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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Arroz

 

Valorização merecida

O arroz em casca no Rio Grande do Sul estava em julho em seu maior preço em dois anos, ao redor de R$ 29 a saca, 38% a mais que os R$ 21 de um ano antes. Em terras altas, como no Mato Grosso, o aumento em um ano foi de mais de 50%. O cenário tem como explicações o La Niña, em que chove menos, e a sequência de preços baixos do cereal, que levou produtores a substituírem o arroz e optar por outros grãos

Rodrigo Ramos - rodrigo@safras.com.br

O primeiro semestre de 2012 foi marcado pela valorização do arroz em casca no âmbito nacional. No Rio Grande do Sul, o maior produtor brasileiro e o principal referencial de preços, a cotação teve uma valorização pouco corriqueira durante o período em que a colheita se aprofundava, provocada por fatores extramercado. Nas demais regiões produtoras de arroz irrigado do país – Santa Catarina, Paraná e Roraima – o preço teve aumento na maioria delas. Nas localidades produtoras de arroz de terras altas, principalmente do Mato Grosso, o valor pago pela saca de 60 quilos também teve incremento significativo. Já no mercado atacadista o grão beneficiado acompanhou o ganho do arroz em casca e fechou o semestre em elevação, chamando a atenção o estado de São Paulo, região que mais consome no Brasil.

No estado gaúcho, o ano de 2012 começou como o esperado, com os preços se valorizando no período de entressafra e se desvalorizando no momento em que a colheita se intensificou, no fim de fevereiro. Entretanto, após a divulgação feita pelo Ministério da Agricultura, no final de março, de que destinaria verba para auxílio à comercialização do grão durante o ano, o preço voltou a subir. “Provocou um efeito psicológico nos preços, em um momento que, normalmente, a cotação estaria em baixa pela intensificação da colheita”, explica o analista de Safras & Mercado Eduardo Aquiles.

A partir de então, o preço médio teve acréscimos consecutivos, com algumas correções ao longo do semestre. “Além disso, fatores como a desvalorização do real influenciaram o mercado, uma vez que fica mais atrativa a exportação e desfavorece a importação, reduzindo a oferta interna”, pondera. De janeiro ao início de julho, o dólar apontou alta de 8% sobre o real, o que justifica o aumento de 65% das exportações do país entre janeiro e junho de 2012, quando foram enviadas ao exterior 1,029 milhão de toneladas, em comparação com mesmo período do ano passado, quando foram comercializadas 623,476 mil toneladas. Mesmo com o dólar mais caro, as importações também tiveram acréscimo. Os baixos preços mundiais, devido à crise internacional, acabam forçando o Mercosul a voltar seus olhos para o mercado consumidor brasileiro. No total, de janeiro a junho de 2012 foram importadas 490,393 mil toneladas pelo Brasil, 49,4% superior ao volume total importado no mesmo período de 2011, quando foram adquiridas 328,200 mil toneladas.

No dia 9 de julho, a cotação do arroz gaúcho estava em média a R$ 29,02 por saca de 50 quilos, ficando 13% acima do preço médio do primeiro dia útil de 2012, que era de R$ 25,77. Agora, se comparado com o valor pago 30 dias antes, que era de R$ 28,52 por saca, há ligeira alta de 1,8%. Frente ao mesmo momento do ano passado, o acréscimo é de R$ 38,1%, pois na época estava a R$ 21,02.

Santa Catariana e Mato Grosso com tendência positiva — Em Santa Catarina, na região de Turvo, o preço médio era de R$ 27,75 por saca de 50 quilos em 9 de julho, apresentando alta de 9% sobre o valor pago no dia 2 de janeiro, de R$ 25,50. Ante o mês anterior, quando estava cotada a R$ 28, há ligeira queda de 0,9%. Se levar em consideração a média paga em igual momento do ano passado, que era de R$ 19,50, há elevação expressiva de 42,3%.

Terras altas — Nas praças produtoras de arroz de terras altas, a situação não é diferente, pois houve forte evolução dos preços durante o ano. Em Sorriso, Mato Grosso, a saca de 60 quilos teve alta considerável de 52% desde o início do ano, passando da média de R$ 27,00 para R$ 41,00 no dia 9 de julho. “Entretanto, os reflexos da redução na safra de 42,7% foram mais fortes em junho, pois o estado vinha de uma produção considerável em relação à sua população, mantendo os estoques com boa oferta durante um bom tempo”, lembra Eduardo Aquiles. Se comparar ao valor pago 30 dias antes, que era de R$ 33, há valorização de 24,2%. Frente ao mesmo dia de julho do ano anterior, quando estava a R$ 24,50, a alta é de 67,3%.

