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Algodão

 

De volta à realidade

As cotações praticadas no mercado doméstico no primeiro semestre de 2012 foram 50,4% inferiores às praticadas em igual período do ano anterior. Mas, fora este ano atípico, os preços de 2012 são os melhores desde 2002

Laura Ruschel - laura.ruschel@safras.com.br

A lentidão ditou a tônica do mercado brasileiro de algodão durante grande parte do ano. A oferta disponível se restringiu a lotes da safra velha, cuja qualidade, via de regra, fica aquém da procurada pelas indústrias. Os primeiros lotes da safra nova, por sua vez, são destinados ao cumprimento de contratos fechados antecipadamente e, em grande parte, para exportações. Prova disso, é que os números de vendas externas de algodão no Brasil nos dois primeiros meses do ano comercial 2012/13 foram os maiores da história. Dentro deste cenário, os compradores com necessidade de aquisição imediata encontraram preços firmes. Este comportamento, juntamente com a forte alta protagonizada pela soja e pelo milho, pode ser o prenúncio de uma queda significativa da área na próxima safra de algodão.

As cotações praticadas no mercado doméstico no primeiro semestre de 2012 foram 50,4% inferiores às praticadas em igual período do ano anterior. Entre janeiro e junho de 2011, a pluma foi indicada a uma média de R$ 3,20/libra-peso; em 2012, no mesmo espaço de tempo, recuou para R$ 1,59/librapeso. Vale lembrar que, excetuandose os preços elevados de 2011, a média de 2012 é a maior desde 2002, quando a forte desvalorização cambial garantiu uma média de R$ 2,05/librapeso no primeiro semestre.

Segundo o analista de Safras & Mercado Élcio Bento, é necessário se fazer outra ressalva, uma vez que a atual retração dos preços praticados no Brasil é consequência da alta exagerada apresentada no ciclo anterior. “Isso porque, quando os preços se elevam de forma excepcional, atraem um maior plantio”, explica Bento. No Brasil, a área plantada na safra 2010/11 se elevou em 64,4%, de 831 mil hectares para 1,367 milhão de hectares. Assim, mesmo com a redução da produtividade em importantes regiões, o montante produzido se elevou em 50%, de 1,2 milhão para 1,8 milhão de toneladas.

Com a produção nacional superando o consumo em quase 1 milhão de toneladas, os preços praticados no Brasil passaram a ter como principal referência a paridade de exportação, onde as variáveis-chave são os preços internacionais e o comportamento cambial. Na Bolsa de Nova York (ICE Futures), a média de preços no primeiro semestre de 2012 foi de US$ 0,86/libra-peso, recuando 50,4% em relação aos US$ 1,74/librapeso do mesmo momento de 2011. O reflexo externo foi atenuado pela depreciação da moeda brasileira em relação à norte-americana, com a taxa cambial se elevando de R$ 1,63/dólar no primeiro semestre de 2011 para R$ 1,87/dólar entre janeiro e junho de 2012.

Área expande — No mercado internacional, a alta das cotações verificada no primeiro semestre de 2011 teve origem no quadro de oferta e demanda mundial (entre agosto e julho) enxuto das temporadas 2009/ 10 e 2010/11. A relação estoque/ consumo no mundo, historicamente acima de 50%, nas temporadas citadas se aproximaram de 40%. “Este foi o suporte fundamental para que em março de 2011 a média das cotações na Ice Futures alcançasse o patamar recorde de US$ 2/librapeso”, afirma o analista. Da mesma forma que ocorreu no Brasil, os produtores mundiais responderam aos preços remuneradores, elevaram a área plantada no planeta e a relação estoque/consumo para o ciclo 2011/ 12 é estimada em 57%.

