A Granja do Ano – 34 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Destaques 2011 Trigo

Triticultores enfrentam até a natureza

Estiagem no início da safra e geadas na sequência, além do mercado adverso, atrapalham a vida dos associados da C. Vale

Nome da empresa: C. Vale Cooperativa Agroindustrial
Sede: Palotina/PR
Número de associados: 12.500
Associados triticultores: 1.100
Faturamento em 2010: R$ 2,4 bilhões
Previsão de faturamento em 2011: R$ 2,6 bilhões

A Granja do Ano — Quais são as expectativas do triticultor associado à C.Vale em relação à safra 2011? Tanto em relação à produção, à produtividade e também à rentabilidade. O clima está ajudando ou dificultando?

Alfredo Lang — Este ano as lavouras enfrentaram problemas desde o início. Primeiro foi a estiagem em maio, na fase de desenvolvimento inicial da cultura, que fez com que as plantações saíssem mal já na arrancada. Faltou umidade e o trigo nasceu desuniforme. Depois, no final de junho, vieram duas geadas fortes, justamente quando a maioria das lavouras estava na fase de formação das espigas. As temperaturas caíram abaixo de zero e afetaram bastante as plantações. Com isso, a quebra vai ser bastante grande. E no caso das lavouras mais atrasadas que escaparam das geadas, ainda vai ser preciso aguardar a evolução do clima, já que o trigo é uma planta muito sensível às chuvas. Se houver excesso de chuvas durante a colheita, pode agravar as perdas. Então, o resumo da história é que 2011 não será um bom ano para o trigo na região da C.Vale no Paraná.

Por que o Brasil que obteve tamanha relevância na produção de soja, algodão, milho e assim por diante não consegue nem ao menos conseguir a autossuficiência em trigo? Objetivamente, o que deveria ser feito para que esta realidade fosse modificada?

A soja e o milho são cultivados de Norte a Sul, ou seja, em uma área muito grande. Então, se você tem um problema climático no Sul, o Norte compensa, e vice-versa. No Centro- Oeste, por exemplo, o clima é bem mais estável e as áreas são gigantescas. Assim, o Brasil consegue ter um volume de produção muito grande, e se coloca como um dos principais fornecedores mundiais de soja e milho. Já o trigo é uma cultura que ainda está muito restrita ao Sul. Quando o clima não ajuda, a produção despenca. A questão principal, no caso do trigo, é que o Governo precisa ser mais enérgico na defesa da triticultura. Os argentinos têm clima e solo melhor para produzir que o Brasil. Como eles têm custo menor, conseguem colocar trigo aqui por valores inferiores aos do trigo nacional. Então deveríamos fazer como os outros países: medidas para proteger o setor produtivo. A Europa taxa o frango que exportamos, os Estados Unidos cobram tarifas sobre o nosso etanol e a própria Argentina está limitando as importações de vários produtos do Brasil. O Governo deveria permitir a entrada de trigo argentino somente depois que toda a produção nacional estivesse comercializada. Assim, o preço não cairia tanto e o produtor teria mais estímulo para plantar.

Quais são os planos, as metas da C.Vale para os próximos 12 meses e quais foram as principais conquistas dos últimos 12?

O nosso foco é a agroindustrialização. Nos últimos 16 anos, investimos pesadamente neste segmento porque entendemos que é a melhor forma de manter o produtor no campo e de a cooperativa se fortalecer. Ficar apenas comprando e vendendo grãos não é um negócio muito promissor porque as margens de lucro são muito apertadas. Quando você industrializa, agrega valor, amplia o seu mercado e fatura mais. Para o produtor, esse processo é fundamental porque ele passa a ter acesso a novas fontes de renda. No nosso caso, temos muitos associados produzindo frangos, leite, suínos e mandioca. São produtores que estão conseguindo elevar sua renda e mantê-la mais estável, já que dependem menos do cultivo de grãos, atividade que é mais sujeita aos problemas climáticos. Esse deveria ser um dos principais focos da política agrícola: fortalecer a agroindustrialização. A gente transformaria matéria-prima em produtos industrializados e poderia vender produtos de maior valor agregado, principalmente ao exterior. O Brasil não pode ficar eternamente exportando matérias-primas, tem que industrializar. E precisa reduzir essa valorização exagerada do real frente ao dólar para tornar nossos produtos mais competitivos lá fora.

Alfredo Lang é presidente da C. Vale