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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Tabaco

Foco na qualidade

Líder em exportação, o tabaco brasileiro sofre com a concorrência africana e teme a Convenção Quadro. A saída é diminuir a área e mirar na melhoria do produto para não perder em competitividade

Joelma Terto

Com produção voltada quase exclusivamente para o mercado externo, o tabaco brasileiro vem, ano a ano, enfrentando um cenário cada vez mais complicado. O real valorizado e a concorrência africana são os principais fatores que têm contribuído para elevar o custo e a reduzir a competitividade no mercado internacional. Mesmo se mantendo na liderança como maior exportador mundial, o Brasil começa a se preocupar com as perspectivas para o futuro.

O tabaco brasileiro é reconhecido no cenário internacional pela alta qualidade e pela integridade, ou seja, por ser livre de resíduos e impurezas. Porém, o setor sofre nesta safra com os baixos preços, decorrentes de uma produção volumosa, mas com pouca qualidade. “Entre agosto e outubro de 2010 tivemos um excelente clima, seguido de 20 dias de estiagem em novembro. Em decorrência disso, a alta produtividade gerou uma oferta acima da demanda e com qualidade inferior”, conta Benício Albano Werner, presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra). “Houve uma rigidez muito grande na classificação. Em parte, a gente reconhece que a qualidade não foi tão boa quanto à safra passada, mas a diferença no preço foi maior e o produtor ficou apreensivo”, diz Werner. Segundo estimativa da Afubra, as lavouras de fumo devem finalizar a safra 2010/2011 com produção de mais de 840 mil toneladas nas três principais variedades (virgínia, burley e galpão comum), plantadas em uma área total de 373 mil hectares. Esse volume é 21% maior que a safra anterior, de quase 692 mil toneladas, em uma área levemente maior. Porém, a rentabilidade foi menor: R$ 4,96 o quilo, contra os R$ 6,35 do ano anterior. “Foi uma safra que não teve lucratividade. Nós não fomos piores porque a mão de obra é familiar. Se tivesse que ter contratado, teríamos tido prejuízo”, conta Werner.

Na variedade virgínia, a que ocupa maior área, o custo da produção foi de R$ 12.108 por hectare, desses, 51% seriam só de mão de obra. Mas é justamente pela mão de obra muito barata e pela qualidade semelhante ao nosso tabaco que os países africanos são hoje os maiores concorrentes do Brasil. Nos últimos dois anos, a área e o volume produzidos naqueles países têm aumentado significativamente.

Segundo estimativa da Afubra, a safra 2010/11 terá a produção de 840 mil toneladas das variedades virgínia, burley e galpão comum – volume 21% maior que a safra anterior

Convenção Quadro preocupa — Outro aspecto preocupante é a forma como o Governo brasileiro está conduzindo a regulamentação de recomendação da Convenção Quadro para o Controle de Tabaco (CQCT), tratado internacional que busca estabelecer políticas de controle. Neste sentido, em 2011 a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) realizou duas consultas públicas (112 e 117) que visam a colocar em prática medidas restritivas, que incluem proibição do uso de aditivos e aromatizantes no fumo e limitar a propaganda de cigarros nos pontos de venda. “Neste segundo semestre esperamos pelo desdobramento da análise feita pela Anvisa com relação às consultas públicas. Se implantadas, as propostas devem gerar gravíssimos impactos sociais e econômicos em toda a cadeia produtiva. Trata-se de uma ameaça real à liderança brasileira no mercado mundial de tabaco como maior exportador”, afirma Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco).

Conforme estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas, os impactos seriam mesmo profundos. Entre os quais, a redução do trabalho na cadeia produtiva na ordem de 140 mil pessoas, queda das exportações de US$ 300 milhões/ano e encolhimento do mercado formal, que afetaria 2 mil fornecedores da indústria, 500 dos quais fechariam as portas. Os prejuízos na arrecadação federal e estadual podem chegar a R$ 5,2 bilhões/ano em IPI, PIS/Cofins e ICMS.

Atualmente, o produto garante renda a 185 mil pequenos produtores, com envolvimento de 870 mil pessoas no meio rural e 30 mil empregos diretos nas indústrias. Estima-se que 2,5 milhões de pessoas estejam envolvidas em toda a cadeia produtiva. Os cofres públicos também saem ganhando com a arrecadação, que chega a R$ 8,5 bilhões ao ano. Mais de 95% de todo o tabaco produzido no país fica na Região Sul. O Brasil embarcou 503 mil toneladas de tabaco em 2010, para mais de 100 países, gerando divisas de US$ 2,73 bilhões.

Safra 2011/12 — O SindiTabaco encomenda pesquisas à PriceWaterhouseCoopers sobre as diversas dimensões do setor. A pesquisa que apontará a tendência de área para a próxima safra (2011/2012) será realizada no segundo semestre de 2011, mas tudo indica que deverá haver uma redução da área a ser plantada, para ajustar-se ao mercado. Segundo o presidente da Afubra, a solução para o futuro é mesmo a redução de área de no mínimo 20% e focar na produção do fumo de alta qualidade. “Isso, sim, dará retorno financeiro e com mercado garantido”, diz Werner.

“O setor também tem adotado uma série de práticas para tornar a produção sustentável. Os programas desenvolvidos nas áreas de responsabilidade social e ambiental certamente ajudarão o Brasil a se manter como segundo maior produtor mundial de tabaco”, lembra o presidente o SindiTabaco. Segundo ele, há, ainda, a expectativa da aprovação pelo Ministério da Agricultura para a Certificação da Produção Integrada do Tabaco (Pitab) na Região Sul, o que se tornará uma importante ferramenta de competitividade.