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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Soja

Histórica

Um conjunto de fatores tem levado a soja propiciar a maior rentabilidade do mercado. E, incentivados por patamares recordes nas cotações no mercado externo e interno, os sojicultores brasileiros deverão aumentar a área plantada em 8,4% na temporada 2012/13. O potencial de produção chega a 82,3 milhões de toneladas, 24% acima da safra anterior

Dylan Della Pasqua - dylan@safras.com.br

Os produtores brasileiros de soja estão motivados. A quebra na safra sulamericana e o consequente aperto na oferta mundial da oleaginosa impulsionaram as cotações. Na Bolsa de Chicago, os contratos bateram recordes históricos. Nas principais praças de negociação do Brasil, a saca atingiu níveis nunca antes Fabio Scremin/APPA obtidos, rompendo a casa de R$ 80. Aos problemas consolidados na América do Sul, se somaram as incertezas em relação à produção americana, também prejudicada por condições climáticas desfavoráveis. Diante deste cenário de preços, os produtores comercializaram quase que toda a soja disponível e avançam também nas negociações da safra de 2012/2013, que deve ser plantada apenas em outubro de 2012. E as expectativas em relação à próxima safra não poderiam ser mais otimistas. A princípio, o plantio deverá crescer mais de 8% e, se o clima ajudar, o país deverá colher safra recorde, superior a 80 milhões de toneladas. O 23º levantamento anual de intenção de plantio para a soja brasileira realizado por Safras & Mercado voltou a apontar forte incremento na área a ser semeada na safra 2012/13, passando de 25,1 milhões para 27,2 milhões de hectares, com impressionantes 8,4% de elevação. Número resultante do intervalo médio de área entre 26,50 milhões e 27,94 milhões de hectares. “A exemplo do ano passado, os fatores de estímulo são amplamente dominantes e irão prevalecer na decisão dos produtores: positiva lucratividade bruta, aumento na disponibilidade de crédito oficial e suficiente no privado; preços médios recebidos bem maiores e cotações recordes no período de decisão dos produtores; cenários de preços ainda positivos em 2013; elevados volumes de vendas na safra nova; demanda aumentando; redução esperada nas áreas de milho, algodão e alguma coisa de arroz e feijão”, explica o analista de Safras Flávio França Júnior.

Levantamento de Safras & Mercado aponta forte incremento na área da oleaginosa a ser plantada na safra 2012/2013 em comparação à anterior, passando de 25,1 milhões de hectares para 27,2 milhões

Considerando a sinalização um pouco mais favorável pelo lado do clima, com boas chances de El Niño, e o aumento no nível tecnológico das lavouras, mas também limitação pela utilização de áreas novas e com menos potencial produtivo, há sinalização de produtividade em 3.024 kg/ha, bem acima da safra atual, mas abaixo do recorde de 3.077 quilos de 2011. Nessa hipótese preliminar, a produção potencial chegaria a 82,3 milhões de toneladas, 24% acima dos 66,33 milhões da safra 2011/2012 e novo recorde histórico. “Levando em conta essa projeção de forte aumento na oferta e de menos do que proporcional elevação nas previsões de demanda, temos indicação inicial de bom aumento e alívio na posição de estoques do próximo ano. Na soja, depois da safra atual virar o ano com estoques de apenas 337 milhões de toneladas, com começo do ano em 2,256 milhões de toneladas, a indicação é para aumento a 2,602 milhões de toneladas na safra nova”, acrescenta.

Intensidade do aumento é a questão — O país experimentará o sexto avanço consecutivo no plantio da cultura, consolidando novo recorde histórico. Na temporada 2012/13, segundo o analista, não há a menor hipótese de reversão nessa tendência, ficando em aberto apenas a capacidade de viabilização do plantio por parte dos produtores, na questão da área a ser utilizada e na disponibilidade de sementes e outros insumos. “A possibilidade de termos a influência do fenômeno El Niño sobre o clima da região produtora traz uma aura melhor para a temporada, pois está normalmente relacionado a chuvas acima do normal no Centro-Sul do Brasil, no Paraguai, na Argentina e no Uruguai”, alerta.

