A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Suínos

 

Só Brasília alivia

Segmento suinícola sofre há muito pela perda de mercados externos e pelo aumento do custo de produção. Até o incremento da produtividade prejudica

Luiz Silva

Os suinocultores brasileiros têm frequentado gabinetes e organizado audiências públicas em Brasília. O objetivo é reverter a conjuntura difícil que enfrentam desde 2011 em função da elevação do custo de matéria-prima (milho e soja) e de mão de obra e da perda de mercados externos. O fator positivo – aumento de produtividade – contribui para um crescimento da produção, mas cria outro problema. Não conseguindo acesso a mercados externos, amplia a disponibilidade interna, com consequente retração nos preços. “Há um desequilíbrio entre a produção maior, o consumo e a exportação menores”, explica o presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Pedro de Camargo Neto.

De 2009 a 2011, a produção de carne suína aumentou 6,5% e a disponibilidade interna, 11,6%. As exportações, porém, caíram 15% no período. De 2009 a 2012, houve um aumento de 3,8% na quantidade de matrizes alojadas e de 3,6% na produtividade. Segundo Camargo Neto, nos principais mercados externos para a carne suína brasileira – Rússia, Hong Kong, Ucrânia, Argentina, Angola e Singapura – houve uma perda acumulada de 111.644 toneladas, de 2009 a 2011. De janeiro a junho de 2012, o Brasil embarcou 1.319 toneladas a menos para Rússia, Hong Kong, Argentina, Ucrânia, Angola, Singapura e Uruguai.

Para o dirigente, o pequeno número de mercados externos representa séria dificuldade ao setor. “O embargo russo à carne suína brasileira já leva mais de um ano sem que o Governo Federal consiga equacioná-lo”, lamenta, explicando também que, desde fevereiro, a Argentina passou a restringir as importações provenientes do Brasil, situação que, conforme o governo argentino anuncia, irá terminar após recente acordo entre os países. Porém, Camargo Neto diz que isso não terá impacto significativo nas exportações brasileiras. Outros mercados suspensos são a África do Sul e a Albânia. Recentemente, foram abertos Estados Unidos e China e ainda estão em processo de abertura Coreia do Sul, Japão e União Europeia.

Para Pedro de Camargo Neto, as tendências que devem continuar elevando os custos são a desaceleração do consumo interno de carne suína, o agravamento das deficiências de infraestrutura do Brasil, os acordos coletivos de trabalho, a necessidade de inovação em segurança alimentar, em questões ambientais e em bem-estar animal, obrigações acessórias à legislação trabalhista, lei dos motoristas (Lei 12.619, de 30/4/2012), e o acirramento das medidas protecionistas.

Santa Catarina, estado com maior criatório, sente os efeitos da situação. “Uma tonelada de farelo de soja está em R$ 1.100. Pagávamos R$ 600 no início do ano”, reclama o presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi. Para ele, é preciso o preço justo para produzir, ou seja, o produtor precisa receber o mínimo. “O pagamento imediato da diferença entre o valor recebido, R$ 1,90, e o custo de produção, R$ 2,57, seria uma medida imediata que ajudaria o produtor neste momento” destaca Lorenzi.

Custos sem fim — Segundo o agrônomo Jonas Irineu dos Santos Filho, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, a queda nas produções brasileira e argentina de soja fez com que o preço do farelo disparasse no mercado internacional e nacional (aumento aproximado de 50% no ano). Mais recentemente, as perspectivas de queda na safra de milho e soja nos Estados Unidos estão novamente levando a um novo aumento no preço do milho e de farelo de soja. A participação da mão de obra nos custos de produção de suínos no Brasil é maior do que na Alemanha, na Espanha, na Itália e no Reino Unido, e semelhante à da Dinamarca e dos Países Baixos. O dirigente explica que esse conjunto de países detém quase 90% da produção da União Europeia. Hoje, após a desvalorização cambial e a redução de preços, os custos são equiparáveis, diz o presidente da Abipecs.

Outro entrave são os custos portuários, que, no Brasil, são 70% maiores do que na Europa. “Exportar um contêiner do Brasil custa R$ 1.900, enquanto na Europa, R$ 1.200. A produtividade dos portos brasileiros é 70% inferior a dos países concorrentes”, aponta. “Diante de menor custo de produção nos Estados Unidos e de aumento de excedentes exportáveis subsidiados da União Europeia, que levam à distorção dos preços de mercado, pode-se vislumbrar um crescimento da concorrência nas exportações de carne suína brasileira”, lamenta Santos Filho. “Precisamos sair deste momento. O quanto mais rápido melhor”, pondera. O pesquisador diz que, para o mercado da carne suína in natura, a diminuição do crescimento econômico no primeiro semestre impossibilitou a transferência dos custos. “Para piorar a situação, devido ao sistemático crescimento do abate de suínos nos últimos anos, ocorreu um excedente de produção nos primeiros cinco meses de 2012, o que levou a uma queda nos preços pagos pelos consumidores das carnes suínas in natura”, avalia.

Incertezas no horizonte — Para 2013, as incertezas são grandes, na avaliação do especialista da Embrapa. Para ele, o baixo estoque internacional, tanto de milho como da soja, cria uma grande dependência para a safra 2012/2013. Assim, os preços praticados no mercado futuro, tanto para milho como para a soja, sinalizam para um custo de produção suínos inferior a 2012, mas ainda superior a 2011. Em função da grande expressão da produção americana de milho (os Estados Unidos, em 2011 foram responsáveis por 39,3% da produção mundial e 56,02% das exportações de milho), a situação nestas commodities somente poderá ser equilibrada a partir de outubro de 2013 (colheita da safra 2012/2013).

Os entraves para o desenvolvimento da suinocultura brasileira são em grande parte os mesmos entraves para o desenvolvimento do país, avalia o agrônomo. “É fundamental melhorarmos a nossa logística de transporte. Um país com distâncias continentais como as do Brasil não pode continuar a transportar todos os insumos e produtos exclusivamente sobre rodas. Neste ano em especial, a queda na produção de milho e da soja, devido à estiagem nos estados da Região Sul, tem levado a um aumento no seu custo de produção e perda da competitividade”, destaca. Assim, o alto custo para transportar os grãos, que hoje são excedentes no Centro- Oeste e deficitários para o Sul, é um dos grandes causadores deste problema.

O consumo de carne suína está se expandindo nos últimos anos. Este fato guarda relação direta com o aumento na renda per capita da população brasileira nos últimos dez anos. Além de termos crescimento da renda neste período, a mesma foi mais intensa nas populações de menor renda, que eram as que menos tinham acesso à proteína animal. “Somente em 2011 nos aproximamos da média do consumo mundial de carne suína e ainda estamos muito abaixo dos maiores consumidores mundiais”, diz Santos Filho: são 15,10 quilos/habitante/ano, menos que a União Europeia (40,2 quilos), os Estados Unidos (26,6 quilos) e a China (37,4 quilos). Já as exportações continuam expressivas, com o Brasil ocupando o posto de quarto maior exportador. Para o agrônomo, a continuidade dos boicotes russo e argentino (este até junho) prejudicou sensivelmente as exportações e foi um dos grandes fatores determinantes da crise no setor no primeiro semestre. Mas há uma esperança: “Para os próximos anos, a abertura dos mercados chinês e japonês poderá auxiliar na alavancagem do setor”.