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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

Encurralado por custos e câmbio

Apesar do aumento dos preços ao produtor, os custos de produção em consequência das altas cotações de milho e soja aumentaram 40% sobre 2010, enquanto o real forte atrapalha as exportações

Silvia Palhares

É unânime a opinião de especialistas do setor lácteo de que esse é um mercado interessante, mesmo com tamanha volatilidade que se vê ano após ano. O preço pago ao produtor nos seis primeiros meses de 2011 está entre 8% e um pouco mais de 10% acima da média do primeiro semestre de 2010. Saiu de R$ 0,70 para algo em torno de R$ 0,78 por litro, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Isso se deve, principalmente, ao aumento na demanda por produtos lácteos no mercado doméstico, somado a um cenário de maior concorrência pela matéria-prima entre os processadores.

É o caso de Goiás. Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), comenta que as indústrias daquele estado, por exemplo, estão com defasagem de cerca de 50% tanto no uso da planta industrial quanto no volume de matéria-prima. “Estive lá há pouco tempo e está faltando leite, segundo fui informado”, descreveu o dirigente em julho de 2011. “Grande parte das fábricas está com seu parque industrial relativamente inaproveitável porque não há leite!”.

Em 2010, o Brasil produziu 30,9 bilhões de litros do produto, 6,5% a mais que no ano anterior. Para 2011, a previsão de aumento é de apenas 2%, o que significa 31,6 bilhões de litros, ressalta Rafael Ribeiro de Lima Filho, zootecnista, consultor e pesquisador do Mercado de Leite da Scot Consultoria. O volume parece ser alto, mas considerando uma população de 190,7 milhões habitantes, conforme o último resultado oficial do Censo 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE), e o consumo per capita médio de 165 litros/ano, é possível constatar uma produção ajustada, com volume baixo para o mercado de exportação – pouco mais de 4,2 bilhões de litros.

A questão é : por que o incremento será tão pequeno nesta temporada? Segundo os especialistas, os custos de produção estão sendo 40% superiores aos de 2010 – e o item que mais pesa é a alimentação. Lima Filho explica que os estoques mundiais apertados e a boa demanda fizeram com que os preços do milho e do farelo de soja subissem. E esses são os produtos base das rações oferecidas ao gado. “No Brasil, o milho está custando o dobro de 2010, e agora as especulações giram em torno das possíveis perdas da safrinha, em colheita no país”, esclarece o consultor.

Outro ponto a ser analisado nesse sentido, na opinião de Jorge Rubez, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), é que praticamente 11% dos produtores é que são responsáveis por 82% da produção nacional. E como a “corda sempre arrebenta do lado do mais fraco”, é ele quem paga por essa conta. Rubez explica o seguinte: “o varejo, para garantir seu lucro, pressiona a indústria por preços menores. Esta, por sua vez, paga menos ao produtor e por aí vai”, resume. “Funciona assim: quando tem leite, eles pagam lá em baixo, quando falta, sobe o preço; só que o produtor já foi maltratado há dois ou três meses e não adianta tratar a vaca hoje que ela não vai recuperar aquilo que perdeu, já que há um período de adaptação. Há redução de produção: se ela produz 20 quilos/dia, tem a ração cortada, passa a produzir 15 quilos/dia. Para voltar para os 20 kg/dia, somente na próxima lactação”, descreve.

Em 2010 o Brasil produziu 30,9 bilhões de litros de leite, 6,5% a mais que no ano anterior. Para 2011, a previsão de aumento é de 2%: 31,6 bilhões de litros

O problema desse cenário é que, além do volume de produção de leite mais baixo do que a capacidade, o produto se torna caro quando considerada a possibilidade de exportação. Sem contar que a taxa cambial em nada colabora. “Quando calculamos o preço e chegamos à conclusão de que ele é o mais caro do mundo é porque essa conta é feita em dólar. A média paga ao produtor brasileiro em junho de 2011 foi de R$ 0,86. Dividindo isso por um dólar, à cotação de R$ 1,56, se chegará mesmo a um valor alto em dólar, explica o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite. “Segundo consta, a moeda está sobrevalorizada em 42% aqui no Brasil, e além de colocar o preço da matéria-prima em um patamar muito alto, ainda causa outro efeito danoso: não dá competitividade para exportarmos”, prossegue Alvin. “Como não formamos nosso preço no mercado internacional, o que é feito pela Nova Zelândia, maior exportadora do produto, quando pensamos em vender a tonelada de leite em pó por US$ 3,8 mil e multiplicamos pelo dólar a R$ 1,56, percebemos que a indústria não dá conta de vender para fora do país”.

