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Leite

 

Cotação mais quente

O crescimento da produção brasileira abaixo do esperado e a redução na oferta mundial estimulam o aumento dos preços do leite. O valor do litro pago ao produtor é o maior em cinco anos

Gilson R. da Rosa

O Brasil alcançou nos últimos anos um lugar de destaque entre os principais produtores de leite do mundo. Com 33 bilhões de litros por ano, o País já é o terceiro do ranking, abaixo apenas dos Estados Unidos e da Índia. A produção vem crescendo, em média, de 4% a 5% ao ano, mas, ainda assim, é insuficiente para abastecer o mercado interno. Para atender esta demanda, é importado anualmente um volume de cerca de 1 bilhão de litros, sendo que 90% são provenientes do Uruguai e da Argentina. No entanto, o consumo de leite no Brasil, com 172 litros por pessoa por ano, ainda permanece abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde, de 250 litros.

Em 2013, levantamentos preliminares feitos pelo setor apontam que o mercado brasileiro de leite deverá crescer apenas 2%. Entre as variáveis que contribuem para este baixo desempenho estão os elevados custos de produção, encabeçados pelas altas cotações do milho e da soja no mercado mundial (produtos que são a base das rações oferecidas ao gado), despesas com logística de transporte e preços baixos pagos aos produtores em 2012. "Isso ajudou a desestimular o mercado. Vale lembrar que o crescimento da produção foi de apenas 2,5% no final de 2012, quando sobe geralmente mais de 4% ao ano", avalia o diretor da AgriPoint, Marcelo Pereira de Carvalho.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), Jorge Rubez, explica que o aumento dos custos de produção não ocorre só no Brasil, mas em todos os países produtores, em razão da soja e do milho, que são commodities. No Brasil, a ração, por exemplo, representava de 10% a 15% do custo de produção. Somada à mão de obra, 25%, chegava a 40% do custo. Hoje, este percentual já está em 70%. Com isso, os produtores estão no fio da navalha, ou não têm lucro ou têm pouco. O que ele faz é tentar cortar custos. Assim, corta ou reduz a ração concentrada, mas a vaca acaba diminuindo a produção. "Às vezes, vale a pena plantar a própria soja para alimentar o gado", observa.

A baixa expectativa de crescimento da produção nacional de leite em 2013 já vem refletindo nos preços do produto no atacado desde o final do ano passado. "O crescimento da produção nestes primeiros meses de 2013 ainda é baixo. Ficou 1,4% menor no primeiro trimestre e a tendência é que se mantenha assim ao longo dos próximos meses. Ao mesmo tempo, temos aí uma redução nas importações brasileiras de leite, ou seja: tem menos leite no mercado e isso acaba influenciando os preços, que vem subindo desde o final de 2012", avalia Marcelo Pereira de Carvalho.

Conforme o presidente da Comissão Nacional do Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvin, há uma redução da oferta neste período em razão do inverno, que geralmente é compensada pelas importações. "O problema é que a oferta também está baixa no mercado externo. Praticamente todos os países produtores tiveram problemas e reduziram a produção. A Nova Zelândia, que detém 35% do mercado mundial de leite, é o maior exportador e regula o mercado internacional, reduziu o volume em função de uma seca. No Uruguai, muitos produtores estão abandonando a atividade e a Argentina não está dando conta de seu mercado interno. Com a oferta reduzida, os preços disparam", reconhece o dirigente.

Avaliação semelhante faz o diretor da AgriPoint, Marcelo Carvalho: "O preço do leite está aquecido em todo o mundo e não só no Brasil. Por isso, o produto importado de qualquer mercado, Nova Zelândia, Austrália, Europa, Uruguai e Argentina, chega ao Brasil com preço igual ou acima do produto nacional. Não entra leite no País por menos de R$ 1,40", resume.

Vilão da Inflação - O valor do leite pago ao produtor é o maior em cinco anos. Os dados fazem parte do boletim do leite do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) de junho. A entressafra das pastagens, o aumento do consumo e até o mercado imobiliário ajudaram na alta remuneração pelo produto. O País também está consumindo mais leite. Hoje, a média anual é de 180 litros por pessoa, enquanto que, há dez anos, era de cerca de 125 litros. O aumento do consumo é um dos motivos que explicam a alta do preço pago ao produtor. Os preços do litro de leite no mercado interno subiram de R$ 0,8829 na média do primeiro semestre de 2012 para R$ 1,0178 no mesmo período de 2013. "Houve um aumento da renda do consumidor. E ele gosta de consumir lácteos. Isso fez com que o consumo de leite aumentasse", diz Rubez.

