A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Trigo

 

Com pouco apoio, mas muita coragem

Triticultores cooperados da C.Vale teimam em investir no trigo, apesar da cultura nem ao menos ter o preço mínimo respeitado

A Granja do Ano – Como estão as expectativas do triticultor associado à C.Vale em relação à safra 2012 do cereal quanto a produção, produtividade e rentabilidade?

Alfredo Lang – As plantações estão se desenvolvendo razoavelmente bem. Não enfrentamos seca nem geada como no ano passado, mas o calor e o excesso de chuvas e dias nublados, em junho, favoreceram o surgimento de doenças fúngicas. Isso prejudicou um pouco o potencial produtivo. Mesmo que não venha a gear, temos o período de colheita que quase sempre é de risco para o trigo. Esse ano, ainda mais porque existe a previsão de aumento das chuvas entre o final do inverno e o início da primavera, época em que colhemos o trigo no Paraná. Mas, caso o clima não atrapalhe, o rendimento médio deve ficar dentro dos níveis históricos, na faixa de 50 sacas/hectare.

O trigo tem perdido espaço no Paraná, sobretudo para o milho safrinha. Por que isso vem acontecendo? E esta tendência de redução de área é reversível?

Dificilmente essa tendência se reverte. E o motivo é simples: rentabilidade. O produtor faz os seus cálculos e vê que o milho safrinha é mais rentável. De forma geral, o trigo tem sido rentável só mesmo quando existe uma quebra grande de safra em algum país produtor. Aí a oferta diminui e o preço sobe, mas isso é muito esporádico. O produtor prefere o milho mesmo correndo o risco de perder por geadas. E o milho não é tão sensível às chuvas quanto o trigo. Já tivemos anos em que o trigo estava muito bom e bastaram dois ou três dias de chuva para estragar quase tudo.

Que apoios o senhor acha que o Governo Federal deveria dar ao produtor de trigo e à triticultura em geral para que o país não precisasse importar tanto trigo da Argentina para abastecer o mercado interno?

A base de tudo é o preço. Se o preço compensa, se gera margem de lucro, o produtor não teria receio de investir. O Governo deveria ter um preço mínimo para valer de fato, não apenas para fazer de conta e deixar o produto ao sabor do mercado nos momentos de preços baixos. Apoiar a comercialização, seja com subsídio ao frete ou mesmo comprando a produção. Se não importássemos tanto trigo até nem seria preciso o Governo gastar muito. A redução da oferta se encarregaria de melhorar os preços. Para isso, teríamos que adotar a mesma estratégia que os argentinos adotaram nos últimos anos, limitando a entrada de uma série de produtos brasileiros. Teríamos que restringir as importações de trigo da Argentina e também de outros países. Essa história de livre mercado só existe no discurso. Os Estados Unidos impõem taxas ao nosso etanol, a Europa taxa o nosso frango e a China mantém sua moeda desvalorizada para facilitar suas exportações. Alguns países até disfarçam o protecionismo impondo exigências sanitárias, mas, no fim das contas, todo mundo protege os seus segmentos produtivos. Não devemos ser ingênuos, devemos fazer o mesmo.

Quais as suas considerações em relação ao Plano Agrícola e Pecuário 2012/2013? Contempla as necessidades do produtor, sobretudo às do triticultor? Por quê?

O Governo acertou ao reduzir as taxas de juros para o custeio e ao ampliar os limites de financiamento. Acho que ainda dá para diminuir um pouco mais os juros, especialmente para os médios e grandes produtores. De maneira geral, estamos caminhando para patamares mais civilizados de juros e isso é bom principalmente porque estimula os investimentos. Agora, para o produtor de trigo o Plano Safra não altera nada porque não foi anunciada nenhuma medida específica para o setor. O que precisa mesmo é o Governo implementar o seguro da renda. O mecanismo já existe, o Fundo de Catástrofe, falta regulamentar e liberar os recursos para fazê-lo funcionar em todo o país. O produtor investe, paga um valor pra ter o seguro e, se o clima atrapalhar, o fundo garante a renda dele até a safra seguinte. Não é para cobrir despesa com banco, mas para garantir a renda. Custa menos do que refinanciar dívidas a cada dois ou três anos.

Alfredo Lang é presidente da C.Vale