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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

 

O que azeda tem nome: custos

O aumento da produção vai depender da recuperação da rentabilidade dos produtores e da queda nos preços do milho e do farelo de soja. De 2010 para 2011, por exemplo, os custos subiram 40%, o que freou o aumento da produção

Gilson R. da Rosa

O mercado brasileiro de leite deverá crescer em torno de 4% em 2012, passando de uma produção aproximada de 31 bilhões de litros, em 2011, para 32,3 bilhões de litros. A projeção é da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), que aposta no aumento da demanda doméstica e na ampliação das exportações. De acordo com o presidente da entidade, Jorge Rubez, o consumo interno estimado para 2012 é de aproximadamente 170 litros por habitante, o que irá representar um incremento de cerca de 2% em relação a 2011. Ao mesmo tempo, a expectativa da entidade é que as exportações de lácteos cresçam em 2012, chegando a um volume de 362 milhões de litros de leite, aumento de 15% em relação a 2011.

Tudo vai depender, no entanto, da recuperação dos preços pagos aos produtores e de uma possível queda nos preços do milho e do farelo de soja, produtos que são a base das rações oferecidas ao gado. “Esperamos uma melhora nos preços já a partir de agosto. Se o custo de produção ficar abaixo do preço de venda, o produtor certamente irá investir no aumento da produção, fazendo com que o mercado volte a crescer dentro da média histórica dos últimos dez anos”, afirma Rubez. Ele explica que em 2010 o Brasil produziu 30,9 bilhões de litros de leite, 6,5% a mais do que no ano anterior. Para 2011, a expectativa de aumento era de 2%, que acabou não se confirmando. “Tivemos um crescimento insignificante de apenas 1%. O principal motivo para a produção ter ficado praticamente estável em 2011 foram os elevados custos de produção, que subiram 40% em comparação ao ano anterior, desestimulando os produtores”, observa o dirigente.

Conforme o presidente da Comissão Nacional da Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvim, a alimentação do gado representa de 40% a 50% dos custos. “Se incluir a mão de obra, vai de 70% a 75%. Com isso, além de não remunerar o produtor, o preço não dá condições para que ele faça uma reserva financeira para investir na propriedade. Assim, a maioria das fazendas vai ficando sucateada. A alternativa, portanto, é baratear os gastos com a ração para ajustar o custo de produção à realidade”, lamenta.

Este procedimento, no entanto, pode comprometer a produtividade do gado, alerta Rubez. “Quando o custo de produção está alto, o produtor mantém o volumoso da alimentação, ou seja, o capim e a silagem, e reduz o concentrado pronto, que é a ração. Isso vai acarretar uma diminuição na quantidade de leite produzido por vaca. Essa interrupção tem efeitos diversos: se a vaca está em início de lactação, quando ela volta a receber o concentrado, ela também volta a produzir leite no mesmo volume de antes. Mas se as vacas estão do meio para o final da lactação, não conseguem recuperar o volume inicial”, ressalta o presidente da Leite Brasil.

Segundo dados de 2010 da divisão de estatística da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o Brasil é o quinto produtor mundial de leite, mas pode pular para a terceira posição apenas se aumentar em 20% a sua produtividade, que, em média, chega a 1.381 litros por ano por vaca. Em âmbito nacional, de acordo com dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o maior produtor é Minas Gerais, com produção anual de 8,4 bilhões de litros (27,3% do total) e produtividade de 1.540 litros por vaca/ano. Depois, o Rio Grande do Sul, com 3,6 bilhões de litros (11,8%); Paraná, com 3,6 bilhões (11,7%); Goiás, com 3,2 bilhões (10,4%), e, em quinto, Santa Catarina, com 2,4 bilhões (7,8%), que tem a maior produtividade nacional, com 2.431 litros por vaca/ano.

Mercado doméstico — Em 2011, o consumo de leite no país atingiu a marca de 165 litros por habitante, reflexo do ganho de renda obtido pelos consumidores ao longo dos últimos anos. Para 2012, a estimativa do setor é de aproximadamente 170 litros por habitante, número que ainda fica abaixo do recomendado pelo Ministério da Saúde, de 200 litros per capita por ano.

Com o aumento da produção e do consumo, surge também a preocupação com a qualidade do produto que chega aos consumidores. Alvim destaca que já houve grande avanço na qualidade do leite produzido no país. As regras estabelecidas pela Instrução Normativa nº 51 (IN 51/2002), feita pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, são consideradas fundamentais para agregar qualidade e valor ao leite produzido no país. “Com a implantação da IN 51 será possível também atender a demanda de países mais exigentes em relação à qualidade”, prevê.

