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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Florestas

 

Segmento segue firme

Setor de papel e celulose repetiu os bons números do ano anterior, mas no curto prazo, visto a instabilidade nos principais mercados mundiais, as empresas adotarão medidas de contenção de caixa

Luiz Silva

Estabilidade. Assim pode ser definido o atual momento do setor que utiliza as florestas plantadas como matéria-prima. A produção brasileira de celulose fechou 2011 totalizando 13,999 milhões de toneladas, com o nível levemente inferior ao apurado em 2010 (14,164 milhões de toneladas), segundo dados da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa). A produção de papel chegou a 9,887 milhões de toneladas, também permanecendo estável em relação ao ano anterior (9,844 milhões de toneladas). Considerando os dados computados pela entidade até junho último, a tendência é de manutenção da paridade.

Nos primeiros seis meses de 2012, a produção de celulose alcançou 6,943 milhões de toneladas, levemente inferior ao mesmo período de 2011 (6,980 milhões de toneladas). Na mesma situação está a produção de papel, com um volume de 4,913 milhões de toneladas, um pouco superior ao do período de janeiro a junho de 2011 (4,880 milhões de toneladas). “Os resultados são positivos, pois o setor manteve o patamar de 2010, considerado um ano de bom desempenho. Mas o cenário da economia mundial é preocupante”, ressalva Elizabeth de Carvalhaes, presidente executiva da Bracelpa. Ela ressalta que, no curto prazo, as empresas de celulose e papel, influenciadas pela instabilidade nos principais mercados mundiais, adotarão medidas austeras, para contenção de caixa. O objetivo é não voltar a vivenciar a situação de 2008 e 2009, quando o setor enfrentou prejuízos sucessivos por conta da crise financeira mundial.

Afinal, o segmento é dependente dos negócios externos. Em 2011 a receita com exportações somou US$ 7,190 bilhões, representando uma elevação de 6,2% em relação a 2010 (US$ 6,770 bilhões). Ainda distante dos níveis anteriores à crise financeira de 2008, a Europa foi o principal destino da celulose brasileira, totalizando 46% da receita de exportação do produto, seguida da China e da América do Norte, respectivamente com 25% e 19%. Em relação ao papel, os países da América Latina permaneceram como principal mercado e foram responsáveis por 56% da receita de exportação, seguidos por Europa e América do Norte, com 18% e 10%.

Entre os fatores que levam o setor a adotar a austeridade, Elizabeth destaca o aumento da volatilidade do mercado financeiro internacional, o enfraquecimento da atividade econômica na Zona do Euro, as altas taxas de desemprego nos Estados Unidos e as incertezas em relação à China, que sofrerá os impactos da crise. No cenário brasileiro, a redução das expectativas em relação à atividade econômica, o risco de aumento da inflação, a questão cambial e o reflexo da economia internacional sobre as commodities são os principais fatores que influenciam, hoje, as atividades da indústria.

A expectativa do setor de celulose e papel é avançar nos planos de expansão, pois as empresas estão se preparando para investir em tecnologias mais avançadas, baseadas em estudos genéticos

No médio e longo prazos, a expectativa do setor de celulose e papel é avançar nos planos de expansão da base florestal. As empresas estão se preparando para investir em tecnologias de plantio florestal ainda mais avançadas, baseadas em estudos genéticos. Entre os fatores que favorecem essa perspectiva, destacamse os dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que, em outubro de 2011, anunciou que a população mundial ultrapassou a marca de 7 bilhões de habitantes, prevendo que, em 2025, o planeta terá 8 bilhões de pessoas.

Esse crescimento populacional demandará um esforço global para alimentar, vestir e dar conforto aos habitantes do planeta, sem exaurir os recursos naturais. “Preservando as matas nativas, as florestas plantadas para fins industriais poderão suprir a necessidade de matéria-prima para a produção de madeira, lenha, carvão para uso energético, diferentes tipos de papel (de embalagens, papel cartão, para fins sanitários e de imprimir e escrever) e outros produtos de amplo consumo, destaca Elizabeth.

Na avaliação de Marco Tuoto, consultor da Associação Brasileira de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) e diretor da STCP Engenharia de Projetos, o cenário é favorável para as plantações florestais no Brasil. A seu ver, a demanda de madeira em tora oriunda de plantações florestais tem crescido 6% ao ano nas últimas duas décadas. Ele é incisivo: as plantações florestais existentes atualmente no país não são suficientes para atender a demanda futura. “O setor de celulose e papel e o setor siderúrgico (carvão vegetal) são os principais alavancadores do crescimento da demanda”, destaca.