Diferentemente da temporada anterior, desta vez o crescimento da área de soja tende a ser homogêneo em todo o país, com variações ficando por conta da intensidade. Começando pela Região Sul, há aumento médio indicado de 6,4% na área a semear, ocupando basicamente terrenos de milho, feijão e de pecuária. No Centro-Oeste o avanço está estimado em 7,8%, com a soja devendo avançar sobre algodão, milho, feijão e arroz, além de pastagens, áreas em pousio e de cerrado já abertas e ainda não cultivadas. Nas regiões Norte e Nordeste o avanço está avaliado em 10,2% e 13,3%, respectivamente, também entrando sobre as demais culturas de verão, pastagens e áreas de cerrado já abertas. E, por último, a Sudeste, com 17,1%, o maior avanço proporcional desta safra, com aumentos acontecendo na mesma linha das demais regiões, notadamente sobre o milho e pastagens.

Fatores de estímulo — Seguindo o contexto observado nas últimas cinco safras, o sentimento firmemente otimista dos produtores em direção à soja é resultado do saldo amplamente positivo entre os diversos fatores que afetam a decisão do setor:

1) Lucratividades brutas médias parciais positivas: apesar das graves perdas na produtividade média e do aumento nos custos de produção, a comercialização vai acontecendo com resultados médios parciais positivos para os produtores brasileiros na sua relação receita x custo, pelo quinto ano consecutivo. O resultado parcial em algumas das principais praças negociadoras de soja do país está variando de 18% a 54%;

2) Aumento geral na disponibilidade de crédito: no lado público houve o aumento na oferta geral de recursos de custeio pelo Governo Federal em 8% anunciado pelo Plano Safra 2012/13, que, juntamente com os recursos de comercialização, passaram de R$ 80,24 bilhões para R$ 86,95 bilhões. Já no lado privado o aumento na disponibilidade de recursos trazido pelos preços mais altos foi amortecido nos estados onde a perda de safra foi mais grave, como, especialmente, no Paraná e no Rio Grande do Sul;

3) Forte incremento nos preços médios obtidos: as médias parciais dos preços domésticos até julho estavam apontando ganhos sobre 2011 entre 23% e 26%, também tomando como base algumas das principais praças de negociação do país. Na média brasileira, o valor de R$ 54,25, 24% superior aos R$ 43,70 de 2011. Alta sustentada pela combinação de avanço em 5% nos preços da Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT), de 12% na taxa de câmbio e forte aumento nos prêmios de exportação;

4) Cenário de preços firmes na CBOT em 2013: se considerada a tendência da manutenção de forte aperto nos estoques dos EUA e da possibilidade de alguma melhora no ambiente financeiro, as projeções de preços para a CBOT em 2013 seguem também em patamares elevados e muito superiores à média, possivelmente acima dos últimos anos. Embora em patamares inferiores aos atuais, em função da expectativa de forte incremento na área e na safra sul-americana. Tanto que numa semana de julho, por exemplo, o spread entre os contratos de maio/13 sobre agosto/ 12 fechou próximo a US$ 300 cents/bushel;

5) Forte fluxo de negócios da safra nova: esse quadro de preços fortes indicados para 2013 tem motivado um fluxo de negócios antecipados nunca visto anteriormente, com mais de um terço da safra brasileira já comprometida pelos produtores;

6) Positiva sinalização da demanda: apesar das turbulências na economia mundial, segue a tendência de PIB maior em 2012 e 2013 (embora crescendo em menor ritmo), o que tende a manter a demanda nas commodities agrícolas em crescimento;

7) Incremento no nível tecnológico das lavouras: a safra 2012/13 será semeada com avanço geral na utilização de tecnologia, com aumento nos investimentos em sementes certificadas, calcário, fertilizantes, defensivos e maquinários;

8) Redução em outras culturas alternativas: quadro de preços desfavoráveis ou menos atrativos do que a soja para outros produtos alternativos na safra de verão, como o milho, o algodão, o feijão primeira safra e, em alguns estados, o arroz;

9) Resultados financeiros favoráveis aos produtores: os números parciais de rentabilidade da soja até junho de 2012 estavam em 44,6% na média nacional, muito acima dos demais ativos financeiros que seriam opções de investimento aos produtores;

Fatores limitantes — Embora em 2012 com um peso muito menor, também foi possível identificar algumas variáveis que limitariam essa nova expansão da área de soja no país:

1) Aumento nos custos de produção: as primeiras planilhas que vão sendo montadas para o custeio da nova safra apontavam aumento nos custos de produção entre 2% e 12%, especialmente em cima da evolução dos preços dos fertilizantes;

2) Avanço da cana-de-açúcar: entre as culturas alternativas, o bom desempenho dos preços deve manter a expansão da cana em alguns dos estados centrais;

