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Café

 

Preço deverá esquentar

A cotação do café atingiu níveis altíssimos, caiu bastante, mas há otimismo para a temporada 2012/13, visto a suspeita de frustração da safra colombiana e a baixa brasileira pela bienalidade

Lessandro Carvalho - lessandro@safras.com.br

A temporada 2012/13 no mercado do café iniciou em julho passado com os produtores, naturalmente, se questionando o que pode se esperar desse novo ciclo comercial. O cafeicultor brasileiro viu um 2011/12 cheio de nuances e complicações, mas que no final das contas foi um período bom, de cotações remunerativas para o grão. Por outro lado, não dá para negar que foi um ano de ajuste negativo na linha dos preços. “De uma forma geral, o ano de 2011/12 serviu para garantir receita aos produtores e valorizar o café nacional no cenário internacional”, reflete o analista de Safras & Mercado, Gil Barabach. Ele ressalta que um aspecto muito positivo na temporada encerrada foi a inserção ainda maior do grão brasileiro no segmento mundial de café de qualidade. “O nosso lavado seguiu ganhando espaço nos blends e o fino é cada vez mais respeitado e valorizado, tanto é que praticamente ao longo de toda a temporada comercial essa bebida foi negociada com ágio em relação a ICE-NY (Bolsa de Mercadorias de Nova York) no mercado FOB exportação”, comenta.

Claro que o produtor se viu frustrado por não ter mais as cotações acima de R$ 500 à saca de 60 quilos ao final da temporada 2011/ 12. O analista de Safras diz que essa frustração veio justamente em um período no qual o cafeicultor apostava pesado em uma valorização do produto. “Tivemos acomodação da demanda, safra recorde no Brasil e agravamento da crise da dívida na Europa. É interessante notar que o produtor, mesmo contrariado, culpava-se por ter visto o cavalo encilhado passar a sua frente e não ter montado”, avalia, referindo-se aos momentos em que o produtor perdeu de vender seus grãos a um melhor preço.

Depois que perdeu o patamar de 300 centavos de dólar por libra-peso, alcançado de forma breve no início de maio de 2011, o preço do café em NY entrou em forte declínio, com perdas se acentuando no início desse ano. Assim, em questão de meses, o produtor viu o preço da bebida abaixo de 200 cents, chegando ao nível de 150 cents/lb. Internamente, o mercado físico, embora na entressafra, acabou descolando negativamente de NY, ou seja, caiu mais que o referencial externo. “O produtor errou a mão e sobrou muito café remanescente de 2011 para negociar na entressafra. E só não caiu mais o preço por causa da alta do dólar, que repercutiu o recrudescimento da crise na Europa”, pondera Barabach.

Em dezembro, o arábica duro com 15% de catação era negociado no Sul de Minas acima de R$ 500 a saca, com reportes de cafés melhores trocando de mãos a R$ 560 e até R$ 570, dependendo da necessidade do comprador. A crença dos vendedores era que o preço romperia a linha de R$ 600 nos primeiros meses de 2012, mas isso não aconteceu. O preço do café foi caindo, perdeu rapidamente a linha de R$ 500 e, na sequência, o importante suporte de R$ 400, chegando a ser negociado nas portas da nova temporada a R$ 345. “Enfim, em questão de seis meses, perdeu mais de 30% do seu valor. E isso assustou os produtores”, diz o analista.

“Esse sentimento ao final da temporada marcou o produtor. Então, para muitos, fica a impressão de que não foi um ano bom. Mas, fazendo uma avaliação mais criteriosa, dos preços médios recebidos ao longo do ciclo comercial pelos produtores, não dá para negar que foi outro ano bastante lucrativo”, indica Barabach. O preço médio recebido pelo café arábica duro na região do Sul de Minas girou em torno de R$ 452,64 a saca entre julho de 2011 e junho de 2012, repetindo o desempenho do ciclo anterior. “Enfim, garantiu uma boa margem aos vendedores”, diz. Os cafés mais finos tiveram um resultado ainda melhor. O café fino do Cerrado mineiro teve média de R$ 462,24 a saca. “Escassez de qualidade e agressividade compradora externa garantiram esse descolamento positivo do fino”, descreve Barabach.

Já o conillon oscilou momentos de entusiasmo com acomodação, mas também teve um resultado “extremamente favorável”, aponta o analista. Destaque para o crescimento do interesse externo, por conta do atraso nos embarques de outras origens, como Vietnã e Indonésia. E o Brasil aproveitou para ocupar espaço.

2012/13 promete — A nova temporada parecia começar mal para o produtor, com o mercado acusando a safra recorde nacional e mundial com preços caindo de forma agressiva, antecipando um cenário de conforto no abastecimento. Chegou a se falar em preços caindo a US$ 1,30/ 1,40 a libra-peso em NY, diante da pressão da safra. “Mas, as coisas mudaram, com o atraso da safra e os problemas de qualidade da produção brasileira. Ainda é cedo para precisar a dimensão do estrago. Só que o mercado de café carece da qualidade brasileira e não ficou esperando a confirmação, reagiu a essa novidade, o que fez os preços subirem”, analisa Barabach.

Além disso, cresce a suspeita de que a safra colombiana vai ser novamente frustrante, ampliando o espaço para o café brasileiro. Com esses temores, em NY o café recuperou a linha de US$ 1,80, afastando o “fantasma baixista”, com o rompimento negativo de US$ 1,50. No Brasil, o arábica duro recuperou o nível de R$ 400 a saca. “E, como o produtor mantém a postura tranquila, dosando a oferta, especialmente dos cafés melhores, alimenta ainda mais os temores da demanda”, diz Barabach. O café ainda está sujeito a perdas, técnicas ou por questões macroeconômicas. O certo é que depois do “susto climático”, mudou novamente o equilíbrio do mercado, devolvendo um pouco mais “a bola” ao vendedor, como pontua o analista de Safras. Assim, é mais difícil os preços caírem. “Estoque baixo significa vulnerabilidade no abastecimento e maior sensibilidade a qualquer problema na oferta”, comenta.

Passada a entrada da safra, os olhares se voltam para 2013, quando um Brasil colherá uma safra menor dentro da bienalidade cafeeira. E se o cenário econômico mundial favorecer, o ambiente para a reação fica ainda mais forte e concreto. Tudo vai depender das primeiras impressões das floradas e as especulações em torno da safra 2013, mas há sim um ambiente fundamental para o mercado de café recuperar a linha de US$ 2 a libra em NY, prevê Barabach. Já o patamar de US$ 3, como alguns sonham, é bem mais difícil. “É bom lembrar que o café só atingiu esse nível de preços diante da euforia compradora, em uma típica bolha das commodities. Não havia fundamento para tanto, como não há agora”, pondera.

Se o cenário econômico mundial favorecer, o ambiente para a reação dos preços fica ainda mais forte e concreto