“Mesmo com os preços favoráveis, várias entidades e instituições ligadas ao setor solicitaram ao Governo medidas de longo prazo para dar sustentação ao setor”, frisa o analista. Entre elas estão o aumento da Tarifa Externa Comum (TEC), que onera a importação do grão originário do Mercosul, e a imposição de uma cota de importação da Argentina, como forma de retaliação ao embargo de exportações brasileiras para o país. “O Governo poderá ainda entrar no mercado para auxiliar na comercialização via Prêmio para Escoamento de Produto (PEP), leilões de Opção Pública, Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (Pepro) e Aquisições do Governo Federal (AGF), além de auxiliar no refinanciamento de dívidas através dos bancos comerciais, para dar fôlego maior aos produtores”, destaca.

Prorrogação das dívidas — O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Mendes Ribeiro Filho, anunciou o adiamento do vencimento das dívidas de custeio dos produtores de arroz de todo o país de 30 de julho para 31 de outubro de 2012. A divulgação da medida foi feita no dia 13 de julho, durante reunião na Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) para produtores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Mendes Ribeiro lembrou o compromisso assumido com parlamentares e lideranças de que trataria deste assunto logo após o anúncio do Plano Agrícola e Pecuário. “Além de estarmos cumprindo com o combinado, estamos nos antecipando aos problemas. Queremos tranquilidade para trabalharmos em medidas de longo prazo para o setor”, destacou.

O ministro falou ainda dos últimos anúncios feitos nos dias anteriores, como o Plano Safra 2012/2013, o pacote emergencial de medidas para os suinocultores, além do adiamento das dívidas. “Isso só mostra que estamos absolutamente atentos às necessidades e dificuldades do setor e agindo com rapidez.” O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Caio Rocha, detalhou a medida e acrescentou: “É preciso que o setor reconheça o esforço que o Governo vem fazendo. Essa pauta está no Mapa há mais de quatro anos e esperamos terminar 2012 com este assunto resolvido”. Mendes Ribeiro Filho assegurou aos presentes que o estudo equalizador das dívidas dos produtores estará no projeto de regionalização, que será lançado no final de agosto deste ano.

Mercado atacadista acompanha casca — No mercado atacadista, o cereal beneficiado em São Paulo também teve variação positiva de janeiro e julho. A saca de 60 quilos do arroz agulhinha tipo 1 evoluiu da média de R$ 69 para R$ 75 em 9 de julho, alta acumulada de 8,7%. No entanto, se comparado com o valor pago um mês antes, que era de R$ 76,50, há ligeira queda de 2%. Frente ao preço de julho de 2011, de R$ 52 por saca, há aumento considerável de 44,2%. No Paraná, o fardo de 30 quilos de arroz agulhinha tipo 1 valia R$ 45,48 no dia 16 de julho. Entretanto, dentro do período de um mês, a variação foi de 5,3% para mais, pois estava cotado na média de R$ 43,18. Frente a julho do ano anterior, então a R$ 36,80, o aumento foi de 23,6%.

Ainda no mercado paranaense, o fardo de 30 quilos do parboilizado era cotado a R$ 40,92 no dia 16 de julho, ficando com alta de 0,8% sobre o preço de um mês atrás, quando valia R$ 40,60, e elevação de 21,2% frente à igual momento de julho do ano passado – R$ 33,75 por fardo. Em Santa Catarina, o fardo de 30 quilos do parboilizado era cotado, em média, a R$ 42,40 no dia 16 de julho. No período de um mês, a queda foi de 4,4%, pois na época o fardo estava a R$ 44,33. Ante o mesmo dia em julho de 2011, há leve alta de 0,4%, pois estava a R$ 42,25 por fardo. Nas demais regiões beneficiadoras a tendência era praticamente a mesma, com exceção para o canjica 1/2 no Rio Grande do Sul, que ficou praticamente estável no decorrer de 2012, valorizando apenas 0,6%, passando da média de R$ 31,80 para R$ 32 no dia 9 de julho. Em relação ao preço de 30 dias antes, quando estava a R$ 29, houve leve alta de 10,3%. Frente ao mesmo dia em julho de 2011, o acréscimo é de 16,4%, pois estava cotado a R$ 27,50 naquela época.

