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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortaliças

 

O ano do tomate

O segmento de hortaliças foi notícia em 2013 visto o boom no preço do tomate. O mesmo aconteceu com cebola, batata e cenoura. Mas estas escaladas na gôndola não costumam chegar ao produtor

Thais D'avila

No primeiro semestre de 2013 as hortaliças foram protagonistas no noticiário brasileiro. As piadas sobre o alto preço do tomate tomaram conta das redes sociais, retratando o produto como joia ou obra de arte, e motivaram até respostas em discursos governamentais. Mas não foi só o fruto vermelho que esteve nas manchetes. Cebola e batata também estrelaram muitas notícias. O aumento médio destes dois produtos (e também da cenoura) foi de 72%, conforme levantamento realizado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). "A expectativa gerada na população pelo aumento do preço do tomate foi o primeiro passo para a queda na popularidade da presidente Dilma Rousseff", garante o economista Miguel Daoud.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA) é composto por 356 itens e, conforme Daoud, o tomate tem um peso insignificante. Porém, o produto foi um indutor de inflação para outros produtos que têm peso maior. "Em termos de economia prática, a inflação se dá pela expectativa que a população tem. E o tomate gerou uma expectativa que acabou se tornando realidade, contaminando os demais itens calculados no índice."

Mas, afinal, o que houve com o preço das hortaliças? A explicação do assessor técnico da CNA Eduardo Brandão Costa é bem simples. "O tomate foi colocado como o motivo da inflação, mas isso ocorreu como ocorre em qualquer cultura. Foram fatores climáticos, aliados ao fato de que no ano anterior os produtores plantaram muito, tiveram prejuízo, e na safra deste ano reduziram a área plantada. Com menos tomate em oferta, o preço aumentou." Mas Costa admite que o percentual de 72% choca muito, especialmente em relação à inflação oficial divulgada para o período.

Já o chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Hortaliças, Warley Nascimento, concorda em alguns aspectos, pois acredita que boa parte desta diferença de preço não chega ao produtor. "Quem está ganhando é o supermercado. O aumento que teve nestes produtos foi porque o preço estava defasado. Não foi só a condição climática. O supermercado massacra o produtor, que precisa trabalhar com o preço mais favorável a ele. Mas é a lei de oferta e procura. O produtor tem que aceitar o que o supermercado paga."

Costa afirma que o produtor recebeu aumento pela caixa do tomate, mas esse acréscimo foi mascarado. Segundo ele, não há como mensurar em reais o ganho do produtor, pois existem muitos intermediários na cadeia. Mas ele foi remunerado de acordo com o preço final. O maior temor é que, em função dos altos preços registrados, o "produtor volte a plantar mais tomate e tudo se repita." O assessor técnico da CNA explica também que o consumidor de hortaliças troca muito facilmente de produto. "Ele migra para um similar e reduz o consumo do que ficou mais caro."

O fator clima - As hortaliças estão entre os produtos que costumam apresentar rápida oscilação de preços – para baixo e para cima –, tudo em razão de questões climáticas. Ainda segundo Costa, da CNA, "o clima este ano foi complicado para as hortaliças – choveu na hora que não podia e, quando precisava, não choveu." E como é uma cadeia que não tem uma organização muito grande, a produção vai variando conforme a crença do produtor. "Se eles acham que a cultura não vai remunerar muito bem, não plantam mesmo."

Mas as instituições de pesquisa estão trabalhando para minimizar os prejuízos causados pelo clima nas frágeis hortaliças. Conforme o chefe adjunto da Embrapa Hortaliças, os pesquisadores estão buscando soluções de resistência a doenças causadas pelo excesso de umidade, por exemplo, além de orientar o produtor sobre boas práticas de cultivo como o manejo de solo, de água e o cultivo protegido.

O desafio da pós-colheita - O cuidado com as hortaliças na fase depois da porteira é um dos principais desafios do setor. Conforme dados da Embrapa Hortaliças, são mais de 30% de perdas ao longo da cadeia – até na mesa do consumidor. Conforme Nascimento, a principal preocupação da entidade é trabalhar para a redução das perdas. "O produtor tem conseguido fazer uma produção boa, mas ele perde no transporte, na falta de uma cadeia de frio para hortaliças e na deficiência no uso de embalagens adequadas."

Treinar o agricultor e seus funcionários e utilizar métodos simples como a Unidade Móvel de Sombreamento, desenvolvida na Embrapa, pode fazer a diferença. Manter as hortaliças na sombra aumenta a durabilidade do produto. "A exposição direta ao sol logo após a colheita pode acelerar o amadurecimento e a desidratação", esclarece o pesquisador. E o treinamento, além de manter a qualidade do que sai do campo, também visa aumentar a disponibilidade de trabalhadores capacitados. Hoje, a mão de obra representa mais de 50% do custo de produção de hortaliças.

A CNA e o Senar estão desenvolvendo cursos e cartilhas para capacitar novos trabalhadores para atuar na atividade. "O produtor até está disposto a pagar mais, mas não encontra mão de obra qualificada", aponta Costa. A média de remuneração gira em torno de um salário mínimo e meio e, mesmo assim, os agricultores perdem trabalhadores para outros setores da economia. A mecanização é uma saída. Algumas culturas, como o tomate rasteiro, já estão completamente mecanizadas. "O investimento é alto, mas as máquinas serão utilizadas por muitos anos, vale à pena", decreta o chefe-adjunto da Embrapa Hortaliças. Outro fator que pode reduzir o uso de mão de obra é a semeadura de precisão, como vem sendo feito em algumas propriedades com a cenoura. "Diminuindo a quantidade de sementes no plantio, o desbaste, prática que ocupa muitos trabalhadores, pode ser dispensado."

Comer saudável, eis o espaço no mercado interno - Um levantamento da CNA apontou que os brasileiros consomem pouco mais de 1/3 do que a Organização Mundial da Saúde recomenda em hortaliças. Em função disso, a entidade deve lançar uma campanha no final de 2013 pra aumentar o consumo de hortaliças e frutas. A Embrapa também tem projetos de incentivo ao consumo de hortaliças. Atualmente, o trabalho é realizado em escolas da rede pública e privada de Brasília e arredores.

Outra aposta de Warley Nascimento, como oportunidade para os produtores, é no mercado gourmet. "Este é um nicho que está crescendo muito. Os chefs nas grandes cidades demandam, por exemplo, por mini-hortaliças e flores comestíveis", descreve. Investir na oferta de produtos mais práticos para o consumo, higienizados, picados e embalados também vai ao encontro das necessidades da população dos grandes centros. Mas, para conseguir isso, o chefe adjunto da Embrapa orienta o seguinte: os produtores precisam se associar, formar cooperativas, negociar com o varejo. Isso possibilita mais renda e uma melhor oferta ao consumidor final.