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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Soja

Sem limites

O Brasil vai plantar em 2014/15 a sua maior área de soja e colher sua maior safra da oleaginosa. O primeiro semestre de 2014 foi o de melhor cotação da história para o produtor , visto a combinação favorável do preço em Chicago com o dólar valorizado. E o complexo soja tornou-se em 2014 o principal item da pauta de exportações brasileiras

Dylan Della Pasqua
dylan@safras.com.br

As expectativas para a próxima safra de soja do Brasil são amplamente favoráveis. Favorecidos por uma comercialização de boa remuneração, os produtores deverão novamente apostar na oleaginosa, roubando espaço do milho e de pastagens. Com as condições climáticas apontando para a presença do sistema El Niño, após dois anos de neutralidade climática, os produtores da Região Sul devem se preparar para um período mais bem definido de chuvas, que devem ser de uma maior intensidade após o final do inverno no Hemisfério Sul. “Apesar das indicações serem de um fenômeno com intensidade moderada, deve-se ter atenção nos próximos meses para uma melhor definição e otimização do calendário de plantio, principalmente nas Regiões Sul e Norte, onde normalmente há condições opostas durante o fenômeno, com aumento de chuvas no Sul e diminuição de chuvas no Norte”, alerta o analista de Safras & Mercado Luiz Fernando Roque.

Levantamento de intenção de plantio de Safras indica para um incremento de área de 4,3% frente à temporada 2013/14, com projeção em 31,2 milhões de hectares. Tal área supera o recorde de 29,9 milhões de hectares registrado na safra anterior. Utilizando uma média normal de rendimento médio das lavouras, ponderada com anos de incidência do fenômeno El Niño, chega-se a uma projeção de 94,45 milhões de toneladas, com aumento de 9% sobre o recorde de 86,6 milhões de toneladas da safra 2013/ 14.

Entre os maiores produtores, destaque para o Paraná, que deve ter um incremento de 5% na área e 19% na produção, com números projetados em 5,28 milhões de hectares e 17,688 milhões de toneladas. O rendimento médio pode chegar a 3.350 quilos/hectare, com grande melhora frente às perdas registradas na safra anterior, quando a falta de chuvas na fase final de desenvolvimento levou o rendimento médio das lavouras, que tradicionalmente está entre os mais elevados do País, à casa de 2.833 kg/ha. Para o Rio Grande do Sul, os números de área e produção são projetados em 5,2 milhões de hectares e 14,144 milhões de toneladas, também com melhora na projeção para o rendimento médio das lavouras após as perdas da safra passada, com projeção de 2.720 kg/ha. A Região Sul deve colher uma safra de 33,722 milhões de toneladas em 11,08 milhões de hectares, com avanços de 12% e 5% frente à última safra.

Na Região Centro-Oeste, principal região produtora, a área é estimada em 14,177 milhões de hectares, avanço de 6%, com rendimento médio de 3.091 kg/ha, e produção estimada em 43,822 milhões de toneladas. Para o maior produtor, o Mato Grosso, as projeções indicam área de 8,7 milhões de hectares e produção de 27,405 milhões de toneladas, com o rendimento médio mantendo-se inalterado frente à última safra, quando foi colhida a boa média de 3.150 kg/hectare.

Na região, destaque para Goiás, que deve colher 9,792 milhões de toneladas em uma área de 3,2 milhões de hectares, avanço de 11% e ante à temporada 2013/14. Na Região Sudeste, Minas Gerais destaca- se com projeção de aumento de 8% na área e 19% na produção – 1,350 milhão de hectares e 3,983 milhões de toneladas – frente à recente safra. Nas Regiões Norte e Nordeste, as áreas e as produções, somadas, indicam aumentos de 5% e 6,4%, respectivamente, com área total estimada em 3,871 milhões de hectares e produção esperada em 10,778 milhões de toneladas.

A maior parte dos aumentos nas áreas de soja na grande maioria dos Estados é explicada pela queda na intenção dos produtores em semear áreas com milho na temporada 2014/15. “Os preços baixos do cereal na Bolsa de Chicago (Cbot) e no mercado interno estão levando os produtores a transferir parte de suas áreas destinadas ao milho para a soja, visto a melhor rentabilidade da oleaginosa, ainda que a mesma também esteja sofrendo com projeções de preços mais fracos para a próxima safra frente, principalmente, à possível superprodução norte-americana”, avalia o analista. O recuo na área de milho deve ocorrer principalmente na área da 1ª safra do cereal nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste, que plantam também a chamada “safrinha”. Ainda nas Regiões Norte e Nordeste, haverá um aumento na abertura de novas áreas para a soja e também uma transferência de áreas de pastagens destinadas à pecuária.

Média semestral de preços — A preferência pela soja passa pela questão de mercado. “Podemos dizer que, em relação a preços médios, tivemos o melhor primeiro semestre já visto do mercado brasileiro. A combinação de cotações elevadas dos contratos futuros em Chicago e um dólar valorizado levaram os preços internos a patamares médios acima do normal para o período”, identifica Roque. Em nível de Brasil, no período de janeiro a junho, a cotação média foi de R$ 62,53/saca. Para comparação, as cotações médias dos últimos três anos, 2013, 2012 e 2011, foram de R$ 55,47, R$ 51,69 e R$ 43,63, respectivamente. Na média acumulada dos últimos cinco anos, a cotação fica em R$ 45,96. No primeiro semestre de 2014, houve aumento de 12% em relação às cotações médias registradas na safra anterior.

