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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Laranja

Relação azeda

O Brasil segue com metade do mercado mundial de suco de laranja, mas os produtores reclamam dos baixos preços pagos pela indústria

Gilson R. da Rosa

O cultivo de laranja está presente em todos os estados brasileiros. Mas é do Cinturão Citrícola de São Paulo e do Triângulo Mineiro que saem mais de 80% das laranjas produzidas no país. Juntos, São Paulo e Minas Gerais respondem por quase toda a matéria-prima destinada à indústria de suco, mercado do qual o Brasil detém 50% da produção mundial. Um volume expressivo que, segundo estimativa da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), será de 387 milhões de caixas de laranja de 40,80 quilos na safra 2011/12.

O levantamento da indústria, no entanto, difere dos números oficiais apresentados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima a safra em 354,98 milhões de caixas. A diferença, de acordo com o presidente executivo da CitrusBR, Christian Lohbauer, está na metodologia, já que a indústria incorpora a região do Triângulo Mineiro e exclui a produção das áreas fora do Cinturão Citrícola de São Paulo. “O cálculo foi elaborado individualmente por cada uma das empresas associadas e os resultados foram consolidados por uma empresa de auditoria independente”, informa.

Apesar dessa diferença de cálculo, o anúncio da safra chega em um momento em que os estoques mundiais de suco de laranja brasileiro encontramse no nível mais baixo. De acordo com levantamento da indústria, os estoques globais de suco de laranja congelado e concentrado do Brasil estavam em 424,7 mil toneladas em 31 de março de 2011, contra 574,6 mil toneladas na mesma data em 2010. “Em 2011, a performance da indústria de suco de laranja vai ser melhor do que nos anos anteriores”, aposta Lohbauer.

Apesar dessa diferença de cálculo, o anúncio da safra chega em um momento em que os estoques mundiais de suco de laranja brasileiro encontramse no nível mais baixo. De acordo com levantamento da indústria, os estoques globais de suco de laranja congelado e concentrado do Brasil estavam em 424,7 mil toneladas em 31 de março de 2011, contra 574,6 mil toneladas na mesma data em 2010. “Em 2011, a performance da indústria de suco de laranja vai ser melhor do que nos anos anteriores”, aposta Lohbauer.

Mercado estagnado — O volume exportado, porém, tem sido praticamente o mesmo há mais de uma década, conforme explica Lohbauer. “A dificuldade em aumentar a participação no mercado externo é que as exportações são de laranja a granel, o que implica uma logística específica. Nem todos os portos do mundo têm terminais para receber suco. Só os EUA, a União Europeia, o Japão e a Austrália”, justifica. Outro fator determinante para este quadro é que mercado mundial de suco de laranja não está crescendo. “Pelo contrário, registra uma queda de 1,6% ao ano devido à concorrência de outras bebidas, como águas, isotônicos, energéticos e outros sucos, como maçã e abacaxi”, complementa o executivo.

Para o presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio Viegas, a safra recorde, combinada com os baixos estoques internacionais, abre boas perspectivas para o setor produtivo, mas questiona a metodologia da indústria quanto às estimativas de safra, que segundo ele, são alteradas para mais com a finalidade de reduzir os preços. “Na safra anterior, tivemos graves problemas climáticos, excesso de chuva no período da florada, depois seca durante a safra. Isso realmente provocou uma grande perda. Agora nós tivemos uma recuperação bastante significativa da produtividade. Lamentavelmente, os preços não estão bons”, avalia.

Viegas salienta que em 2010 os contratos foram fechados na faixa de R$ 15 a caixa (de 40,8 quilos) e em 2011 os preços estão em torno de R$10 contra um custo de produção de R$17. Segundo a Federação dos Agricultores do Estado de São Paulo, os produtores que têm contrato representam 80% dos fornecedores e, para eles, o preço acertado antecipadamente varia entre R$ 8 e R$ 15 a caixa.

A indústria argumenta que a definição do preço pago ao produtor pela caixa é a oferta de laranja

Relação difícil — A questão remete a um histórico de conflitos que permeia a relação entre produtores e indústria. “A indústria vem praticando uma política de concentração e de preços baixos, inferiores aos custos de produção. Na década de 1990 havia 20 empresas, hoje são quatro, sendo que duas estão em processo de fusão. Devido à concentração da indústria, 20 mil citricultores ficaram de fora da atividade, a maioria se transferiu para a cana-de-açúcar. Com isso, 350 mil hectares em São Paulo foram erradicados, repostos pelo plantio da indústria. Atualmente, 120 propriedades detêm 47% do parque cítrico paulista. A maioria pertence à indústria, que acaba ficando com a renda que deveria ir para as mãos do produtor”, observa Viegas.

Para o setor industrial, a discussão é técnica e não ideológica. “A indústria investiu em tecnologia e em pomares próprios para produzir laranja a um custo mais baixo. A indústria ganha produzindo laranja barata. Esta é a realidade do mercado. Quem produz menos de 700 caixas por hectare não ganha dinheiro porque os custos de produção estão cada vez maiores. O que define o desempenho das grandes empresas do setor é a oferta de laranja.

O preço é baixo devido à oferta abundante. Se a indústria pagar R$ 17 pela caixa todos os anos ela quebra”, argumenta Lohbauer.

Segundo ele, a exemplo de outros setores do agronegócio, a indústria não é a ponta da cadeia produtiva. “O nosso cliente é o engarrafador europeu e norte-americano, e se existe um vilão, este é o varejo ou o supermercado, segmento que no exterior é ainda mais concentrado. Cito um exemplo: em uma matéria publicada no FoodNews, principal publicação setorial para os clientes na Europa, os engarrafadores questionam os números estimados pela indústria brasileira, colocando uma perspectiva de 20 milhões de caixas de laranja a mais. Enquanto no mercado interno, os questionamentos dão conta de 20 milhões de caixas a menos”, menciona.

Financiamento — Uma novidade nesta safra é que o Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu as condições para o financiamento da estocagem do suco de laranja no novo ciclo agrícola. O programa faz parte do Plano Agrícola e Pecuário 2011/2012 e destina R$ 300 milhões à Linha Especial de Crédito (LEC) para a citricultura. Os recursos devem ser utilizados para estocagem do suco. Cada indústria ou cooperativa poderá contratar até R$ 80 milhões para comprar a fruta processada e armazenada na safra 2011/2012. A laranja deverá ser adquirida a um preço mínimo de R$ 10 à caixa.