Mesmo com os preços favoráveis, várias entidades e instituições ligadas ao setor solicitaram ao Governo medidas de longo prazo para dar sustentação ao setor e conquistaram apoios oficiais

Maior preço — No Rio Grande do Sul, o arroz em casca estava em julho em seu maior valor em dois anos. O cenário atual é motivado, principalmente, pela condição climática do La Niña, que gera escassez hídrica. “Além disso, os preços baixos praticados e o valor mais atrativo pago por outros grãos, como soja, culminaram na troca de culturas, reduzindo a área plantada e acarretando na elevação dos preços”, explica o analista de Safras. Para o decorrer do segundo semestre de 2012, quase todos os fatores levam a crer que a ascendência de preços prosseguirá, uma vez que a temporada de entressafras se prolonga e a oferta vai ficando escassa, ajudada pelo aumento das exportações, que estão a pleno vapor, favorecidas pela alta do dólar frente ao real.

Nos primeiros quatro meses do ano comercial 2012/13, entre março e junho, foram negociadas ao exterior 42,4% a mais que em mesmo período do ano comercial 2011/12, o que dá maior margem para o aumento de preços ao longo dos últimos cinco meses do ano, o que poderá influenciar na tomada de decisão do produtor na hora de plantar. “No entanto, é preciso lembrar que outras culturas que estão com maior valor de mercado poderão concorrer com algumas áreas, principalmente no Rio Grande do Sul”, frisa. Pelo lado do Mercosul, é possível que haja menor influência do bloco, logo as tratativas das entidades ligadas ao setor entrem em acordo com o governo para aumento da Tarifa Externa Comum (TEC), o que dificultaria a importação do produto e ajudaria a manter a cotação mais elevada.

Incremento de área — Se a maioria dos fatores sustenta os preços no longo prazo, isto dá pretexto para o aumento de área cultivada com arroz, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde há instalações para o bom desempenho das lavouras. A expectativa para a safra 2012/13 é que haja ligeiro aumento na área plantada. Levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado aponta incremento de 1,3%, passando de 2,451 milhões para 2,482 milhões de hectares. A produção subiria 0,6%, totalizando 11,625 milhões de toneladas. “O aumento no plantio se deve a alguns fatores que estão influenciando a tomada de decisão dos produtores, que em 2011/12 tiveram que recuar diante dos preços baixos e pelo déficit hídrico de algumas regiões do país”, explica o analista Aquiles.

No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, a área cultivada com arroz irrigado deverá ser praticamente a mesma, apresentando pequena elevação, motivada pelos bons preços pagos em 2012 e pela redução dos estoques. Já no Paraná, que cultiva Como a maioria dos fatores sustenta os preços no longo prazo, deverá haver aumento de área cultivada em 2012/ 2013, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina MF tanto o irrigado como o sequeiro, e nos estados produtores de arroz de terras altas, o bom momento das cotações de culturas como algodão, soja e milho tenderá a tomar áreas onde normalmente o arroz é cultivado. “Portanto, a projeção de ganho de área deverá ser pequena, não deixando de levar em consideração que o cenário pode mudar se o clima ajudar, pois este é o principal fator que, em certo momento, poderia impedir o aumento da área plantada”, acrescenta o analista.

Como a maioria dos fatores sustenta os preços no longo prazo, deverá haver aumento de área cultivada em 2012/ 2013, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina

Por outro lado, completa Aquiles, a desvalorização do real, as questões políticas de incentivo ao setor, como a prorrogação das dívidas para os arrozeiros e as doações do Governo Federal de arroz de safras passadas, poderão dar maior incentivo ao acréscimo de área plantada. “Sem falar ainda do que está em fase de concretização, que seria o uso de mecanismos para auxílio à comercialização como PEP, Pepro e leilão de Opções. E o aumento do PIS/Cofins para a importação de arroz do Mercosul, a ser aprovado, o que aumentaria a competitividade do mercado brasileiro frente os países membros do bloco”, explica o analista.