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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frutas

Potencial a ser explorado

O setor frutícola brasileiro ainda tem muito a se desenvolver. O consumo interno tem aumentado, mas as exportações penam devido ao câmbio. A cadeia precisa se organizar

Silvia Palhares

"Desde o ano de 1990 observa-se crescimento significativo da produção mundial de frutas: em média, 2,5% ao ano. No Brasil, entre 1991 e 2009 o incremento foi de 19%. Também se percebeu aumento no consumo per capita do brasileiro, que passou de 113 quilos de frutas/ano para 125”. A declaração do presidente da Sociedade Brasileira de Fruticultura (SBF), Abel Rebouças São José, deixa claro: há ainda muito potencial de crescimento para a fruticultura nacional para os próximos anos. Em 2009, o último levantamento oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram produzidas mais de 43 milhões de toneladas de frutas, 4,8% superior ao período anterior. O volume também reflete na balança comercial, que fechou 2010 com saldo de positivo de US$ 312,6 milhões, sendo exportado em frutas frescas US$ 1,44 bilhão, mesmo com o câmbio desfavorável.

Apesar do volume de exportação recorde, o momento para as vendas internacionais não tem sido dos melhores na avaliação de Jean Paul Raoul Marie Gayet, segundo vicepresidente do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf) e representante da ACF Assessoria e Consultoria em Fruticultura. Para ele, o cenário animador no mercado interno em nada se compara ao do mercado externo, que está cada dia pior em função do pouco que se tem feito para efetivamente segurar o câmbio. “A importação é maior porque está de graça. Neste ponto, o cenário é o pior possível e não há a menor possibilidade de se ganhar dinheiro”, ressalta o consultor.

Mas em algumas áreas tudo anda melhor, como na indústria de transformação. Gayet explica que esse segmento da atividade frutícola nacional está indo bem e sempre com movimentos crescentes. Ele lembra que o Brasil se destacou na América do Sul como maior ator econômico na transformação de frutas já nos anos de 1960, quando começou a se falar na possibilidade de aumentar os rendimentos da fruticultura, em melhorar as variedades, dentre outras questões importantes para o desenvolvimento do setor. Muitos países, como o Chile, ressalta o dirigente, optaram pela fruta fresca, enquanto os produtores brasileiros fizeram o contrário, se polarizaram sobre a fruta transformada e, com isso, “nos tornamos os primeiros no suco de laranja, por exemplo”.

Outro ponto enfatizado por Gayet na área de processamento é que o país possui um parque industrial muito grande, além de estar incorporando o sistema de congelamento de frutas inteiras – frutas pequenas como amoras, framboesa, mirtilo, como mais uma opção de mercado. Ele ressalta que, ao considerar a atividade frutícola dentro do ponto de vista do produtor, existem três opções de mercado: interno in natura e industrial e a exportação.

Custos — Se por um lado os produtores brasileiros têm alternativas de mercado, o mesmo não se pode dizer dos custos de produção para se manter a qualidade e a produtividade. De acordo com São José, o aumento tem sido constante nos últimos 15 anos. A remuneração da mão de obra, por exemplo, saiu de cerca de US$ 60 mensais em meados da década de 1990 para mais de US$ 300 nos dias atuais. Os fertilizantes alcançaram preços muito elevados, por vezes ultrapassando US$ 700/tonelada, como é o caso da ureia e do potássio.

Em contrapartida, enfatiza o dirigente da SBF, “muitas frutas não tiveram compensação nos preços recebidos pelos produtores, o que reduziu em muito a rentabilidade”, lamenta. “Entre 2001 e 2009, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) das frutas teve o menor acréscimo (apenas 16%) entre os itens do grupo alimentação e bebidas, cujo aumento foi de 110%. Os consumidores foram beneficiados, no entanto, os produtores tiveram que adotar tecnologia de produção cada vez maior para manter o rendimento econômico da atividade”, menciona.

São José destaca, contudo, que no sentido mais amplo, o cenário para fruticultura é positivo para as próximas safras, pois se observa o crescimento do consumo no Brasil e no mundo. Sem contar que a população em diversos países está melhor informada a respeito dos benefícios das frutas, o que leva a uma expectativa de aumento do seu consumo. Com isso, as perspectivas são promissoras. “Mas não se pode perder de vista a necessidade de se ajustar às exigências do mercado comprador, levando em consideração as legislações vigentes, a competitividade etc.”, adverte.

Entraves & soluções — A falta de organização da cadeia de produção é um problema observado na grande maioria dos setores do agronegócio. Não é diferente na fruticultura, de acordo com os especialistas Abel Rebouças São José e Jean Paul Gayet. Aliás, esse é o principal entrave para o desenvolvimento da atividade, na opinião de Gayet, que afirma que produtor organizado tem boas possibilidades de aproveitar bem o mercado interno, além de ter melhores chances de resolver os problemas que surgem no decorrer das safras.

Além desses problemas, São José, relaciona outros: aumento no preço dos insumos; preços pagos aos produtores pouco remuneradores – tanto que às vezes nem compensa a produção; falta de uma política mais agressiva de estímulo ao consumo das frutas; a prática por alguns países importadores de barreiras fitossanitárias; dificuldade de acesso a crédito; entre outros fatores. Para ele, algumas coisas podem ser feitas para minimizar os impactos negativos desses entraves na cadeia produtiva, tais como políticas de estímulo ao consumo interno; maior divulgação nos mercados externos da qualidade da fruta brasileira; estímulo ao associativismo, principalmente entre os pequenos produtores; ampliação da capacitação técnica e apoio creditício aos pequenos produtores; adoção de mecanismos de acompanhamento em relação às barreiras fitossanitárias, muitas vezes usadas para barrar a importação das frutas brasileiras.