3) Insegurança cambial: ou seja, a manutenção da instabilidade quanto ao comportamento da taxa de câmbio. Pela postura adotada no Governo, a expectativa é para níveis ainda elevados em 2013. Mas com chances grandes de ficarem abaixo das taxas atuais. Especialmente no caso de melhor encaminhamento da economia mundial;

4) Menores prêmios de exportação: sofrendo a influência da expectativa de forte incremento projetado na área e na produção sulamericana, os prêmios de exportação praticados para a safra nova vão mostrando importante redução sobre as bases de 2012;

5) Oferta limitada de sementes: apesar do setor não ter divulgado números completos, o aumento da área plantada e as perdas de produção em importantes estados produtores deve limitar a oferta de sementes certificadas na temporada;

A previsão climática favorável e o alto investimento em tecnologia feito pelo produtor deverão levar o país a colher algo como 82 milhões de toneladas, 24% a mais que na safra anterior, afetada pela estiagem

Estoques mais tranquilos — Levando em conta essa sinalização inicial de produção para 2013, a montagem de um quadro de oferta & demanda para o complexo soja brasileiro indica estoques de passagem bem mais tranquilos do que na temporada atual. Safras projeta estoques finais subindo de 337 mil para 2,602 milhões de toneladas, resultantes da combinação de 24% a mais de produção, 10% a mais de processamento, passando de 36 milhões de toneladas para 39,500 milhões, e 28% a mais nas exportações, subindo de 29,3 milhões para 37,5 milhões. No farelo, estoques subindo de 341 mil para 491 mil toneladas, respondendo à combinação de 10% a mais na produção, avançando de 27,7 milhões para 30,420 milhões de toneladas, com consumo interno crescendo 4%, de 14,1 milhões para 14,7 milhões de toneladas, e exportações subindo 9%, de 14,3 milhões para 15,6 milhões de toneladas. E, no óleo, estoques passando de 127 mil para 237 mil toneladas, refletindo a combinação de 10% a mais na produção, subindo de 6,840 milhões para 7,505 milhões de toneladas, com consumo interno maior em 4%, passando de 5,6 milhões para 5,8 milhões de toneladas, e exportações 23% maiores, passando de 1,3 milhão para 1,6 milhão de toneladas.

“No geral, na mesma linha e até com mais ênfase do que vimos nessa mesma época do ano passado, o sentimento predominante é amplamente positivo em relação à soja, destacando os resultados parciais em boa parte até melhores que os observados no ano que passou”, comemora o analista. Esse sentimento mais otimista para o setor está ligado à combinação de forte melhora nos preços médios praticados, com a obtenção de lucratividades brutas positivas – apesar das perdas de produtividades em alguns estados e do aumento geral dos custos de produção – e do acúmulo de variações também positivas nos preços, resultando em impressionantes resultados em termos de rentabilidade.

A análise dos preços — A análise da remuneração dos produtores pelo comportamento dos preços é, sem dúvida, o mais visível dos indicadores. “E neste aspecto o predomínio do sentimento vem sendo absolutamente positivo até o presente, considerando que as bases praticadas no mercado interno ficaram sempre muito acima das médias históricas e do ano anterior, tanto nas cotações em dólares como em reais. E diferentemente de 2011, como veremos na análise da rentabilidade, os patamares foram ganhando força no decorrer dos últimos meses. Por esse motivo, acreditamos que essa é uma variável totalmente estimulante ao avanço da cultura no país para essa nova temporada”, aponta França Júnior. A diferença grande sobre o ano que passou é que, além dos preços da soja estarem melhores e fortemente remuneradores aos produtores, eles ganharam força no comparativo com algumas das principais culturas alternativas para a safra de verão, especialmente nos casos do algodão e do milho.

Considerando valores parciais no mês de julho de 2012, há um acumulado do ano das cotações em dólares com médias superiores às médias de todo 2011 de 9% a 12%, tomando como base algumas das principais praças negociadoras do país. Apenas no próprio mês de julho, foram registradas elevações de 18% a 32% sobre julho de 2011 e de 42% a 51% na média de cinco anos. E nos valores em reais esses ganhos são ainda mais altos, oscilando nesta análise de 23% a 26% sobre as médias totais de 2011. Destacando o fato de que no início de julho, os preços estavam de 53% a 70% melhores do que julho anterior. E, para entender como as cotações no mercado brasileiro chegaram a esse ponto de valorização, basta observar a rara combinação de positividade nos três indicadores básicos da formação dos preços no país. Começando pelo mercado internacional, referenciado pelo mercado de futuros da Bolsa de Mercadorias de Chicago, que apontava ganhos sobre 2011. Até o início de julho, o mercado spot da CBOT tinha valor médio avançando 5% sobre a já elevada média total do ano anterior.