Com os estoques globais recuperados, entre janeiro e abril de 2012, o algodão operou entre um suporte de US$ 0,90/libra-peso e uma resistência de US$ 1/libra-peso. Em maio, quando o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgou os primeiros números para a próxima safra mundial (2012/13), o suporte foi rompido, buscando outro a US$ 0,70/ libra-peso. De acordo com Bento, “o novo patamar já precifica uma safra de nova elevação na relação estoque/ consumo mundial, alcançando o patamar recorde de 69%. Com toda esta folga no abastecimento, as cotações internacionais do algodão destoam das altas expressivas apresentadas pelos grãos em CBOT”.

Fator China — Como o Brasil precisará exportar um volume expressivo da safra nova, é importante fazer uma análise mais próxima do abastecimento da fibra nos principais players do mercado internacional. Os números da China, maior produtor, consumidor e importador da fibra, chamam a atenção. No ciclo 2011/12, os chineses importarão 4,7 milhões de toneladas, aumento de 80% sobre os 2,6 milhões do ano comercial anterior. Com isso, os estoques na China se elevarão de 2,5 milhões para 5,35 milhões de toneladas (+112%). Esta forte presença chinesa na ponta compradora do mercado impediu uma maior retração das cotações internacionais. Para próxima temporada, o USDA projeta uma redução do apetite comprador chinês, com importações de 3 milhões de toneladas. Mesmo importando um volume 1,7 milhão de toneladas menor, os estoques de passagem da China se elevariam para 6,1 milhões de toneladas. A China foi responsável pela aquisição de 324,7 mil das 939,7 mil toneladas exportadas pelo Brasil no ciclo comercial 2011/12.

Se o polo comprador do mercado internacional deve reduzir as aquisições, o vendedor (Estados Unidos), por sua vez, terá uma oferta maior e deve ser agressivo nas vendas internacionais. A oferta total da fibra norte-americana será de 4,4 milhões de toneladas no ciclo 2012/ 13, contra 3,9 milhões de toneladas do ciclo anterior. Para as exportações, o USDA projeta uma elevação de 2,5 milhões para 2,6 milhões de toneladas. Com esta elevação modesta das vendas externas, os estoques de passagem se elevariam de 700 mil para 1,1 milhão de toneladas. “Este prognóstico de um incremento de 44% dos estoques norte-americanos, contribui de forma expressiva para o rompimento do suporte de US$ 0,90/ libra-peso em Nova York”, explica Bento.

Os números da Índia também chamam a atenção. Os segundos maiores produtores e exportadores da fibra devem reduzir a produção em 327 mil toneladas, para 5,443 milhões de toneladas. Como os estoques de passagem serão 414 mil toneladas menores e é previsto um aumento de 22 mil toneladas em importações, a oferta total de algodão indiano será de 7,554 milhões de toneladas, com queda de 718 mil toneladas em relação ao ano anterior. Assim, para atender o consumo doméstico de 4,57 milhões de toneladas, as exportações recuarão de 1,154 milhão de toneladas para 914 mil toneladas. Este é o menor nível desde 2008/09. Com esta retração das vendas indianas, ainda de acordo com o USDA, o Brasil assumiria a segunda posição entre os maiores exportadores da fibra no ciclo 2012/ 13, com 958,2 mil toneladas, contra 936,4 mil toneladas da Austrália e as 914 mil da Índia.

O grande desafio para os cotonicultores brasileiros na atual temporada é seguir exportando um volume próximo ao consumido internamente, num quadro de preços internacionais mais baixos. Segundo números de Safras & Mercado, o país iniciou o ano comercial 2012//13 com 275 mil toneladas em estoques. A produção estimada é de 1,93 milhão de toneladas. As importações projetadas são de 30 mil toneladas, resultando numa oferta total de 2,235 milhões de toneladas. O consumo doméstico, com a indústria ainda se recuperando do golpe sofrido no final da temporada 2010/11, deve ser de 950 mil toneladas. O excedente da oferta em relação ao consumo será de 1,285 milhão de toneladas. Assim, se forem exportadas 900 mil toneladas, os estoques de passagem serão de 385 mil toneladas.