No Porto de Paranaguá/PR, que tradicionalmente detém as médias de preços mais elevadas do mercado interno, a cotação média foi de R$ 70,07. Nos últimos três anos, as médias foram de R$ 62,81 em 2013, R$ 57,55 em 2012 e R$ 48,65 em 2011. A média acumulada dos últimos cinco anos é de R$ 51,67. Em relação a 2013, o aumento foi de 12% no preço médio semestral. Já em Rondonópolis/MT, onde ocorrem as menores médias de preços do País, a média do primeiro semestre ficou em R$ 58,97. Nos últimos três anos, as médias foram de R$ 51,88 em 2013, R$ 49,98 em 2012 e R$ 41,52 em 2011. Na média acumulada dos últimos cinco anos, a cotação fica em R$ 43,46. Em relação ao ano passado, aumento de 14% no preço médio semestral da saca. “Voltando-se agora para as duas principais variáveis formadoras dos preços internos, Cbot e dólar, podemos entender parte desta alta dos preços internos. Na Cbot, com valores relativos à posição spot, no primeiro semestre de 2014, tivemos uma cotação média de US$ 1.414,18 cents por bushel. Embora seja uma cotação elevada para o período, ela ainda fica um pouco abaixo (3%) da cotação média do mesmo período do ano passado, que foi de US$ 1.461,87 cents por bushel. Na média dos últimos cinco anos, temos uma cotação de US$ 1.233,97 cents por bushel”, frisa.

Apesar de um Chicago elevado, mas um pouco mais fraco em relação ao último ano, pode-se ver no dólar um diferencial para a elevação das cotações internas. Com relação à moeda norteamericana, aconteceu uma cotação média no semestre de R$ 2,2960. Tal cotação é 13% mais alta em relação à média do mesmo período de 2013, que foi de 2,0318. Na média acumulada do período nos últimos cinco anos, o dólar foi a R$ 1,9004. “Podemos ver, então, que a alta de 13% do dólar frente ao último ano consegue, de certa forma, anular a queda de 3% registrada em Chicago frente ao ano passado. Dessa forma, podemos concluir que boa parte do recorde semestral dos preços internos pode ser explicado por essas duas variáveis com papel fundamental na formação dos preços internos, Cbot e dólar”, completou o analista.

Comercialização abaixo da média — Mesmo com a melhor média de preços semestrais já registrada no mercado brasileiro, a comercialização da safra 2013/14 caminhou, e ainda caminha, em ritmo mais lento que no ano anterior. Até 11 de julho de 2014, 82% da safra brasileira 2013/14 já havia sido comercializada. Em 2012/13, na mesma época, a comercialização atingia 84%, enquanto em 2011/12 o número era de 95%. Já a média dos últimos cinco anos é de 82%. No Rio Grande do Sul, 64% da safra já tinha sido comercializada à época. No Paraná, no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, a comercialização atingira então 74%, 90% e 83%, respectivamente. “De certa forma, podemos entender, vendo o panorama de preços do primeiro semestre, que os produtores poderiam ter aproveitado as altas cotações e comprometido um volume maior, em termos percentuais, da safra colhida em 2013/14, apesar de os mesmos terem negociado o maior volume de soja, em termos quantitativos, já registrado no mercado brasileiro”, acrescenta Roque.

Dados de Safras indicam que as exportações brasileiras na temporada deverão crescer tanto em receita como em volume. Mas diferentemente do esperado no início do ano, os novos números apontaram aumento nas projeções apenas na receita total a ser obtida, superando a base fechada de 2013 e consolidando novo recorde histórico. Já o volume teve leve ajuste para baixo, porém, ainda bem acima do recorde conseguido no ano passado. As motivações centrais para essas alterações foram: * O excedente exportável foi diminuído desde a última estimativa, por conta da consolidação de perdas na safra brasileira motivadas principalmente pela irregularidade climática. Apesar de a área final de cultivo ter ficado acima do esperado. Pelo último levantamento, a produção do Brasil está avaliada em 86,92 milhões de toneladas, abaixo dos 91 milhões a 92 milhões da expectativa inicial. Apesar disso, segue 6% superior aos 82,13 milhões da safra passada.

Recorde: levantamento de intenção de plantio de Safras indica para um incremento da área brasileira de 4,3%, com projeção em 31,2 milhões de hectares

* Esse desempenho em termos de volume poderia ter sido mais significativo não fossem os problemas de escoamento observados nos principais portos do País, cuja ameaça e o atraso efetivo no fluxo de embarques levaram os compradores a desviar novamente a demanda para o produto norteamericano, em um período em que normalmente os embarques sulamericanos são dominantes. De todo o modo, a tendência de crescimento da demanda mundial em 4% para soja, farelo e óleo de soja deve garantir o avanço dos embarques do Brasil.

