A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Tabaco

 

A volta da lucratividade

Produtores brasileiros de tabaco, que enfrentaram prejuízo em 2010/2011, comemoram lucro de até 25% no ciclo seguinte. E expectativa é manter os ganhos para a próxima safra

Thais D’Avila

O câmbio na safra 2011/2012 foi mais favorável aos produtores de tabaco. Em 2011 a média da cotação do dólar no primeiro semestre foi de R$ 1,61 – menos da metade do valor de 2003, quando o Sinditabaco começou a realizar o acompanhamento da moeda norte-americana. Um sério problema para uma cadeia que exporta 85% da produção. Em 2012, todo o primeiro semestre registrou taxa cambial média superior, o que deixou os produtores mais aliviados. O Brasil é o maior exportador mundial de tabaco desde 1993 e deve registrar na safra 2012/ 2013 o recorde em faturamento. Pelo menos é a expectativa do presidente do SindiTabaco, Iro Schünke, avaliando os dados levantados pela consultoria PriceWaterhouseCoopers. “A variação que a Price apurou é de 2% até 6% de elevação em relação ao ciclo passado. Isso nos leva a crer que, em dólares, nós poderemos este ano alcançar a maior exportação de tabaco que o setor já fez.” Schünke fez as contas entre a maior exportação da história, em 2009, com US$ 3,02 bilhões, e o faturamento de 2011, que foi de US$ 2,89 bilhões. Já em toneladas, o dirigente não aposta em crescimento porque o volume produzido deve ser semelhante ao do ano passado, já que a área será mantida. Aliás, a manutenção da área plantada, ou até mesmo a redução, é uma orientação da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). O presidente da entidade, Benício Albano Werner, alerta que, com mão de obra cara e escassa, o produtor deve contar com a mão de obra familiar ou manter a área, mesmo com os melhores preços que vêm sendo praticados. “Falta mão de obra no interior. Estamos incentivando muito ao produtor não aumentar a área de produção se ele tiver que contratar. O percentual de aumento de remuneração da mão de obra cada ano é maior. Não só no tabaco, mas, de modo geral, a mão de obra rural está escasseando.” Como falta mão de obra, o valor a ser pago por quem optar por contratar é mais alto. E esse impacto de custo é ainda maior do que a alta do dólar. Segundo Werner, quando o dólar começou a subir, a maioria dos produtores já havia comprado os insumos, que oscilam conforme o câmbio. Além de reduzir custos, evitando a contratação de trabalhadores, a orientação para não aumentar a área tem também o objetivo de deixar o mercado bem equilibrado. O que nós estamos pregando é que não ultrapassemos em 2012/13 a área plantada em 2011/12, que foi de 324.610 hectares. Isso pra uma questão de a gente ficar dentro da oferta e demanda”, revela. Enquanto orientam os produtores para equilibrar a produção, os dirigentes do setor no Brasil estão de olho no que fazem os concorrentes. Países africanos como Zimbábue, Tanzânia e Malawe estão se organizando e vêm ganhando espaço no mercado mundial. Só os tanzanianos aumentaram a produção de 15 mil para 100 mil toneladas em cinco anos.

Como maior exportador mundial, o Brasil não quer perder espaço nas vendas do tabaco Virgínia, que é a variedade melhoradora de sabor. A intenção é, conforme o presidente da Afubra, conseguir mais valorização pelo produto brasileiro no mercado internacional. “O setor do tabaco no Brasil está mais adiantado do que qualquer outro na questão de sustentabilidade ambiental e social. Nosso país é reconhecido pelo fumo de qualidade e precisamos ser remunerados por isso”, defende.

Sustentabilidade ambiental e social — A cadeia do tabaco espera ainda para 2012 a oficialização da certificação de Produção Integrada do Tabaco – Pitab. O programa está em fase de regulamentação e teve, em maio de 2012, a oficialização da Comissão Técnica que está normatizando o processo. A Produção Integrada do Tabaco já acontece na prática há algum tempo. Os cuidados com questões de sustentabilidade ambiental e social fazem parte do sistema da cadeia há alguns anos, e a rastreabilidade, outro critério do Pitab, também é uma realidade entre os produtores integrados. Com a efetivação do sistema, o presidente da Afubra afirma que o próximo passo é buscar a valorização do produto. “Isso é mais um motivo para nós produtores recebermos melhor remuneração a nível internacional. Porque nós já estamos seguindo a questão da sustentabilidade. E esse programa tem mais valorização do produto porque obedece uma série de normas e critérios.”

Limitações da Convenção Quadro — Em novembro de 2012, na quinta reunião da Conferência das Partes (Cop5), deve ser discutido um dos pontos que mais interferem sobre o trabalho do produtor de fumo. O artigo 17 preocupa os dirigentes do setor, como o presidente do Sinditabaco. “Ele tem como mote a diversificação das propriedades produtoras de tabacos, mas, pelo que se soube extraoficialmente, o relatório que vai ser votado na Coreia traz no bojo uma série de medidas que podem vir a prejudicar a produção – como limite de crédito, problemas para que se possa fazer a assistência técnica, limitação de área, não-produção em áreas novas…” Schünke alerta que quando os documentos da Convenção Quadro falam sobre diversificação da propriedade, “na verdade, visam a substituição do tabaco”.

Indústrias e produtores tentam negociar, levar a preocupação do setor ao Governo. Mas a cadeia do tabaco não tem assento nas discussões da Comissão Nacional para Implementação da Convenção Quadro (Coniq). O presidente da Afubra lembra que, na primeira Conferência das Partes, o Brasil se comprometeu em não fazer campanhas de redução de plantio. “Vamos ver se a assinatura da Dilma, na época chefe da Casa Civil, vai valer alguma coisa.” As limitações ao plantio podem, segundo Iro Schünke, gerar um movimento de transferência da produção para outros países, tirando renda e postos de trabalho no país. “Hoje, somos o segundo maior produtor e o maior exportador. Com essas medidas, o Brasil tem que ter cuidado para que, daqui a pouco, a gente não esteja transferindo produção e empregos para o exterior, em vez de estar exportando produto. Conforme os dirigentes, projeções da Organização Mundial da Saúde apontam que até 2025 é esperado crescimento do número de fumantes no mundo. “Enquanto tiver consumo, vai ter produção, em algum lugar do mundo.”

As lideranças estão sugerindo ao produtor não ampliar a área de produção, visto o alto custo da mão de obra no campo

Apoio à diversificação — As indústrias vêm, há muitos anos, trabalhando na diversificação das propriedades. O presidente do SindiTabaco afirma que mesmo antes da Convenção Quadro falar sobre isso, as empresas já vinham orientando os produtores a plantar outras culturas além do tabaco. Um exemplo é o programa “Plante Milho e Feijão após a Colheita do Tabaco”, que tem mais de 20 anos. Nesta iniciativa é recomendada a sucessão de culturas com o fumo, aproveitando a adubação residual e reduzindo a incidência de pragas e doenças. Outro projeto que também trata sobre diversificação é o Programa de Reflorestamento, que incentiva o plantio de florestas nas propriedades. Um dos objetivos é suprir a necessidade de lenha, forma mais barata de geração de energia para a secagem do fumo. Mas nem tudo o que o produtor planta vira lenha. Portanto, hoje, as propriedades que plantam fumo têm, em média, 26% da área com cobertura florestal.