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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Uva/Vinho

 

Contra-ataque aos importados

Novas regiões produtoras no Rio Grande do Sul têm geografia mais adequada para a produção e darão mais competitividade ao vinho brasileiro. Setor também quer do Governo medidas protecionistas

Luís Henrique Vieira

O setor vitivinícola já chegou a ser considerado um dos carros-fortes da economia gaúcha e um importante setor da economia brasileira. A situação atual, no entanto, é extremamente diferente da boa maré de anos anteriores. De acordo com a Embrapa Uva e Vinho, o setor vendia cerca de 50 milhões de litros de vinhos finos até o início dos anos 2000. Atualmente, não alcança sequer 20 milhões de litros. A queda se deve especialmente a entrada maciça de vinhos importados que têm preço mais competitivo. A situação é ainda mais complicada quando as prateleiras dos supermercados oferecem vinhos chilenos e argentinos, que são beneficiados com isenção de alíquota de imposto de importação.

O que também agrava o problema econômico dos vitivinicultores é a supersafra, que neste ano é a segunda maior da história. Foram processados 696,1 milhões de quilos de uvas no RS, estado responsável por cerca de 90% da elaboração brasileira de vinhos e 55% da produção de uvas, segundo o Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). Este é o volume de uvas processadas pelas vinícolas do estado, sem contar as uvas para consumo in natura, as vendidas para fora do Rio Grande do Sul e as processadas artesanalmente. Em 2011 a colheita e o processamento fecharam em 709,6 milhões de quilos de uva.

A produção significativa gerou um estoque de 268,9 milhões de litros de vinho considerando apenas vinícolas gaúchas. “O volume excedente está mais de 100 milhões de litros acima do normal, que é um estoque de passagem ao redor de 150 milhões de litros”, afirma o diretor-executivo do Ibravin, Carlos Raimundo Paviani. A projeção é fechar com 313 milhões de litros de vinhos e derivados, com a produção de mais de 436,4 milhões de litros da safra de uva no segundo semestre de 2012. “A grande safra de uva deste ano coloca o setor em alerta, pois os estoques são ainda maiores. Estamos esperando desde 2010 por medidas de redução dos estoques de vinhos finos e de mesa”, completa Paviani. Já o economista José Fernando da Silva Protas, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho e autor do livro Panorama da Vitivinicultura Brasileira, explica que o setor no país não consegue competir com as indústrias chilena e argentina por conta de escala de produção, além de outros motivos. “A estrutura topográfica (da Serra Gaúcha) é o que impede áreas em que se busque ganho de escala. Há também a alta precipitação da região”, aponta.

Segundo Protas, porém, o alento para o setor está nas novas regiões produtoras no Rio Grande do Sul, na Campanha e na Serra do Sudeste. Ele prevê que em até três anos o país deve ganhar uma escala muito maior de vinhos finos, que deve impactar definitivamente nos preços. “É a realidade desta consolidação de uma vitivinicultura na região da Metade Sul (do RS). As novas regiões estão focadas, têm uma geografia mais plana, mais adequada e nos darão competitividade no longo prazo. As áreas são muito maiores”, resume, citando os municípios de Encruzilhada do Sul, Bagé, Santana do Livramento, Dom Pedrito, Uruguaiana, Alegrete e Rosário do Sul.

Marketing e ação política — A estratégia dos vitivinicultores não exclui um bom marketing. O setor escolheu o mercado interno como prioridade em função do potencial de consumidores, embora as maiores produtoras de vinhos finos exportem. Apesar do tamanho do mercado e do crescimento, o consumo é apenas de dois litros de vinho per capita no país devido a concentração de compras ser geograficamente de São Paulo ao Rio Grande do Sul. “O mercado brasileiro é o grande eldorado que todo mundo quer. Há uma série de ações de projeção para a marca Vinhos do Brasil. A (escola de samba) Vai-Vai apresentará uma homenagem a nossos vinhos, inclusive”, destaca Protas.

Como reação à chamada “invasão” de vinhos importados, o setor pede junto ao Governo Federal alguma forma de intervenção, como adoção de cotas de importação ao Chile e à Argentina. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior ainda analisa o pedido da União Brasileira de Vitivinicultura e as alíquotas de imposto de importação para vinhos norteamericano, europeus e australianos de até 55%. Na opinião de Protas, esse deve ser o foco apenas no curto prazo. “A solução passa muito mais por inovação tecnológica”, defende. O Governo do Rio Grande do Sul anunciou que pediu a Brasília que tome medidas urgentemente com relação aos excessos de estoques. “Vamos pedir ao Governo Federal que tome medidas para escoar o excedente de estoques de vinhos e assim aliviar o setor e tranquilizar os produtores. Também vamos reforçar a solicitação para que o Governo adote medidas de salvaguarda para a produção nacional, contendo a invasão de produtos importados”, afirma o secretário de agricultura do RS, Luiz Fernando Mainardi.

A opção suco — O suco de uva pode ser uma alternativa econômica muito importante para a vitivinicultura. Uma tendência verificada nos últimos três anos pelo Ibravin é o aumento do volume de uvas comuns destinadas à elaboração de suco. Nesta safra, 56% da uva comum colhida foi para a produção de suco. No ano passado, o índice foi de 51%. Em 2004, apenas 24% da uva comum virou suco. “Esta é uma nova realidade do setor, que tem encontrado no suco de uva uma alternativa viável para o maior equilíbrio econômico e uma saída para enfrentar os altos estoques de vinhos de mesa”, disse Paviani.

Marketing: a estratégia do setor foi definir o mercado interno como prioridade em função do potencial de consumidores