O grande excedente nacional de algodão coloca a paridade de exportação como a referência para os preços no Brasil. No início da segunda semana de julho, o algodão brasileiro era indicado nominalmente a R$ 1,60/ libra-peso FOB estivado em Paranaguá. Com o câmbio a R$ 2,0280/dólar (do dia 9 de julho), corresponderia a US$ 0,79/libra-peso. Na mesma data a fibra norte-americana era indicada a US$ 0,71/libra-peso na Ice Futures (dez/12). Para chegar ao patamar do estrangeiro, o produto nacional teria que recuar 11,2%, de R$ 1,49 para R$ 1,32/librapeso no interior do Mato Grosso.

A pressão baixista pela paridade de exportação só não é maior em função da depreciação cambial. Um ano atrás, em julho de 2011, o dólar comercial era trocado a R$ 1,5670. Considerando os preços atuais, convertidos pela taxa cambial praticada um ano antes, o algodão negociado a R$ 1,49/libra peso no interior do Mato Grosso chegaria a Paranaguá a US$ 1,02/libra-peso (com o câmbio a R$ 2,0280, o preço é de US$ 0,79/libra-peso). Neste caso, para chegar à paridade, teria que recuar 33% no interior matogrossense, para R$ 1/libra-peso.

Em suma, a queda apresentada pelos preços do algodão no primeiro semestre de 2011, no Brasil e no mundo, foi uma resposta ao forte incremento da produção e, como a demanda não respondeu na mesma intensidade, os estoques globais se elevaram de forma acentuada. De acordo com o analista de Safras & Mercado, “o Brasil comercializou uma safra recorde (2010/11), ainda contando com a forte presença chinesa no mercado internacional, e a safra 2011/12, mesmo com redução da produtividade, deve bater outro recorde, pressupondo volumes expressivos de exportação para evitar sobreoferta interna”. O principal aliado dos produtores para a formação de preços na atual temporada é o fator cambial. Mas, ao que tudo indica, não será suficiente para impedir que as cotações nacionais se aproximem do mínimo estipulado pelo Governo, a R$ 1,35/ libra-peso nas regiões produtoras.

O mercado brasileiro de algodão chegou ao final da primeira quinzena de julho de 2012 com preços nos mesmos patamares dos praticados em igual período do ano anterior. No CIF de São Paulo, a libra-peso foi indicada a R$ 1,55. Em relação ao mês de junho, a fibra acumulava alta de 6,9%. A atual firmeza apresentada pelas cotações no mercado doméstico é vista como pontual pelos agentes. Tendo registrado cerca de 40% da safra 2011/12 antecipadamente, os produtores estão destinando os primeiros lotes colhidos ao cumprimento dos contratos. “O resultado disso é a escassez de oferta de produto no mercado disponível, o que obriga as indústrias com necessidade de aquisição imediata a pagar os níveis indicados, mesmo com estes acima da realidade de preços internacionais. Corrigido este descompasso entre a oferta e a demanda doméstica, a tendência é que os preços praticados no segundo semestre de 2012 sejam inferiores aos do mesmo período do ano passado”, afirma Bento. Esta percepção tem justificativa no âmbito interno e, em maior intensidade, no internacional.

No âmbito doméstico, as perdas apresentadas nas lavouras em função de intempéries climáticas apenas amenizam o quadro de sobreoferta projetado inicialmente. Na Bahia, segundo maior produtor, a produtividade das lavouras foi afetada pela falta de chuvas durante todo o ciclo da cultura, em especial na fase de florescimento. No Mato Grosso e em Goiás, primeiro e terceiro maiores produtores brasileiros, as lavouras da primeira safra foram castigadas pelo excesso de chuva entre maio e junho. Porém, espera-se que o algodão safrinha compense as perdas. De acordo com estimativas de Safras & Mercado, realizada em 13 de julho de 2012, os cotonicultores brasileiros colherão 1,86 milhão de toneladas (em pluma) na safra 2011/12 (ano comercial 2012/13), com queda de 1,6% em relação a 1,89 milhão colhido na safra anterior.

