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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortaliças

 

O caminho é a profissionalização

A assistência técnica e a extensão rural são os maiores desafios na produção de hortaliças no Brasil. Existe área, tecnologia e pesquisa de vanguarda, mas é preciso capacitar para crescer

Thais D’Avila

"Precisamos valorizar o que está na mesa do consumidor brasileiro.” O presidente da Câmara Setorial de Hortaliças, Waldir de Lemos, é crítico em relação ao apoio que as grandes culturas, como soja e milho, recebem dos governos. “A agricultura da mesa do brasileiro, o tomate, o chuchu, a abóbora, o repolho, a batata-doce... Isso nunca foi preocupação! O Brasil se preocupa muito com a soja, mas essa quase não vai para nossa mesa, essa é para exportar.” A expectativa do dirigente é de que a situação comece a mudar. A criação do Instituto Brasileiro de Horticultura (Ibrahort), em 2010, abriu portas para a execução de ações concretas em prol do setor no país. A Câmara Setorial articula e o Instituto Brasileiro de Horticultura pode executar. Conforme Lemos, está sendo contratada uma empresa que irá realizar uma radiografia da olericultura no Brasil. Município por município, cultura por cultura, tamanho de área e práticas utilizadas. “Isso vai servir para a definição de políticas específicas para quem atua nesta área da produção, e também levando em conta os diferenciais de cada região do país.” O Instituto está buscando verbas para a execução do projeto junto ao Ministério da Agricultura e também o patrocínio de instituições financeiras.

A área plantada com hortaliças no Brasil segue estável nos últimos anos: entre 800 mil e 1 milhão de hectares. Bem distante da área média ocupada por soja (25 milhões) ou milho (15 milhões). O chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Hortaliças, Warley Nascimento, destaca que, da iniciativa privada, o setor vem recebendo muita atenção. “É uma atividade que tem alto valor agregado. E a tendência é de um aumento no consumo. Eu acho que as empresas estão de olho nesse mercado. A agregação de valor é muito mais alta do que uma semente de soja ou milho.”

Nascimento conta que a cada US$ 0,50 investidos em uma semente de hortaliça é possível chegar no consumidor com um valor agregado 50 vezes maior. Um grande ganho em comparação a outras culturas. E essa atenção aparece também na área de pesquisa – tanto pública como privada. Nos últimos dez anos, os estudos em hortaliças evoluíram muito. Surge um problema, uma doença, logo em seguida já é desenvolvida uma variedade com resistência ou uma prática para controle. “A arma que a pesquisa tem é a colocação de novas cultivares, novos materiais com resistência a essas principais pragas e doenças. E isso já está chegando no mercado tanto da Embrapa como de outras empresas nacionais e multinacionais”, afirma.

A área plantada com hortaliças no Brasil segue estável nos últimos anos, entre 800 mil e 1 milhão de hectares

A vantagem, segundo Nascimento, são as ferramentas que a biotecnologia permite para acelerar os procedimentos, especialmente nos programas de melhoramento genético. O processo de encontrar soluções está cada vez mais acelerado. “Você inclui ferramentas de biotecnologia e, através de análise de genomas, de marcadores moleculares, consegue avançar gerações muito rápido em laboratório.” Antes, afirma o pesquisador, era preciso plantar a semente, ver o fruto, selecionar as plantas, tudo no tempo do ciclo de cada cultura. “Hoje, com marcadores moleculares ou enzimas você consegue saber se o material é bom ou ruim sem precisar ir a campo.”

Enquanto os pesquisadores fazem sua parte pelas hortaliças, os produtores precisam se organizar para não perder todo esse ganho potencial proporcionado pela ciência. A presidente da Associação Brasileira de Horticultura, Tyioco Hojo Rebouças, aposta na associação de agricultores como forma de melhorar a produtividade e reduzir as perdas. Hoje, alarmantes 30% a 40% do que sai das hortas se perde no manuseio, transporte e até na geladeira do consumidor. Tyioco salienta o aspecto nômade do cultivo de hortaliças. Essa migração não ocorre por ciclos de tempos e sim pela exaustão do solo e da condução equivocada que muitos produtores dão a sua horta. “Se a gente pegar o tomate, as regiões Sul e Sudeste já foram grandes produtoras. Depois o foco ficou em Minas Gerais, passou por Juazeiro, Petrolina… A mosca branca inviabilizou, o solo erodiu. Hoje, a produção se instalou em Goiás.”

Por isso, os dirigentes são unânimes em afirmar que a extensão rural é o caminho para melhorar a produtividade, gerar mais renda e tornar a produção mais sustentável. Nascimento, da Embrapa, afirma que boa parte da orientação ao produtor é feita pelo vendedor de insumos. “Ele orienta o produtor sobre espaçamento, adubação e irrigação. Não é o ideal, principalmente porque ele está ali para vender um produto. Mas é o que, atualmente, está mais presente na propriedade.”

Conforme a presidente da Associação Brasileira de Horticultura, 80% das hortaliças que chegam à mesa do brasileiro saem de pequenas propriedades. “Grande parte da irrigação que as hortaliças recebem é com regador ou mangueira. O pequeno agricultor precisa capacitação e conscientização e ferramentas”, analisa. Um ponto alarmante, levantado por Tyioco, é que como as plantas respondem bem à adubação, por exemplo, muitas vezes o produtor exagera e acaba contaminando o solo. E para que isso não aconteça, o uso de insumos por palpite, é imprescindível que o agricultor tenha a assistência e a orientação de um profissional habilitado.

Em busca da produtividade — O Brasil precisa melhorar a produtividade em relação a outros países produtores. Mas também dentro do país existem muitas diferenças. O chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Hortaliças cita o exemplo da cebola. Em Cristalina/GO os produtores conseguem colher quatro vezes mais cebolas do que no Sul do país. Mas nestas propriedades é utilizada uma agricultura empresarial, mecanizada, altamente tecnificada, com trabalhadores contratados. As atividades não param nem aos finais de semana. “Bem diferente do que se encontra no Sul, onde é usada semente de polinização aberta, densidade menor, pouco uso de tecnologia, mão de obra familiar. Mas isso mostra que é possível crescer, que há potencial.”