Segundo Tuoto, o Brasil atualmente é o país que apresenta as melhores condições para o desenvolvimento da silvicultura. Isso se deve a diferentes aspectos, como disponibilidade de terras, condições edafoclimáticas (clima, relevo, temperatura, umidade do ar, radiação, o tipo de solo, vento, a composição atmosférica e precipitação pluvial), tecnologia e mão de obra. “Tratam-se de vantagens comparativas que fortalecem sua competitividade”, deduz. Para os próximos anos, a perspectiva é uma forte expansão da base florestal (baseada em floresta plantada no Brasil), calcada pelo crescimento da demanda. “Fundos de investimentos nacionais e internacionais exercerão forte influência na expansão da base floresta do país, além dos produtores de celulose e siderúrgicas”, diz o consultor.

Uso da biotecnologia — A Bracelpa está pleiteando que as florestas plantadas passem a integrar os principais fóruns mundiais sobre economia verde. “Um dos principais focos desse debate é a biotecnologia”, diz Elizabeth. Segundo ela, a aplicação de novas técnicas de cultivo florestal será essencial para suprir a demanda crescente de alimentos, biocombustíveis, fibras e florestas – os chamados, em inglês, de 4 Fs – Food, Fuel, Fiber, Forests. Isso permitirá aprimorar o uso da terra, da água, de energia e demais recursos naturais, em busca de uma produção cada vez mais sustentável. “Por isso, a comunidade internacional precisa avaliar, ampla e conjuntamente, os riscos e as oportunidades da utilização da biotecnologia”, completa Elizabeth.

O setor de celulose e papel também quer mostrar que, por estocar, as florestas plantadas representam uma alternativa viável para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Estimativas baseadas em metodologias aprovadas pela United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) indicam que o setor de base florestal brasileiro, considerando-se somente os estoques de carbono nas áreas de florestas plantadas, estoca aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas de CO2 equivalente (CO2e) – medida que permite calcular em uma mesma base a emissão de todos os gases do efeito estufa baseado no potencial de aquecimento global de cada um. Esse volume representa mais da metade de todas as emissões do Brasil em 2005. “Somente a indústria de celulose e papel contribui com o estoque médio de aproximadamente 440 milhões de toneladas CO2e, enquanto as emissões anuais nos processos industriais do setor não passam de 6,5 milhões de toneladas de CO2e, volume praticamente irrelevante Embrapa Florestas se comparado aos benefícios das remoções líquidas”, compara Elizabeth. “Por isso, de um lado, propomos a valorização internacional dos créditos de carbono florestais. De outro, é importante que o Governo brasileiro inclua os mecanismos de crédito de carbono florestal nas estratégias para cumprimento dos compromissos nacionais voluntários de mitigação dos efeitos das mudanças climáticas”, explica.

O crescimento do segmento florestal ganhou um incentivo pela adoção da Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), que rompeu preconceitos, como o que a árvore era um problema, não um cultivo

ILPF — Para o pesquisador da Embrapa Florestas Vanderley Porfírio da Silva, o crescimento do setor florestal teve alavancagem com a adoção da Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF), que quebrou alguns paradigmas, especialmente nas lavouras. “A árvore era um problema, um empecilho. Nossa cultura é agrícola e não silvícola. De repente, foi integrada.” Por isso, o especialista acredita que em algumas regiões o crescimento da ILPF é mais lento.

O exemplo a ser seguido é Porto Vitória, no norte do Paraná, que iniciou o processo mais cedo e cujos produtores tiveram assistência exemplar da prefeitura. Silva recorda que, no Paraná, era feito inicialmente um controle de florestas plantadas em cerca de 10 mil hectares foi o começo. Embora a meta do Governo Federal de chegar a 4 milhões de hectares plantados no Brasil até 2015, o dirigente vê dificuldade em estimar o espaço plantado atualmente. “Não tenho a mínima ideia. As pessoas copiam tecnologias e depois têm problemas com o uso da terra”, explica o especialista, que tem orientado o produtor a fazer uma área piloto, dominar a tecnologia e crescer aos poucos.