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Feijão

 

Recuo em preto e carioca

Produção do feijão é a menor dos últimos 12 anos e tende a diminuir ainda mais na próxima safra. É desleal a concorrência com os bons preços do milho e da soja

Gilson R. da Rosa

produção brasileira de feijão na safra 2011/12 deverá ser a menor dos últimos 12 anos. Segundo o relatório divulgado em julho último pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o volume a ser colhido, considerando a soma das três safras, deverá totalizar 2,97 milhões de toneladas contra um consumo nacional estimado de 3,6 milhões de toneladas. O recuo da produção em relação ao período anterior está previsto em 20,4%. O pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão Alcido Elenor Wander explica que na primeira safra houve quebra acentuada de produção devido Alceu Richetti/Embrapa Agropecuária Oeste à falta de chuva nas Regiões Sul e Nordeste. Na segunda safra ocorreu um ligeiro aumento da produção em relação ao ano de 2010/2011 nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Mas este aumento, segundo ele, foi pequeno demais para compensar a grande perda da primeira safra. “Com isso, os preços tendem a se manter elevados por mais alguns meses tendo em vista que a terceira safra, a ser colhida a partir do final de julho, terá um aumento pequeno e não conseguirá compensar a quebra que houve na primeira safra”, compara. De acordo com Wander, havia uma expectativa de que a terceira safra tivesse sua área ampliada significativamente, em razão dos preços elevados para o feijão. No entanto, esta ampliação não se concretizou, tendo em vista os preços elevados praticados para culturas concorrentes, como milho e soja. “Considerando a expectativa de alta para estas duas culturas, é provável, inclusive, que os preços do feijão se mantenham em patamares elevados até o final do ano, já que feijão concorre com soja e milho na primeira safra. Se soja e milho estiverem com preços elevados, não basta o feijão ter preço alto para garantir um aumento da oferta”, observa o pesquisador.

No Paraná, maior produtor do grão, a indicação da Conab não é diferente. A soma das três safras deve totalizar 705,2 mil toneladas, com redução de 14,1% em relação à 2010/ 11, a menor colheita desde a safra 2004/05. A perda de produção em função da estiagem que afetou a primeira safra prejudicou significativamente o potencial produtivo do estado, acarretando um prejuízo financeiro aos produtores de R$ 115 milhões. A segunda safra também foi prejudicada no início do plantio. Ainda assim, o estado deverá ser responsável por 24% do volume colhido nacionalmente nesta safra. O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado em junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também aponta para uma redução na produção brasileira na ordem de 600 toneladas em relação à safra 2010/11.

Pior desempenho — O analista da Correpar Corretora de Mercadorias e presidente do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe), Marcelo Lüders, também reconhece que este é o pior desempenho da cultura desde a safra 1998/99. Ele acreditava em julho que tanto a Conab quanto o IBGE deveriam admitir uma quebra de safra ainda maior, o que acarretará um déficit de abastecimento no mercado interno em torno de 800 toneladas. “Com cerca de 80% da população consumindo feijão pelo menos cinco vezes por semana, o cenário é estarrecedor. Os operadores do mercado não têm certeza de como o mercado se comportará, pois ninguém viveu uma escassez desta magnitude”, observa.

A avaliação é compartilhada pelo pesquisador Wander: “Com certeza, corremos o risco de a nossa produção nacional não ser suficiente para abastecer o país, principalmente com feijão preto, que foi o tipo com os preços menores na safra 2011/ 2012, em função do aumento excessivo de importações do produto, em plena safra. O risco será agravado, caso haja alguma dificuldade dos países fornecedores (Argentina e China) em suprir a quantidade que forneceram na safra 2010/2011”, calcula.

Com base nessa conjuntura, Lüders estima que a área plantada com o cereal possa ser ainda menor na próxima safra. “A semeadura, que deve ocorrer a partir de agosto já sinaliza menor procura do produtor por sementes e insumos para o grão carioca”, observa o presidente do Ibrafe. Para Alcido Wander, da Embrapa, o desânimo do produtor em relação à cultura acontece, principalmente, em razão dos bons preços e da boa comercialização da soja brasileira. “O preço mínimo de R$ 72, divulgado recentemente no Plano Agrícola e Pecuário 2012/2013, não cria estímulos para os produtores de feijão aumentarem sua área plantada”, avalia.

O argumento tem base no fato de que na maioria das regiões produtoras também se cultivam soja e milho. “Como os preços destes dois produtos estão em alta internacionalmente, é provável que parte da área de feijão venha a ser plantada com soja e milho na safra 2012/2013. Se esta migração parcial se concretizar, os preços do feijão deverão se manter em níveis elevados, pelo menos para o feijão tipo carioca. No caso do feijão preto os níveis de preço dependerão da produção interna e do volume a ser importado”, avalia o pesquisador.

Importações — Em 2011, o Brasil importou 240 mil toneladas de feijão preto, principalmente da China e da Argentina – tradicional exportador de feijão para o país (principalmente, feijão preto). Para o pesquisador da Embrapa Alcido Wander, o problema dessas importações está no fato de serem essencialmente de feijão preto. “Ocorre que o Brasil produz aproximadamente 700 mil toneladas de feijão preto por ano. Esse volume importado é consideravelmente acima das 100 mil toneladas importadas anualmente pelo Brasil. O resultado é o preço baixo ao produtor de feijão preto”, ressalta.

No caso do feijão tipo carioca, a realidade é outra. “Não importamos, nem exportamos. O resultado são as grandes variações de preço do produto, desde o produtor, até o consumidor. O detalhe é que, quando o preço ao produtor sobe, imediatamente sobe no atacado e também no varejo, onde o consumidor reclama. Por outro lado, quando o preço ao produtor cai, leva dois a três meses para que o consumidor perceba esta queda no preço. Isso se deve, principalmente, ao poder de mercado do varejo no país, onde algumas poucas redes varejistas concentram a maior parte da comercialização do produto”, explica o pesquisador.

Para especialista, é provável que os preços do feijão se mantenham em patamares elevados até o final do ano, já que feijão concorre com soja e milho na primeira safra