A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Feijão

 

Em alta e em falta

Gilson R. da Rosa

Nas duas recentes safras a produção de feijão encolheu. Muitos produtores migraram para soja e milho. Isso pode ser bom para quem planta

A Aescassez de feijão na safra 2012/13 deve-se a uma sequência de fatores que reduziram a oferta do grão no mercado interno, como diminuição de área plantada, problemas climáticos e incidência de pragas e doenças. Estes fatores ainda foram agravados pelo fato de praticamente não haver estoques do produto na entrada da safra. Segundo o relatório divulgado em julho pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de feijão foi revisada para baixo. Somando as três safras, o País deverá produzir 2,83 milhões de toneladas, queda de 0,5% em relação ao relatório de junho, que era de 2,84 milhões de toneladas.

Na comparação com o ciclo anterior, quando o País produziu 2,92 milhões de toneladas, a queda é de 3,1%. A Conab estima os estoques finais em 152,9 mil toneladas, queda de 8,3% frente a 166,8 mil toneladas do relatório de junho. Em 2012 ficaram em 373,8 mil toneladas. Este cenário reflete a migração dos agricultores para lavouras de soja e milho, que, apesar da queda nos preços, ainda estão atraentes

Embora estes números sejam reavaliados pela Conab a cada levantamento mensal de safra (o volume produzido neste ano só será definido com a entrada da terceira safra em agosto), o analista da Correpar Marcelo Lüders acredita que a colheita alcance somente 2,5 milhões de toneladas, volume insuficiente para uma demanda estimada por ele em 3,3 milhões de toneladas. A consequência dessa disparidade entre oferta e demanda, segundo ele, é a alta dos preços do produto no mercado interno. "Além disso, não há mais muito feijão na China, principal fornecedor brasileiro, e houve reajuste nos preços externos. O fato de o Brasil ter sinalizado que precisava importar feijão fez a China imediatamente aumentar os preços do saldo da última safra", admite.

Para o pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão Alcido Elenor Wander, o Brasil vive um momento crítico em termos de abastecimento do feijão. "Por duas safras consecutivas (2011/2012 e 2012/2013) a produção nacional é menor bem menor que o consumo interno. Não podemos esquecer que os produtores tomam suas decisões sobre o que plantar na safra seguinte levando em consideração a experiência recente, ou seja, a safra anterior, e as expectativas para a safra futura", avalia..

De acordo com Wander, devido à safra 2010/2011 ter sido catastrófica para quem planta feijão ("no Paraná, principal estado produtor, os agricultores chegaram a vender o feijão por R$ 45 a saca de 60 quilos"), muitos produtores diminuíram a área de feijão na safra seguinte (2011/2012). "A consequência disso foi uma safra de apenas 2,8 milhões de toneladas de feijão. Como a seca nos EUA fez com que o mercado de soja e milho entrasse em uma expectativa de alta, estes mesmos produtores passaram a dar uma maior prioridade para estas duas culturas, mais uma vez, em detrimento de outras, como feijão e algodão", observa.

Na análise do pesquisador da Embrapa, mesmo com a expectativa da Conab de colher 2,9 milhões de toneladas em 2012/2013, 140 mil toneladas a mais que em 2011/2012, este volume ainda está bem abaixo do consumo interno de 3,4 milhões de toneladas. "Este é o maior déficit que o País já teve ao longo de sua história: 600 mil toneladas em 2011/ 2012 e 500 mil toneladas em 2012/ 2013", observa Wander.

Nas alturas - Com a diminuição da oferta, o preço do feijão foi às alturas. Em abril, a saca bateu os R$ 277 e alcançou a maior média mensal até então: R$ 261. Para evitar reflexos maiores na inflação, o Governo isentou o grão do Imposto de Importação, o que permitiu a entrada de feijão chinês no mercado brasileiro. A nova oferta baixou o preço médio mensal do grão em 15,23% entre abril e julho, mas, ainda assim, os preços pagos ao produtor continuam mais altos com relação ao início do ano, em 12,34%. O atual custo de produção estimado pela Conab é de R$ 89,59 por saca. O analista da Correpar Marcelo Lüders arrisca que a entrada da terceira safra em agosto (estimada pela Conab em 712 mil toneladas) será logo absorvida pelo mercado e os preços voltarão a atingir patamares altos. Ele também não descarta a possibilidade de que até o final do ano o feijão volte a ser o "vilão da inflação". Já a safra do começo do ano de 2014, segundo ele, ainda é uma incógnita. "Os preços altos não são os únicos determinantes da produção. Tem que ver qual vai ser o comportamento do milho e da soja, sobre perspectiva de área plantada, para avaliar como vai ser o primeiro trimestre do ano que vem", pondera.

Esta análise é compartilhada pelo pesquisador Alcido Wander: "Com a normalização da produção da soja e do milho nos EUA, a expectativa já não é mais tão vantajosa aos produtores brasileiros como foi na safra 2012/2013. Assim, preços não tão altos para estas culturas, associados a preços mínimos melhores para o feijão, são sinais para os produtores de feijão. Esperase que haja um aumento na área plantada com feijão, considerando o cenário de preços elevados que vem se mantendo há meses", compara.