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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortaliças

Longo caminho até amadurecer

O consumo de hortaliças no Brasil é apenas um terço do recomendado pela OMS. Portanto, há um imenso potencial de crescimento para o setor

Joelma Terto

O cenário da produção de hortaliças no Brasil deveria ser altamente favorável, uma vez que o país apresenta uma economia crescente e estável, além de aumento da população e maior poder de compra – o que acarreta mudança do padrão do consumidor. Tudo isso poderia levar a uma maior produção e, consequentemente, maior consumo de hortaliças. Mas não foi o que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou em seu recente censo (2010), que apontou, inclusive, diminuição do consumo nos últimos anos. Na média geral, a redução foi de 1,93 quilo por pessoa entre os anos de 2002 e 2008, quando foram realizadas as edições mais recentes da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do instituto.

“Como o consumo de hortaliças no Brasil é baixo (um terço do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS)), temos um potencial de crescimento muito grande para os próximos anos. Aliado a isso, temos observado campanhas públicas e privadas para o aumento do consumo que demonstram as vantagens desses produtos, como seu alto teor de fibras, vitaminas, sais minerais e antioxidantes, por exemplo”, explica Warley Marcos Nascimento, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Hortaliças.

Cadeia desequilibrada: um quilo da hortaliça vale R$ 1 ao produtor, R$ 2 ao atacadista e chega a R$ 4 ao consumidor

Segundo a Embrapa Hortaliças, a área plantada de hortaliças no país é estimada em 800 mil hectares, o valor da produção é de R$ 17 bilhões e o volume, de 24 milhões de toneladas. Estudo da Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (Abcsem) estima que as hortaliças geram hoje 2,4 milhões de empregos diretos. Entre as características do setor, estão a produção de micro e pequeno porte (até dez hectares) mais concentrada próximo aos grandes centros, principalmente nas Regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste. Segundo a pesquisa da Abcsem, as espécies de maior volume são tomate, cebola, repolho, alface, cenoura, abobrinhas, pepino e abobrinha japonesa, que, juntos com melancia e milho doce, representam 80,5% do produzido.

Desperdício — A exportação ainda é baixa e a perda pós-colheita, alta – média de 25% a 30%. Praticamente toda a produção é destinada ao mercado interno, com pouco valor agregado. “Tem-se observado, em média, um valor de R$ 1 pago ao produtor, R$ 2 no atacado, e R$ 4 no varejo (consumidor), com o mesmo produto. Ou seja: o produtor vende o quilo de tomate a R$ 0,50, o atacadista o revende por R$ 1 e o supermercado repassa por R$ 2 ao consumidor final”, descreve Warley Nascimento. Segundo ele, o Brasil ainda importa bastantes sementes, principalmente híbridos, e alguns adubos. Ele lembra também que a importação do alho da China (caracterizado como dumping), praticamente reduziu pela metade a área de alho nesta última década.

Além das próprias características do setor, há ainda outros entraves: infraestrutura deficiente (transporte, armazenamento, centrais de comercialização), mão de obra qualificada, cara e também deficiente, além de desorganização do setor. Há falta de gestão nas propriedades e baixo investimento no setor publico e privado no desenvolvimento nacional de novas cultivares. Outros entraves dizem respeito à dificuldade em se adequar a exigências legais, que envolvem questões tributárias e fiscais e de adequação de higiene e segurança alimentar, que requerem alto custo de investimento.

Para Renato Abdo, presidente da Câmara Setorial de Hortaliças da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, o maior desafio para os próximos anos é aumentar a produção sem aumentar a área plantada. “Para que isso ocorra, o produtor tem que investir em tecnologia e é necessário que a cadeia produtiva entenda que os custos gerados são para agregar valor ao produto”. Segundo ele, a tendência é a utilização da cultura em ambiente protegido, o que permite aumento da produtividade e minimização das intempéries, porém, isso requer alto custo de investimento.

Conforme Abdo, a produção vem se tecnificando para suprir necessidades mercadológicas, como a exigência do consumidor por produtos independente da estação. “O produtor está preparado, mas falta incentivo e políticas públicas para o desenvolvimento técnico e profissionalização do segmento”, garante Abdo. A Embrapa Hortaliças também acredita no aumento da produtividade nos próximos anos. “Grandes empresas já vêm fomentando a produção, com a utilização de tecnologias mais avançadas, como sementes híbridas, irrigação, melhor controle de pragas e doenças, diminuição de perdas póscolheita, que ainda é alta, e cultivo protegido, entre outros”, diz Nascimento, lembrando ainda da necessidade de campanhas constantes para o aumento do consumo de hortaliças, principalmente pelo público infantil.