Somente em julho, o comparativo sobre 2011 mostrava avanço de 18%, e de 39% sobre a média de cinco anos. A motivação de toda essa valorização está mesmo no avanço do aperto na disponibilidade norteamericana e mundial com as severas perdas já contabilizadas na América do Sul e as pessimistas projeções para a safra nova dos Estados Unidos diante do quadro de estiagem predominante na região de produção entre junho e julho. O segundo indicador nessa análise dos preços vinha pelo lado do prêmio de exportação, que, além de ter se mantido positivo durante praticamente toda a temporada, vinha superando com muita folga, e durante todo o ano, as médias de 2011.

Tomando o Porto de Paranaguá como referência, havia uma média parcial em 2012 de US$ 108 cents/ bushel, muito superior aos US$ 71 cents da média total de 2011. Motivação ligada à firme demanda externa, ao aperto na disponibilidade em função das perdas de produção, aos fretes marítimos comportados e a valores altos dos prêmios norteamericanos. E, por último, mas de forma também contundente, havia a influência positiva trazida pela elevação na taxa de câmbio, influenciada pelo agravamento da crise financeira internacional e pelas mudanças na política econômica do país implementadas pelo Governo Federal. “No acumulado do ano estamos falando em ganho de 12% sobre a taxa média do ano anterior. Sendo que este avanço salta para 29% no comparativo do mês de julho atual com o de 2011”, descreve o analista.

Análise da lucratividade — No contexto da decisão dos produtores a segunda variável fundamental a ser analisada é a da lucratividade bruta, que compara a receita ao custo de produção. E também aqui, apesar de alguns importantes reveses, o sentimento é favorável para a soja, mantendo lucratividades positivas pelo quinto ano consecutivo. E praticamente sem chances de inverter essa condição até o final da temporada. E esse desempenho está substancialmente relacionado aos melhores preços praticados, uma vez que a temporada foi marcada pelo aumento nos custos de produção, e por perdas predominantes na produtividade média, decorrentes da irregularidade climática.

No lado dos custos, a safra foi semeada com aumento de 7% no Paraná e em Goiás, 9% no Rio Grande do Sul, 18% no Mato Grosso do Sul e 23% no Mato Grosso. E no lado da produtividade, especialmente com os impactos trazidos pelo La Niña, os rendimentos médios caíram 46% no Rio Grande do Sul, 27% no Paraná, 4% no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, apenas com Goiás registrando avanço de 5%. Dessa combinação chega-se à lucratividade bruta parcial positiva de 54% em Goiás, 37% no Mato Grosso do Sul, 36% no Paraná, 33% no Mato Grosso e de 18% no Rio Grande do Sul. Todos utilizando como base o custo operacional de produção, resultado da subtração da renda dos fatores sobre o custo total, como a remuneração do capital próprio e a remuneração da terra.

A média da cotação da soja no Brasil acumulou ganho real, já descontada a inflação, de 44,60% entre janeiro e junho de 2012, sendo que em Rondonópolis/MT este índice chegou a 48,85%

Análise da rentabilidade — A terceira variável nessa análise da renda dos produtores brasileiros é a rentabilidade, que, a exemplo das outras duas, também vem apresentando desempenho parcial amplamente positivo. Essa análise considera a soja como ativo financeiro, ou seja, opção de investimento, comparando suas variações mensais com a inflação e com outros importantes ativos financeiros existentes no país. “Os resultados desse primeiro semestre do ano foram muito positivos, batendo recordes dentro da série analisada, e superando com folgas os demais ativos analisados”, destaca o analista. A média da soja no Brasil acumulou ganho real (já descontada a inflação) de 44,60% entre janeiro e junho, sendo de 43,44% em Cascavel/PR, 39,49% em Passo Fundo/PR e 48,85% em Rondonópolis/MT. “Na sequência, tivemos o ganho de 6,87% na aplicação em ouro no mercado de futuros da BM&F, de 5,63% no dólar comercial, de 4,54% no dólar no mercado paralelo, de 2,79% no CDB pré-fixado e de 1,49% na caderneta de poupança. E o pior desempenho, a exemplo de 2010 e 2011, foi o investimento em ações, cujo índice Bovespa acumula perda real de 5,93% até o momento”, completa.