A Granja do Ano – 33 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Trigo

Aperto no horizonte

O Governo vai precisar entrar em campo para garantir preço mínimo do trigo. Afinal, a perspectiva é positiva para a produção global, sobretudo na exportadora argentina. E no Brasil, espera-se a maior safra até hoje: mais de 8 milhões de toneladas. Os preços já caíram no início do segundo semestre de 2014

Cândida Schaedle candida.schaedler@safras.com.br

O mercado doméstico de trigo ingressou no segundo semestre de 2014 com fortes retrações nos referenciais de preços, comportamento que se deve a uma combinação de fatores, tanto internos como externos. No cenário internacional, o quadro de oferta e demanda do cereal, apesar do recuo da produção, revelou a expectativa da elevação dos estoques e da relação estoque/consumo. No Mercosul, mesmo com reportes de complicações climáticas em algumas regiões da Argentina, os números mostram aumento significativo da produção e, consequentemente, do saldo exportável de trigo. No Brasil, espera-se a maior produção da história, superando 8 milhões de toneladas.

Por tudo isso, a média de preços no primeiro mês do segundo semestre de 2014, em relação ao mesmo período do ano passado, recuou 21% nas regiões de produção do Paraná e 30% nas do Rio Grande do Sul. De acordo com o analista de Safras & Mercado Elcio Bento, para entender os motivos dessa forte retração e traçar perspectivas para os demais meses do segundo semestre, é necessário fazer uma retrospectiva, dando destaque aos fatores que levaram o preço do cereal aos maiores patamares da história entre os meses de julho e outubro de 2013.

Na temporada 2013/14, iniciada em agosto de 2013, a produção paranaense e paraguaia, que normalmente entram no mercado no final de agosto, foram fortemente castigadas por intempéries climáticas. “Com isso, os primeiros lotes colhidos nessas regiões chegaram ao mercado apenas em meados de outubro”, comenta o analista. O alongamento do período de entressafra coincidiu com a escassez de oferta na Argentina, cujo saldo exportável no ciclo 2013/14 (que naquele país é compreendido entre o início de dezembro de um ano e o final de novembro do outro), foi de apenas 2,5 milhões de toneladas, o menor desde 1978.

Para atenuar o quadro de carência de oferta e segurar a forte elevação das cotações, o Governo brasileiro ingressou na ponta vendedora do mercado, recolocando 1,2 milhão de toneladas de seus estoques públicos. Além disso, isentou a Tarifa Externa Comum (TEC) de 10% e o Adicional sobre o Frete para Renovação da Marinha Mercante (Afrmm) de 25% sobre o valor do frete para a aquisição de trigo extra-Mercosul, entre maio e outubro de 2013. O limite para o ingresso de produto livre das taxas foi de 3,8 milhões de toneladas.

O segundo artifício utilizado pelo Governo possibilitou aos moinhos a substituição das duas principais fontes de abastecimento das últimas temporadas (Argentina e Paraguai) pelos Estados Unidos e Canadá. Prova disso é que no acumulado dos 11 primeiros meses da temporada 2013/14 (agosto a junho), dos 6,06 milhões de toneladas importados, 64% tiveram como origem países de fora do Mercosul. Na temporada anterior, mesmo com os meses de isenção da TEC (entre maio e julho de 2013), o percentual extra-Bloco foi de apenas 16%. No ciclo 2012/13, os países do Mercosul responderam por 98% das importações. “Todos esses fatores mostram que os altos preços verificados no mercado brasileiro no ciclo 2013/14 devem-se em grande parte ao forte recuo da produção na Argentina, que foi potencializado pela quebra da safra no Paraguai e no Paraná”, pontua Bento.

Aumento argentino em 2014/15 - — Na temporada 2011/12, os argentinos produziram 15 milhões de toneladas e exportaram 11,7 milhões, enquanto o total importado (grão, farinha e pré-mistura) pelo Brasil, em diferentes origens, foi de 6,8 milhões de toneladas. A produção do cereal na Argentina, no ciclo 2012/13, recuou para 8,5 milhões de toneladas e o saldo exportável para 3,25 milhões de toneladas, enquanto o montante importado pela indústria brasileira foi elevado para 7,7 milhões de toneladas. Na temporada 2013/14, que encerra no dia 30 de novembro de 2014 na Argentina, a produção foi de 9,2 milhões de toneladas e, com a necessidade de recuperar estoques, o saldo exportável será de apenas 2,5 milhões de toneladas. O total importado pelo Brasil, de agosto de 2013 até julho de 2014, deve ficar em torno de 6,8 milhões de toneladas.

“Essa forte retração da produção na Argentina, nos ciclos 2012/13 e 2013/14, está na base da recuperação das cotações no Brasil e é resultado da política de exportações do cereal, adotada pelo governo local, e de problemas climáticos”, afirma o analista Bento. “Porém, os preços elevados no momento de decisão de plantio dos argentinos e a necessidade de rotação de culturas devem resultar no aumento da área plantada na temporada 2014/15”, completa.

As estimativas apontam para 4,5 milhões de hectares cobertos por lavouras de trigo, contra 3,4 milhões de toneladas da safra anterior. Com isso, o potencial de produção fica por volta de 12,5 milhões de toneladas, contra 9,2 milhões de toneladas do ano anterior. Confirmado o montante de produção, o saldo exportável se elevará de 2,5 milhões de toneladas para 6,5 milhões de toneladas. A estimativa de importação brasileira é de 5,5 milhões de toneladas. Esses números corroboram a perspectiva de preços achatados no momento da colheita argentina.