Mas, para que isso aconteça, na análise de Alvin, é preciso que os produtores também tenham acesso a assistência técnica e infraestrutura adequada. “Os principais gargalos enfrentados nas unidades produtoras são as condições precárias das vias de acesso, o que compromete a qualidade do leite e, em muitos casos, promove o descarte total por falta de transporte, além da falta de energia elétrica”, argumenta o dirigente. Atualmente, pelas contas da Leite Brasil, cerca de 70% dos produtores são pequenos e respondem por 30% do leite produzido nacionalmente. “Os outros 30% são grandes e médios que vão produzir os 70% restantes. Em todo o país, são mais de mil empresas comprando leite. O que ainda atrapalha o conceito de excelência almejado pela cadeia produtiva é o leite informal, que sai direto da fazenda para a porta de casa do consumidor, sem passar pelo processo de homogeneização e inspeção”, diz Rubez.

A produção de leite no Brasil atende basicamente a demanda doméstica, complementada pelo produto uruguaio e argentino

Um dos grandes avanços obtidos pelo setor em 2012, destaca o dirigente, é a lei que obriga as usinas a informarem antecipadamente o preço que será pago pelo leite ao produtor. “Na prática, algumas empresas já fazem isso, mas agora é oficial. Pela Lei 12.669, em vigor desde junho de 2012, as empresas de beneficiamento e comércio de laticínios devem informar os produtores de leite, até o dia 25 de cada mês, o preço mínimo que será pago pelo litro do produto entregue no mês seguinte. O preço máximo vai depender da qualidade do leite recebido, no caso um preço mínimo, o máximo vai depender da qualidade do leite”, informa.

O gargalo das importações — A produção de leite no Brasil visa basicamente atender a demanda doméstica. “O grande negócio é o consumo interno, porque o mercado absorve tudo. O que falta é complementado por importações da Argentina e do Uruguai. Na balança fica assim, exportamos 500 milhões de litros e importamos 1 bilhão, o déficit é de 500 milhões de litros”, destaca o presidente da Leite Brasil. Para o presidente da Comissão de Leite da CNA, a importação de lácteos permanece como um dos grandes gargalos do setor no País. “Somente em janeiro o Brasil importou 20 mil toneladas de lácteos, o que representa cerca de 200 milhões de litros por mês, 7 milhões de litros por dia. E isso representa sim um problema para a pecuária de leite no País”, relata o dirigente.

Rodrigo Alvim alerta para o fato de que a produção de leite no Uruguai, que em 2011 cresceu 20%, em 2012 deverá aumentar em 22%. “Será que esse aumento é para atender o mercado interno uruguaio? Obviamente este crescimento se dá em cima do Brasil. Seria um absurdo se analisarmos que o nosso país, sendo o quinto maior produtor mundial, autossuficiente na produção de leite para atender seu consumo interno, ainda importa leite. Mas, é claro, isso ocorre em razão das leis de mercado”, avalia.

Outro problema que agrava a situação da cadeia produtiva, na visão do dirigente, são as assimetrias existentes entre os países do Mercosul, como o câmbio, os custos de produção e até o clima. Para mitigar os efeitos da importação predatória de leite em pó, Alvim sugere algumas medidas emergenciais que precisam ser adotadas pelo Governo. Entre estas, destaca a necessidade de um acordo Juliano Ribeiro/Seagro/TO de cotas com o Uruguai e a manutenção do pacto com a Argentina, com a inclusão do item queijo na negociação. Com o objetivo de aumentar a competitividade do produto brasileiro, Alvim também propõe a isenção de impostos (PIS/Cofins) que incidem sobre a ração animal e o sal mineral.

Apesar de todos esses gargalos, o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite disse que o Brasil tem potencial para se tornar um dos principais players do mercado mundial do produto. “O Brasil tem tudo: clima, terras agricultáveis, a possibilidade de colocar mais animais por unidade de área, raças nacionais altamente produtivas, como Girolando, e disponibilidade de água. O problema é que o país não está organizado. O Brasil está com a bola da vez, mas falta inteligência para executar políticas que atendam o setor produtivo”, ressalta Alvin.

Cerca de 70% dos produtores brasileiros de leite são pequenos e respondem por 30% do produzido. Minas é o maior produtor e Santa Catarina tem a melhor produtividade