Desequilíbrio na balança — Que o mercado nacional está crescendo é algo que não se pode discutir. Entretanto, isso não se tem mostrado tão favorável para o Brasil – haja vista a balança comercial do setor. Comparando 2006 a 2010, o volume de exportação caiu 39,4%. Já as importações cresceram 61,3%. O país saiu de um saldo de 252 mil toneladas de equivalentes litros de leite para outro Em 2010 o Brasil produziu 30,9 bilhões de litros de leite, 6,5% a mais que no ano anterior. Para 2011, a previsão de aumento é de 2%: 31,6 bilhões de litros 64 A GRANJA DO ANO LEITE negativo em 290 mil toneladas. Apenas nos seis primeiros meses de 2011, o saldo negativo já é quase o dobro do de 2010 inteiro: 401 mil toneladas de equivalentes litros de leite.

Para Alvim, o grande entrave neste momento refere-se às políticas macroeconômicas do Governo: o custo Brasil, impostos, custos portuários (para exportar) e, claro, a falta de competitividade do produto nacional. Ele ressalta que com o câmbio barato, se tem uma via de mão dupla: “fica ruim de exportar e bom importar”. E o principal exemplo citado pelo dirigente é o produto vindo de países do Mercosul, sobretudo da Argentina e do Uruguai. “Estamos tratando de refazer e prorrogar o acordo com os argentinos, que estão reclamando o fato de não termos a mesma negociação com o Uruguai – o que é verdade. Isso também terá de ser feito, senão não conseguiremos resolver essa concorrência predatória do leite barato que vem do Mercosul. Para a Argentina, por exemplo, é interessante a exportação, pois, diferentemente do Brasil, o câmbio é quatro vezes maior (US$ 1 por 4 pesos).”

Mas a importação é realmente necessária? De acordo com Rafael Ribeiro de Lima Filho, da Scot Consultoria, não. Trata-se puramente de uma questão de mercado, uma vez que os maiores volumes comprados pelo Brasil são verificados na entressafra, quando o leite e os derivados estão mais caros no mercado doméstico. Ele revela que os importadores são, em sua maioria, empresas de alimentos que utilizam o lácteo na composição de seus produtos. Portanto, se existe a possibilidade de adquirir a mesma matéria-prima a um custo menor em países vizinhos, não perderão a oportunidade.

A alimentação é o item mais importante dos custos de produção, e a conjuntura mundial fez com que os preços do milho e do farelo de soja, componentes da ração, subissem

Discussões internas — Enquanto não encontra maneiras de equilibrar a balança comercial do leite, outra questão tem tomado bastante atenção do mercado. Prevista para ter sua última fase em vigor no início de julho de 2011, a Instrução Normativa 51 foi adiada sem data prevista para conclusão. Alvim faz parte do grupo técnico que analisará, até o final de 2011, os gargalos da legislação e apresentará uma nova agenda para a IN. Para ele, o maior entrave da lei é que o projeto de aprendizagem apresentado na proposta não seguiu em frente, enquanto todo o resto foi colocado em prática. Além disso, a rede de laboratórios ainda não está terminada. Rubez completa esclarecendo que deve ser feito, ainda, um levantamento do que é leite A e leite B, de como estão as propriedades com relação à sanidade, de como qualificar a mão de obra, além de dar incentivo para que haja o credenciamento de profissionais especializados (ordenhador, inseminador, tratorista etc.).

Perspectivas — “O binômio custo/preço está ruim porque o primeiro está alto e não porque o segundo está baixo. Mas nossa perspectiva é que esse ano (2011), diferente dos últimos dois ou três, os preços pagos ao produtor fiquem mais estáveis”. A declaração de Alvim não difere dos outros especialistas. E, por isso, um alerta deve ser feito. De acordo com Lima Filho, da Scot Consultoria, como o mercado de grãos deve seguir firme no segundo semestre de 2011 e altas de preços não estão descartadas, além de existir boa movimentação no mercado de fertilizantes em função das vendas antecipadas para o plantio da safra 2011/12, os custos de produção do leite devem continuar estreitando as margens do pecuarista até o final do ano.