Influência das bolsas americanas - — Contudo, existem outros fatores que justificam a forte queda dos preços nos últimos meses. “Com as cotações no Brasil formadas de fora para dentro, a base para a retração vem das cotações internacionais, referenciadas pelas bolsas norte-americanas”, explica Bento. A média de preços no primeiro semestre de 2014 em Chicago (trigo Soft) ficou em US$ 6,37 por bushel, recuando 11,33% em relação aos US$ 7,18/bushel do mesmo período do ano anterior. A média de preços no acumulado de julho de 2014 está em US$ 5,43/bushel, recuando 17,7% em relação ao mesmo mês de 2013.

Para o trigo Hard, cujas aquisições brasileiras da safra 2013/ 14 dos Estados Unidos superaram 4 milhões de toneladas, a queda na média do primeiro semestre de 2014 em relação ao do ano passado foi de 5,8%, de US$ 7,64/bushel para US$ 7,19/bushel. Essa retração, proporcionalmente inferior ao do trigo Soft, deve-se à forte presença brasileira nas compras (em substituição ao trigo argentino) e aos prejuízos verificados nas lavouras do Texas, de Oklahoma e de Kansas na atual safra, devido à escassez hídrica.

Somente esse declínio seria suficiente para reduzir o custo de importação e derrubar os preços no Brasil. Porém, a decisão da Câmera de Comércio Exterior (Camex) de isentar a TEC e o Afrmm para mais 1 milhão de toneladas até o final de julho potencializou o movimento. Para se ter uma ideia, em março, com a TEC e o Afrmm, em uma eventual aquisição de trigo Hard norteamericano, o custo no CIF de São Paulo, convertido à taxa cambial da época, era de R$ 964 a tonelada. Para chegar ao mesmo destino a esse preço, o cereal paranaense poderia ser vendido por até R$ 856 a tonelada no FOB. O trigo gaúcho, com o ICMS de 8%, tinha uma paridade de R$ 758 a tonelada no FOB. “Essas paridades são apenas nominais e levam em consideração produtos de qualidades similares. Por isso, é normal que existam deságios. O que importa para a formação de preços é a movimentação que ocorreu”, diz o analista de Safras.

No início da quarta semana de julho, o custo de importação, já sem a TEC e o Afrmm, recuaria para R$ 792/tonelada, ou uma queda de R$ 172. Com isso, a paridade no Paraná recuaria para R$ 688 e no Rio Grande do Sul (agora com 2% de ICMS), para R$ 639. Com os deságios normais, a média de preços indicada no mercado, que estava em R$ 820 no Paraná em março/2014, recuou para R$ 680 (-17%). No Rio Grande do Sul, caiu de R$ 640 para R$ 540/ tonelada (-16%).

No âmbito doméstico, a pressão sobre as cotações do trigo resulta da necessidade de escoar um excedente de produção da safra velha no Rio Grande do Sul e da estimativa de uma produção recorde na safra nova. Na temporada 2013/14, os gaúchos produziram 3,3 milhões de toneladas, que, com os estoques iniciais e importações, fecharão uma oferta estadual de 3,867 milhões de toneladas. A moagem pela indústria local fica em torno de 1,7 milhão de toneladas. “Ou seja, o Estado precisava escoar em torno de 2,2 milhões de toneladas. A quebra da produção no Paraná na safra passada contribuiu para o escoamento do cereal gaúcho. Porém, com a iminência da colheita de um montante recorde no Paraná, essa alternativa deixa de existir”, pondera Bento. Em uma tentativa de facilitar a retirada desse excedente do mercado gaúcho, no momento em que a Camex isentou as tarifas de importação, o Governo gaúcho reduziu o ICMS de 8% para 2% para vendas destinadas aos compradores da Região Sudeste. Apesar disso, as vendas interestaduais seguiram lentas.

Estimativa de recorde - — O aumento da safra brasileira é outro fator que vem pesando e pesará ainda mais nos últimos meses de 2014 sobre as cotações. De acordo com números de Safras & Mercado, a produção tritícola alcançará 8,175 milhões de toneladas, superando o recorde anterior de 6,126 milhões de toneladas da safra 1986/87. Em condições climáticas normais, a entrada dessa safra ganhará força a partir de setembro de 2014. Na safra passada, além do volume ser menor, só ingressou em meados de outubro. Com estoques iniciais estimados em 1,572 milhão de toneladas no início de agosto e com importações projetadas em 5,5 milhões de toneladas, a oferta nacional 2014/15 será de 15,247 milhões de toneladas. O consumo doméstico deve ficar por volta de 11,7 milhões de toneladas (humano, ração e semente). Sem exportações, os estoques finais atingiriam 3,547 milhões de toneladas.

O aumento da safra brasileira é fator importante que vem pesando e pesará ainda mais nos últimos meses de 2014 sobre as cotações do cereal

O analista de Safras & Mercado Elcio Bento projeta o seguinte: “Para finalizar a temporada com o mesmo volume de estoques com que iniciou, existe a necessidade de retirar 1,975 milhão de toneladas de trigo do mercado”. Com os preços praticados no mercado tendendo a chegar ao Mínimo de Garantia do Governo, estabelecido em R$ 557,50/tonelada para o ano comercial 2014/15, essa retirada será realizada com o auxílio do setor público. Além disso, ele espera que mais de 1 milhão de toneladas sejam exportadas com o auxílio de Prêmios para Escoamento do Produto (PEP). “Mantidas as estimativas de produção brasileira e mercosulina, o ciclo 2014/15 será de preços abaixo dos praticados em 2013/14 e de necessidade de intervenção governamental para garantir o mínimo”, adverte.