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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Suínos

Cenário complicado

O aumento do preço do milho elevou os custos da suinocultura, enquanto no mercado interno, apesar da boa demanda, há aumento da oferta de carne bovina e baixos preços da carne de frango

Luiz Silva

A suinocultura brasileira vive, no início do segundo semestre de 2011, um momento de indefinição, apesar da recuperação em julho. O aumento dos preços das commodities agrícolas elevou os custos de produção da atividade e minou a lucratividade dos produtores. No mercado interno, apesar da boa demanda, o aumento da oferta de carne bovina e os baixos preços da carne de frango inibiram a procura por produtos suínos e derrubaram os preços pagos ao produtor. A receita com as vendas externas de carne suína somou US$ 735,267 milhões no primeiro semestre de 2011, aumento de 11,18% com relação aos US$ 661,301 milhões do mesmo período de 2010.

O resultado, segundo a Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne (Abipecs), foi impulsionado pelo aumento de 12,35% nos preços médios, que passaram de US$ 2.452 por tonelada no primeiro semestre de 2010 para US$ 2.755 por tonelada de janeiro a junho de 2011. Em volume, entretanto, houve queda de 1,05%, para 266,853 mil toneladas, ante 269,697 mil toneladas embarcadas no primeiro semestre de 2010. “O cenário externo deixou o mercado interno inseguro. A recuperação só veio agora”, diz o diretor da associação, Jurandi Machado, para quem o milho – principal insumo utilizado na criação – subiu muito em um ano. A saca era vendida por R$ 17 em junho de 2010 e, um ano depois, já custava R$ 29, segundo Machado.

Entretanto, o analista de mercado da Safras & Mercado, Felipe Netto, dá um alento ao setor. Para ele, o momento atual é de recuperação de preços devido a um aumento na demanda por carne suína e também a ofertas menos abundantes do que nos últimos meses. Explica que os números de exportação em julho foram favoráveis, contribuindo para aliviar a pressão de ofertas que fez os preços caírem muito nos dois meses anteriores. “O primeiro semestre de 2011 foi muito semelhante ao do ano anterior, com boa demanda por carne suína interna e também externamente. Atualmente, há uma forte expectativa com relação a novos mercados que podem ser incorporados aos países importadores de carne suína brasileira, com potenciais mercados, como EUA, China e Japão”, explica o analista.

As expectativas até o final do primeiro semestre de 2012 giram em torno de uma manutenção da tendência de alta da demanda interna, de acordo com Felipe Netto. A seu ver, o consumo per capita de suínos vem aumentando, assim como um gradativo crescimento nas exportações visando a novos mercados. O diretor da Abipecs também admite que, nos últimos seis meses do ano, haverá mais solidez, especialmente no mercado interno. O inverno mais rigoroso e as festas de final do ano deverão animar o setor. “Mas não haverá crescimento substancial”, completa. O ano de 2012 sofrerá, como consequência, a falta de investimentos em 2011.

Na avaliação do chefe geral da Embrapa Suínos e Aves, Dirceu Talamini, houve redução no ritmo expansão da suinocultura devido à maturação de projetos de investimento e aos impactos das crises de 2009 e no início de 2011, sobretudo entre os produtores independentes. Segundo ele, a estimativa de oferta de animais para abate cresceu na mesma proporção (0,8%), indicando que a produtividade teve pequeno crescimento. Por outro lado, ocorreu elevação no peso médio das carcaças, provocando uma estimativa de crescimento na oferta de carne suína do rebanho industrial em 2,5%, atingindo 2,945 milhões de toneladas.

O maior crescimento dos abates totais, de acordo com Talamini, está ocorrendo na Região Centro-Oeste, enquanto que os volumes anuais das exportações devem continuar oscilando na faixa de 500 mil a 600 mil toneladas. A taxa média de câmbio tem contribuído para a perda de competitividade da carne suína brasileira. “Felizmente, a queda no valor do dólar foi compensada parcialmente pelo aumento do preço internacional da carne suína”, considera.

A produção de suínos é feita em sistemas integrados e coordenados de produção, no qual os preços de mercado atuam de forma indireta na remuneração dos produtores. Os produtores independentes, em especial em períodos de retração do mercado, são os que mais sofrem nas crises. “Estes produtores precisam se organizar e criar estruturas de abate e processamento dos animais visando a reduzir as crises que afetam a rentabilidade das suas atividades”, aponta o especialista da Embrapa.

Para ele, no futuro, o mercado interno deve manter os níveis de consumo nos próximos anos, mas de forma menos intensa devido à preocupação com a inflação, ao controle dos gastos públicos e do endividamento do consumidor. Em relação ao consumo, a campanha institucional da carne suína, aumento da oferta dos produtos nos pontos de venda, inovações em produtos e logística de frio e mudanças de hábitos podem sustentar o incremento do consumo da carne suína. “Permanece ainda alta a disponibilidade interna de carne de frango e bovina que afetam o mercado da carne suína”, pondera.

Talamini prevê um aumento moderado das exportações, que continuarão dependendo da recuperação econômica das principais economias mundiais. “A manutenção do crescimento econômico nos países emergentes e no Oriente Médio, mesmo que com os ajustes necessários nas contas públicas, ajudarão a manter o crescimento da demanda nessas regiões”, avalia.

Para os países ricos, os sinais ainda são conflituosos. Por um lado, as economias mais estáveis, como Alemanha e Japão, dão sinais claros de recuperação. Por outro, ainda existem as incertezas quanto a Espanha, Itália, Portugal e Irlanda. Ainda assim, as previsões do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos indicam um crescimento da demanda nos países do Oriente Médio, na China (incluindo Hong Kong), União Europeia e no Japão. A Índia ainda não é um grande consumidor de carnes. “Entretanto, o seu rápido crescimento no consumo de frangos nos últimos cinco anos, em decorrência da melhoria na renda, tornará este país um importante player no mercado internacional de frangos. A cadeia produtiva nacional pode começar a acender uma luz verde no futuro se conquistá-lo”, pondera.

Dependência russa — Felipe Netto tem um raciocínio parecido. Na sua avaliação, atualmente dois pontos principais delimitam o mercado externo. Primeiro, a excessiva dependência das exportações para a Rússia e Hong Kong, o que não é saudável, já que os russos buscam a autossuficiência no setor. Por outro lado, a carne suína brasileira, principalmente nos últimos meses, vem conquistando espaço em outros mercados, com a abertura de potenciais clientes como China, EUA e Japão. “Ainda resta o acesso aos mercados da União Europeia, que também representam um grande potencial para o setor suinícola brasileiro”, ressalta o analista da Safras & Mercado.

O presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos Lousivanio Luiz de Lorenzi diz que os produtores locais já passaram por altos e baixos, provocados por todo tipo de mudanças nas economias nacional e internacional. Mas, em 2011, vivem uma situação diferente. Depois de terem fechado 2010 com margem de lucro interessante, por conta do bom preço, entraram o novo ano empatando com o custo de produção. “A culpa é do milho, que é valorizado no mercado externo e nos atinge em cheio. Estamos perdendo R$ 47 por animal no semestre”, destaca. No ano passado, a situação era inversa. Os criadores catarinenses chegaram a ter um lucro de R$ 70 por animal a partir de setembro.