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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Laranja

 

Azedume sem fim

Pomares carregados, indústrias com grandes estoques, queda no consumo mundial de suco e preços deprimidos compõem o cenário da safra 2013/14 e da crise vivida pela citricultura brasileira nos últimos dois anos

Gilson R. da Rosa

O setor citrícola vive uma crise que parece não ter fim. Em São Paulo, estado que responde por 70% da produção nacional de laranja, o que se vê em meados de 2013, em pleno período de colheita, são produtores com pomares carregados e quase nenhuma expectativa de venda. Os poucos que estão conseguindo comercializar seu produto recebem da indústria menos de R$ 7 pela caixa de 48,8 quilos. Nem a expectativa de uma safra menor no Brasil e nos Estados Unidos deverá refletir positivamente nos preços. Isto porque as indústrias, com grandes estoques de suco de laranja a serem comercializados e demanda internacional ainda retraída, não dá sinais de que seus fornecedores receberão mais do que em 2012/13 pela fruta entregue para processamento.

De acordo com o segundo levantamento da colheita, divulgado em agosto pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de laranja no estado de São Paulo para a safra 2013/2014 deve chegar a 296,8 milhões de caixas. O estudo aponta que cerca de 14,7 milhões de caixas poderão ter perdas ou pouca expressão econômica devido a fatores econômicos, climáticos, fitossanitários e adubação inadequada. Segundo a Conab, as indústrias de suco vão absorver 252,7 milhões de caixas (85% do total produzido) e as 44,1 milhões de caixas restantes serão destinadas ao mercado in natura, com porcentuais (15%) semelhantes aos obtidos em 2011/12. A produtividade média é de 638 caixas por hectare.

Para a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), no entanto, a safra 2013/ 14 poderá ser ainda menor do que o previsto pela Conab. "A estimativa da indústria é de 268 milhões de caixas, 30% a menos em relação a 385 milhões de caixas colhidas na safra passada. Este volume é suficiente para equilibrar a oferta de fruta e o que a indústria precisa comprar para passar o ano abastecida", avalia o novo diretor-executivo da entidade, Ibiapaba Neto.

Ele explica que a diferença entre os dados da indústria e da Conab está na metodologia adotada por ambas em relação ao número de árvores: "Para a Conab são 190 milhões de pés de laranja porque inclui um novo parque citrícola, próximo ao Mato Grosso do Sul. Para a CitrusBR, são 162 milhões de pés", compara o dirigente. Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio Viegas, as divergências nas estimativas se devem a não atualização do parque citrícola. "Houve uma grande erradicação de pomares no ano de 2012 que ainda não foi contabilizada nos levantamentos do Instituto de Economia Agrícola (IEA) e da Conab. Mas, apesar de tudo, a estimativa do Governo é imprescindível, porque não podemos ficar reféns só dos dados das indústrias", contrapõe.

Viegas acredita que se a projeção da indústria - 30% menor que a da Conab - se confirmar, haverá importantes mudanças no setor com relação aos estoques, mas isso não se refletirá nos preços pagos ao produtor. "Os preços deverão permanecer em níveis semelhantes aos da safra passada, ou seja, a indústria tem feito poucos contratos a preços baixos, entre R$ 6 e R$ 7 a caixa. A concentração e a verticalização permitem que as indústrias imponham seu poder econômico e de mercado", observa.

Ibiapaba Neto reconhece que a equalização do setor passa obrigatoriamente por forma justa de distribuição de receita, mas argumenta que indústria produz laranja por uma questão econômica. "Conseguimos produzir com um custo menor, já que na média de dez safras com frutas de terceiros ganhamos em apenas três. Basta lembrar que na safra 2010/11 os preços pagos ao produtor ficaram entre R$ 15 e R$ 17. Este ano, por exemplo, quem tem contrato nas últimas três safras, na média de US$ 8 a caixa, ou seja, R$ 18, está rindo à toa", ressalta diretor-executivo da CitrusBR.

Conforme o mais recente relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), a safra 2012/13 de laranja da Flórida gerou uma produção de 133,4 milhões de caixas, o que significa uma redução de 9,1% em relação à temporada anterior. "A menor oferta de matéria-prima poderia reduzir a produção de suco de laranja nos EUA e, consequentemente, beneficiar as exportações brasileiras, mas não será suficiente para esvaziar os estoques de suco de laranja do Brasil em curto prazo", prevê Ibiapaba Neto.

Segundo o Cepea/USP, um dos impactos da crise na citricultura paulista é que, apenas entre 2011 e 2012, 2.225 propriedades deixaram de cultivar citros no estado, redução de 12% das unidades

Radiografia da crise — Os impactos da crise na citricultora paulista também estão sendo avaliados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. "Somente entre 2011 e 2012, 2.225 propriedades deixaram de cultivar citros no estado de São Paulo, isto é, uma redução de 12%, conforme dados da Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA)", informa a pesquisadora do Cepea Margarete Boteon. "Os pequenos e médios produtores, com até 100 mil plantas, têm sido os mais afetados", explica.

Segundo levantamentos do Cepea, a produção em duas safras consecutivas (2011 e 2012) foi superior ao potencial de consumo da Europa e dos EUA, fazendo com que os estoques das indústrias se ampliassem e os preços pagos aos citricultores caíssem. De acordo com Margarete, muitos produtores não conseguiram cobrir os custos e sequer escoaram parte da safra. Ela estima que cerca de 35 milhões de caixas foram perdidas na última temporada devido à falta de compradores.

Na avaliação do analista do departamento de pesquisa e análise setorial do Rabobank Brasil, Andres Padilla, a produção de laranja no País deve sofrer uma redução para a safra 2013/14. Ele também prevê mudanças no perfil do citricultor e no pacote tecnológico da citricultura. "Deverão se manter na atividade aqueles que produzem mais do que 100 mil caixas, que têm acesso a um maior nível de tecnologia e que sejam produtivos, colhendo, pelo menos, mil caixas por hectare", estima. Conforme Padilla, a redução da colheita vai reequilibrar a oferta de laranja, mas isso só vai se refletir integralmente no mercado do suco a partir de 2014, devido aos altos estoques da indústria processadora. "O preço do suco de laranja vai aumentar levemente ao longo de 2013, com uma tendência de ajuste maior em 2014", estima o analista.