No Rio Grande do Sul, os preços por litro de leite recebidos pelos agricultores variaram entre R$ 0,65 a R$ 0,98/litro. Em Santa Catarina, dados divulgados pelo Conselho Paritário Produtor/Indústria de Leite do Estado (Conseleite), mostram que os preços aumentaram mais 1,8% para o mês de julho, ampliando os ganhos dos produtores rurais. De acordo com o Conseleite, o valor de referência para o leite padrão subiu, em julho, para R$ 0,8924 o litro, mas o mercado já está pagando mais de R$ 1.

Com isso, o produto vendido ao consumidor chega em torno de R$ 3. Jorge Rubez, no entanto, não acredita que a remuneração do produtor possa aumentar mais. "O valor pago já é o maior dos últimos cinco anos e deve incentivar o aumento da produção. É o melhor momento com relação aos anos anteriores, que fechamos em vermelho. Agora, estamos empatando e a maioria dos produtores está conseguindo um pequeno lucro. Com esse pequeno lucro, dá para incentivar a produção e conseguir chegar ao patamar de 4% a 5% ao ano", pondera o presidente da Leite Brasil

Para Rodrigo Alvim, da CNA, é um equívoco taxar o leite brasileiro como um dos mais caros do mundo. "É preciso entender que a atividade depende da sazonalidade da produção. O preço pago aos produtores nacionais, por exemplo, está nos mesmos patamares de países como Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Chile e Nova Zelândia, que variam de US$ 0,30 a US$ 0,42. O que houve de janeiro para cá foi uma recomposição de preços. Estamos estimando uma redução nos preços a partir de agosto, mas isso vai depender do comportamento da safra no Sul do País", argumenta.

Competitividade - Ainda de acordo com boletim do Cepea e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o aumento do preço no mercado interno também melhorou a relação de troca do leite por importantes insumos para a pecuária leiteria, entre eles a ração (concentrado de 22% de proteína bruta), o glifosato e o diesel. Para as entidades, o complexo agroindustrial do leite no Brasil passou por mudanças estruturais nos últimos anos, submetendo os integrantes da cadeia a um processo de adaptação.

Este contexto expõe a necessidade de profissionalização do produtor tendo em vista a sustentabilidade da atividade. Segundo a análise, questões gerenciais, inclusive o conhecimento detalhado sobre os custos de produção, se tornam cada vez mais relevantes no planejamento e no processo decisório da propriedade. "Os custos de produção no Brasil, e no mundo inteiro, estão altos. O real está valorizado. A situação da indústria também é crítica em função da questão tributária. Na verdade, não é o sistema do setor primário que precisa ser consertado. As políticas macroeconômicas do País é que estão erradas. A competitividade passa por política macroeconômica do Governo Federal, logística de transporte, Custo Brasil", ressalta Rodrigo Alvin.

Segundo o dirigente, algumas dessas questões estruturais já estão sendo discutidas com o Governo Federal: "A presidente Dilma Rousseff nos pediu um levantamento da situação do leite no Brasil. A presidente da CNA, Kátia Abreu, que também é senadora pelo estado do Tocantins, apresentou à presidente um projeto nacional visando do aumento da competitividade do leite brasileiro, com foco em três pontos: capacitação, treinamento e qualificação do produtor; treinamento em gestão, tecnologia e sistema de produção; e assistência técnica ao produtor. Também estamos pedindo ao Governo linhas de crédito para financiar o custeio da atividade, mão de obra, insumos e equipamentos como ordenhadeiras mecânicas e tanques de refrigeração", informa Alvin.

Assunto para pequenos – Mesmo que apenas 30% dos produtores brasileiros sejam especializados e respondam por 70% dos 33 bilhões de litros de leite produzidos anualmente, o negócio da vaca de leite ainda é assunto para pequenos. "O Brasil possui 5 milhões de estabelecimentos rurais. Deste total, 1,3 milhão produz leite. Há, no mínimo, duas pessoas por estabelecimento. Então, daria, mexendo com leite, 2,6 milhões", diz professor da Universidade Federal de Viçosa Sebastião Teixeira Gomes, que há muitos anos estuda o leite no Brasil.

Apesar deste número, Teixeira reconhece que o Brasil perde feio quando comparado a outros países produtores. O Uruguai, com 4,5 mil produtores, vende leite para mais de 50 países. A Nova Zelândia, o maior exportador de leite, tem 13 mil produtores. Nos Estados Unidos, o país que mais produz leite, há pouco mais de 50 mil produtores, compara. Com exceção do Sul e de alguns criadores de outras regiões, o leite brasileiro vem de vacas também com sangue zebu. A melhoria do Gir Leiteiro fez com que o cruzamento com a raça Holandesa venha produzindo um Girolando de qualidade, além de trazer algumas vantagens em relação ao leite de vacada com origem apenas na Europa.

A entressafra das pastagens, o aumento do consumo interno e até o mercado imobiliário ajudaram para a alta na remuneração do leite junto ao produtor