualificação na mão de obra para trabalhar na fruticultura. “A fruticultura gera muito emprego. A gente tem dificuldade de ter mão de obra qualificada que tenha entendimento e cuidado com a atividade. São vários fatores como certificações, resíduos, segurança alimentar, meio ambiente. A mão de obra tem que ser capacitada e treinada”.