Apesar da leve retração no volume produzido, a oferta total da fibra no país no ciclo comercial 2012/13 (entre maio de 2012 e abril de 2013) será superior a do anterior. Na temporada 2011/12, o país iniciou com 155 mil toneladas, que adicionadas à produção, resultaram numa oferta doméstica de 2,045 milhões de toneladas. Na atual, os estoques de passagem foram de 205 mil toneladas, que adicionados à produção, resultaram numa oferta total de 2,065 milhões de toneladas. Para fechar o suprimento doméstico de algodão é preciso adicionar os volumes importados. No ano comercial 2011/12, as indústrias nacionais adquiriram 69,895 mil toneladas no exterior. No ciclo atual, com a depreciação da moeda nacional, Safras & Mercado projeta aquisições externas em torno de 20 mil toneladas.

Câmbio ajuda duplamente — Se confirmadas, as indústrias algodoeiras nacionais terão 2,16 milhões de toneladas disponíveis, para atender um consumo estimado em 950 mil toneladas. Com um excedente de 1,21 milhão de toneladas, os níveis de preços a serem praticados no mercado doméstico, da mesma maneira que ocorreu no ano comercial anterior, terão como balizadores a paridade de exportação. Isso porque, se os preços no mercado doméstico ficarem acima da realidade externa, haverá uma concentração das ofertas para a indústria nacional. “Este movimento vai até o ponto em que os preços praticados pelos compradores estrangeiros se tornarem mais atrativos que os negociados no âmbito interno. Dado o excedente de oferta interna em relação ao consumo, as cotações tendem a convergir à paridade de exportação”, segundo Bento.

Sendo assim, aumenta o peso dos preços internacionais e do comportamento cambial sobre o mercado doméstico. Para o analista de Safras & Mercado, “os preços praticados no início deste segundo semestre de 2012 respondem a um descompasso pontual entre a oferta e a demanda interna, o qual será corrigido quando a safra 2011/12 chegar ao mercado disponível”. Ainda, para os próximos meses o comportamento do dólar e dos preços internacionais serão fatores chave. “O câmbio acima de R$ 2/dólar é um fator positivo para a cadeia cotonicultura como um todo. De um lado, alivia o reflexo baixista para os preços recebidos pela pluma. Do outro encarece a entrada de substitutos estrangeiros, melhorando a competitividade das indústrias nacionais”, explica Bento.

O grande desafio para os cotonicultores brasileiros é seguir exportando um volume próximo ao consumido internamente em um quadro de preços internacionais mais baixos

No mercado internacional, o mundo colheu um volume recorde na temporada 2011/12, com 26,717 milhões de toneladas (pluma). Este volume permitiu uma recomposição dos estoques, que subiram de 10,8 milhões para 14,5 milhões de toneladas. Conforme abordado anteriormente, grande parte destes estoques teve com destino a China. Na temporada 2012/13, entre agosto de 2012 e julho de 2013, a produção mundial será 1,938 milhão de toneladas menor que a anterior. Porém, esta queda será mais que compensada pelo incremento de 3,737 milhões de toneladas nos estoques de passagem. Assim, a oferta mundial da fibra será a maior da história, com 47,438 milhões de toneladas. Este volume atende a demanda global de 31,677 milhões de toneladas (23,536 milhões de toneladas de consumo interno dos países produtores e 8,141 milhões de toneladas de exportação) e geram os maiores estoques de passagem da história (15,761 milhões de toneladas). A relação estoque/ consumo de 67% também é a maior da história. Estes indicadores fundamentais fazem com que o algodão ande na contramão das demais commodities agrícolas, apresentando queda nas cotações.