* E, por último, graças ao avanço das cotações no mercado de futuros da Bolsa de Mercadorias de Chicago, houve ajustamento para cima em parte das projeções de preços médios sobre a estimativa anterior. É bem verdade que existem quedas nos preços do grão e do óleo sobre 2013. Mas no geral os valores mantêm patamares elevados em relação à média histórica. O suporte acontece em cima da combinação de perdas na safra sul-americana e novo aperto excessivo nos estoques dos EUA.

Foi nessa linha de pensamento em que se apoiou a revisão mista nas projeções de preços médios da nova temporada desde o levantamento anterior, com leve recuo nas projeções de óleo, mas com aumento nos valores de soja e farelo. Já sobre 2013, fala-se agora de recuo no grão e no óleo, e aumento apenas no farelo. Mesmo assim, ainda se situam em elevados níveis para o padrão histórico. Na soja, está se trabalhando agora com preço médio de US$ 500/tonelada, acima dos US$ 480 da estimativa anterior e 6,2% inferior aos US$ 533 fechados em 2013. No farelo, o preço médio estimado é de US$ 520, muito acima dos US$ 410 da projeção anterior, e 2,8% superior aos US$ 506 do ano anterior. E no óleo, a base estimada recuou de US$ 930 para US$ 920, 8,2% mais baixa que os US$ 1.002 de 2013.

Safra 2014/15: para o Mato Grosso, o maior produtor, as projeções são de 8,7 milhões de hectares e produção de 27,405 milhões de toneladas

Volumes menores e receitas maiores — As novas projeções para o volume a ser embarcado pelo complexo soja brasileiro em 2014 apontam para ligeira redução em relação à estimativa anterior, mas vai confirmando otimismo em relação aos volumes efetivamente embarcados no ano anterior. Depois do recorde anterior alcançado em 2013 de 57,492 milhões de toneladas, agora a projeção é revisada para 60,250 milhões, avanço de 4,8%. Estimativa feita em cima das projeções de demanda mundial em crescimento para taxas superiores às de 2013. Tudo combinado com o aumento dos excedentes exportáveis graças ao bom avanço da produção nacional. Na soja, a estimativa de volume a ser exportado em 2014 manteve-se em 45 milhões de toneladas, mesmo patamar da estimativa anterior, mas 5,2% acima das 42,796 milhões embarcadas em 2013. No farelo, a projeção também foi mantida em 14 milhões de toneladas, mantendo a projeção de aumento em 5% sobre os 13,333 milhões fechadas em 2013. Já no óleo, a projeção recuou de 1,3 milhão para 1,250 milhão de toneladas, que ficará inferior em 8,3% aos 1,363 milhão contabilizadas no ano anterior.

Apesar da redução na estimativa de volumes, e das variações mistas nos preços médios, ainda assim prevaleceu bom ajustamento para cima nas projeções de receita das exportações brasileiras do complexo soja. No total, está se trabalhando agora com US$ 30,930 bilhões, o que, em caso de confirmação, representaria bom aumento sobre os US$ 28,549 bilhões da estimativa anterior e avanço residual sobre os US$ 30.925 bilhões de 2013. A revisão é para cima na receita do complexo, juntamente com revisão para baixo na expectativa total de receita das vendas externas do País. E aumentou a participação projetada do setor na pauta geral de exportações do País.

Com a estimativa atual para o total das exportações pelo Brasil em US$ 245 bilhões, a participação do setor soja subiria a 12,6%, acima dos 11,7% da projeção passada e dos 9,4% da média para dez anos, mas levemente abaixo dos 12,8% de 2013. Na soja, trabalha-se agora com receita de US$ 22,500 bilhões, 1,4% inferior aos US$ 22,812 bilhões do recorde estabelecido em 2013. No farelo, a projeção subiu para US$ 7,280 bilhões, 7,9% a mais que o recorde de US$ 6,747 bilhões do ano anterior. E no óleo, a projeção recuou para US$ 1,150 bilhão, 15,8% menor que os US$ 1.366 bilhão do ano que passou.

Efeito B7 — Depois de três anos de reivindicações e discussões, finalmente foi anunciada pela presidente Dilma Rousseff a decisão do Governo em aumentar a mistura obrigatória de biodiesel ao diesel mineral comercializado no Brasil. A Medida Provisória 646 altera a mistura dos então 5%, o B5, para B6 a partir de julho de 2014 e para B7 a partir de 1º de novembro. A decisão foi celebrada pelo Ministério da Agricultura e por todo o setor, e trará o melhor aproveitamento da matériaprima utilizada na produção (basicamente soja e gordura animal), e a maior utilização da capacidade instalada de produção. O consumo de biodiesel em 2013 foi de 2,918 bilhões de litros, com a absorção de 1,952 milhão de toneladas de óleo de soja. Com as mudanças, a projeção para 2014 salta para 3,440 bilhões de litros, com o uso de 2,239 milhões de toneladas de óleo de soja. E para 2015, a projeção salta para 4,200 bilhões de litros, absorvendo 2,734 milhões de toneladas de óleo de soja.