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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frutas

 

O sabor está em ser empresário

Indicadores de preços e produção melhoram em 2012, mas fruticultor ainda tem muito a evoluir no seu negócio, e se organizar para obter competitividade e eficiência

Thais D’Avila

Os números de produção e preços pagos ao produtor de frutas até a metade de 2012 têm apresentado melhoras em relação ao ano anterior, inclusive os das exportações. A fruticultura tem um papel importante na economia brasileira, Paulo Lanzetta tanto no aspecto financeiro como no social: cada hectare cultivado com frutas gera de dois a cinco empregos diretos. As lideranças do setor apontam para um mesmo caminho para melhorar as condições do setor: associação dos produtores, em geral agricultores familiares, para a compra de insumos mais baratos e a organização da comercialização.

O presidente do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), Moacyr Saraiva Fernandes, afirma que o desafio do produtor brasileiro de frutas está em encarar a atividade como um negócio, comportar-se como um empresário. “Este é um dos gargalos do setor. Hoje, o produtor só sabe quanto ele gastou e qual é o preço que querem pagar pela fruta dele. Quando ele tiver a visão de empresário, vai ter maior rentabilidade, comprando melhor os insumos e vendendo melhor seus produtos. Se o pequeno não se organizar para ter escala para negociar bem, ele vai continuar sendo penalizado.”

A fruticultura tem papel importante para o país nos aspectos econômico e social, já que cada hectare cultivado gera de dois a cinco empregos diretos

A mesma opinião tem o presidente da Sociedade Brasileira de Fruticultura (SBF), Abel Rebouças São José, que acredita ser necessária a organização em qualquer tamanho de propriedade. “É obrigatório que o produtor se organize, para ter maior poder de barganha, reduzir o custo e melhorar a rentabilidade. Até o grande produtor precisa se organizar para atender o mercado interno e, especialmente, o mercado internacional, que é muito mais exigente”, sugere. São José destaca também a importância de políticas públicas para o setor das frutas. Ele cita um programa de preços mínimos como uma forma de o produtor reduzir os riscos. “No ano passado, os produtores de mamão da Bahia vendiam a fruta a R$ 0,15 o quilo. E o custo de produção era acima de R$ 0,30. Este ano, os preços se recuperaram, superando R$ 1/quilo, mas o setor ficou 18 meses à mercê do mercado”, exemplifica.

Abacaxi no semiárido — O chefe geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Domingo Haroldo Reinhardt, concorda e vai além, dizendo que o setor de pesquisa está trabalhando em diversas frentes para atender o produtor e o consumidor, mas que, sem organização, até a transferência de tecnologia fica mais difícil. Reinhardt cita como exemplo de potencial de organização dos produtores a produção de abacaxi na região do semiárido nordestino. A pesquisa desenvolveu variedades resistentes a doenças e melhorou sistemas de produção. Mas foi só depois que os produtores se organizaram em cooperativa que a produção de abacaxi em Itaberaba/BA disparou. “É um exemplo interessante de evolução positiva da fruticultura numa região semiárida, está inserida numa região seca. O abacaxi foi a única cultura que se desenvolveu e se deu bem. E começou com 50 ou 100 hectares, há 15 anos. Coisa inexpressiva comparando com os 4 mil hectares cultivados atualmente. Envolve 1,5 mil pequenos produtores. Só para atendimento do mercado interno.”

Além das variedades resistentes a doenças, a pesquisa também atua em outras frentes, na fruticultura. Um dos destaques deve ser, conforme Reinhardt, a produção de novas variedades de uma mesma espécie. “O abacaxi mesmo, temos apenas duas variedades no Brasil – a Pérola e a Cayene. E o mercado interno é bastante receptivo à novidade. A demanda por diversidade é bastante clara. Nós temos grande diversidade de frutas, desde amazônicas, tropicais, de clima temperado no Sul… Mas dentro de uma mesma fruta é possível trazer novidades que agradem o consumidor e, ao mesmo tempo, tenham boas características de campo e póscolheita”.

Muito espaço para crescer — O Brasil tem área, clima, solo e mão de obra. O país é o terceiro maior produtor mundial de frutas, atrás apenas da Índia e da China. O agronegócio fruticultura movimenta, em média, US$ 15 bilhões por ano. Mas existe potencial para muito mais. A conscientização de que comer frutas faz bem e que o que sai dos pomares tem funções nutricionais e nutracêuticas colabora para vender a ideia de importância do consumo. No mercado interno, a ascensão econômica da classe D para C e B também anima o setor produtivo.

Porém, conforme o presidente da SBF, ainda falta muito para alcançar o recomendado pela Organização Mundial da Saúde. “O brasileiro precisa no mínimo triplicar o consumo de frutas para atender a orientação da OMS. Por isso precisamos de grandes campanhas de marketing sobre os benefícios de cada produto e programas para conscientizar sobre a importância do consumo de frutas frescas”, lembra. Mas, além de pensar em mercado, as lideranças querem melhorar a produção no país.

E melhorar a produção não quer dizer, necessariamente, ampliar a área. O chefe geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, aposta no uso de biotecnologia e novos sistemas de produção para melhorar o rendimento nos pomares. Ele diz que na citricultura, por exemplo, está sendo trabalhado um novo manejo com ultra-adensamento de plantas, maior precocidade de produção e utilização de novos porta-enxertos com resistência a doenças.

O presidente do Ibraf, Moacyr Saraiva Fernandes, garante que é possível ganhar produtividade por área e rendimento por fruta (polpa, suco, etc.) por meio do melhoramento genético. E que muito está sendo feito no Brasil. “Nos últimos 10 a 15 anos a produtividade que tem se obtido está crescendo num ângulo mais acentuado do que a necessidade de aumentar a área de produção para aumentar o volume.” Fernandes destaca ainda que, em muitos casos, é necessário, antes de tudo, reduzir as perdas. Só a banana registra perdas médias de 42% na produção. Neste caso, o dirigente pergunta: “Antes de aumentar área, não parece mais fácil diminuir as perdas?”.