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Laranja

 

No vermelho

Restrições americanas ao suco brasileiro e estoques elevados comprometem desempenho da indústria. Assim, 8 milhões de caixas de laranjas já se perderam nos pomares paulistas por falta de compradores

Gilson R. da Rosa

A citricultura brasileira é reconhecida internacionalmente como um setor altamente organizado e competitivo. São colhidas anualmente no país mais de 18 milhões de toneladas de laranja, volume que representa cerca de 30% da safra mundial da fruta. O Brasil também é responsável por 60% da produção global de suco de laranja e campeão de exportações. Este desempenho, no entanto, é proporcional às dificuldades que o setor vem enfrentando, como a queda do consumo mundial de suco de laranja, a redução das importações americanas, o câmbio desfavorável, a tributação excessiva, os preços inferiores aos custos de produção e um longo histórico de conflitos que permeia a relação entre produtores e indústria. A conjunção desses fatores, somada aos estoques elevados registrados na safra 2011/12, já mostra seus efeitos nos pomares do Cinturão Citrícola de São Paulo e do Triângulo Mineiro, de onde saem 80% das laranjas produzidas no país.

De acordo com o Serviço de Agricultura no Exterior do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o Brasil deverá colher 467 milhões de caixas de laranja na safra 2012/2013, uma queda de 12% em relação à temporada anterior. Os estados de São Paulo e Minas Gerais devem produzir 365 milhões de caixas de laranja, segundo o USDA, um declínio de 13% ante a safra 2011/12. A Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR) calcula a safra da região em 364 milhões de caixas de laranja de 40,8 quilos, o que representa uma queda de 15% em relação a 428 milhões de caixas produzidas no período anterior.

Com base no volume a ser colhido nesta safra e nos estoques de passagem estimados em 556 mil toneladas, a indústria trabalha com a perspectiva de processar em torno de 247 milhões de caixas de laranja, projetando um incremento do consumo in natura no mercado interno superior aos 30 milhões de caixas da safra 2011/12, o que ainda geraria um excedente de 87 milhões de caixas. Deste modo, com um volume de produção muito superior à capacidade de armazenamento de suco, a prioridade da indústria é processar a fruta produzida em seus próprios pomares e cumprir apenas os contratos firmados.

O presidente da Câmara Setorial da Citricultura, Marco Antonio dos Santos, calcula que 8 milhões de caixas de laranjas já se perderam nos pomares paulistas por falta de compradores para as frutas, que deixaram de ser colhidas. “O tamanho da perda pode ser maior, caso o setor não encontre uma alternativa para escoar o excedente da produção”, informa. O dirigente calcula que apenas 3 mil citricultores têm contratos, enquanto outros 6 mil estão sem perspectiva de comercializar o seu produto. Na análise do engenheiro agrônomo e consultor Roberto Barretto Dias Filho, da Barretto Consultoria Agronômica e Paisagismo, a colheita tenderá a ser mais sofrida que a do ano passado, com poucos ou nenhum contrato novo e erradicação de pomares em um nível poucas vezes visto. “O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou, em agosto, o preço mínimo de R$ 10,10 por caixa de laranja. A tendência, porém, é que sejam honrados apenas os contratos já firmados e não sejam feitos novos contratos, quando o mais provável e sensato seria firmar novos contratos e dividir as perdas entre todos”, afirma.

A pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP), Margarete Boteon, explica que, diante deste cenário, fatores como custo de produção e preços tornam-se irrelevantes porque a indústria não está fazendo novos contratos com os produtores. “A questão realmente é o que fazer com este excedente? Isto vem causando um efeito negativo no setor e a indústria, os produtores e o Governo precisam encontrar alternativas rápidas”, observa.

Com um volume de produção muito superior à capacidade de armazenamento de suco, a prioridade da indústria é processar a fruta dos próprios pomares e cumprir apenas os contratos firmados

Para o presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtros), Flávio Viegas, a queda na produção se deve à bienalidade a cultura, mas também a outras variáveis, como seca, processo de colheita muito lento, doenças e a política ostensiva de concentração praticada pelas indústrias de sucos, que está provocando a erradicação de pomares e fazendo com que muitos produtores abandonem a atividade. “Os investimentos das indústrias em pomares próprios têm como objetivo controlar os preços no mercado internacional. A indústria também quer controlar o mercado interno. Se a safra é cheia, usam o mercado interno como reserva estratégica. Se a oferta é menor, concentram toda a produção no mercado externo”, critica o dirigente.

O gargalo das exportações — Com a capacidade de produção de suco limitada pelo armazenamento, a indústria também estima uma queda nas exportações em torno de 18% em relação a 2011. Conforme a CitrusBR, o volume embarcado deverá ficar em torno de 970 mil toneladas, por conta das restrições norte-americanas ao produto brasileiro. As exportações brasileiras de laranja estão concentradas em três grandes mercados: União Europeia (70%), Estados Unidos (15%) e Ásia (3%). De acordo com o presidente da CitrusBR, Christian Lohbauer, os embarques para a Europa têm se mantido praticamente estáveis. O gargalo está no mercado norteamericano, onde as barreiras ao suco de laranja brasileiro provocaram queda de 32% nas exportações do produto àquele país no primeiro semestre de 2012, com 29 mil toneladas.

Segundo Lohbauer, o tombo só não foi maior porque as indústrias encontraram um caminho para driblar a barreira norte-americana: substituir parte da venda de suco de laranja concentrado pelo não concentrado. O argumento dos EUA para impedir a entrada do produto brasileiro, desde janeiro, é a presença do fungicida carbendazim no suco, que é liberado no Brasil, mas proibido nos EUA para a citricultura. Como no suco não concentrado, que contém seis vezes mais água do que o concentrado, o fungicida não aparece, a estratégia foi trocar o tipo de produto exportado. Com isso, a expectativa da CitrusBR é que as exportações aos EUA melhorem a partir de setembro, quando o resíduo de carbendazim nas frutas deve diminuir.

Outro fator que dificulta o aumento da participação do suco brasileiro no mercado mundial é a queda no consumo de suco de laranja em razão da oferta crescente de bebidas não alcoólicas, mais baratas, de menor conteúdo calórico ou, em alguns casos, com forte apelo de imagem juvenil como elemento motivador para o consumo. Apenas nos EUA, de acordo com dados da empresa Welch’s, o consumo de suco de laranja pronto para beber caiu 6,2% no último ano.