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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Boi Gordo

Arroba histórica

Preço recorde do primeiro semestre de 2011 foi decisivo para o pecuarista enfim re-equilibrar as margens de lucro, dados os recentes aumentos dos custos. Tendência é que as cotações sigam aquecidas

Arno Baasch, da Agência Safras

O mercado brasileiro do boi gordo teve um resultado bastante positivo em relação a preços no primeiro semestre de 2011. Levantamento de Safras & Mercado, tomando como base o estado de São Paulo, indicou um valor para a arroba de R$ 100,44 entre janeiro e junho, superando em 27,14% o valor médio de R$ 78,99 por arroba do mesmo período de 2010. “Esse preço foi recorde e contribuiu para que os pecuaristas conseguissem re-equilibrar as margens de ganhos em relação à elevação dos custos de produção, puxados, principalmente, pela alta do bezerro nos últimos anos”, explica o analista Paulo Molinari. A comparação mensal também indica evolução nos preços. “Em junho (de 2011) o valor médio da arroba em São Paulo era de R$ 96,71, ante R$ 80,95 no mesmo mês de 2010, acumulando incremento de 19,46%”, ressalta.

Molinari afirma, porém, que os preços mais altos não refletiram uma situação especulativa por parte dos pecuaristas, mas sim, uma oferta muito condicionada à demanda interna. “Se considerarmos a forte perda de exportação no primeiro semestre, veremos que os preços altos e o menor volume de embarques sugerem ou uma demanda muito acentuada ou uma oferta muito ajustada a esta demanda. Percebe-se que não houve sobras de boi gordo. Se as exportações tivessem uma recuperação ao longo de 2011, os preços do boi gordo poderiam estar em patamares ainda mais altos”, disse.

Levantamento realizado no Centro-Sul indica que o preço do bezerro também subiu muito ao longo dos últimos anos. Desde 2006, tomando como referência a primeira metade do ano, houve um incremento de 85,78%. “Um bezerro que era vendido em média a R$ 351,71 no primeiro semestre de 2006 foi vendido por um valor médio de R$ 746,90 ao final do primeiro semestre de 2011”, compara. Em relação à média de preços praticada nos seis primeiros meses de 2010, de R$ 671,19/cabeça, o preço do bezerro também evoluiu consideravelmente, com elevação de 11,28%, mas abaixo da alta verificada no boi gordo. Tomando como base o mês de junho de 2011, quando o preço médio do bezerro ficou em R$ 783,81, houve incremento de 13,1% frente ao valor de R$ 692,82 do mesmo mês de 2010, apresentando também uma variação menor que a registrada no boi gordo.

Na avaliação de Molinari, tanto os preços do boi gordo como os da carne bovina vêm sendo corrigidos gradativamente na medida em que a produção não consegue mais crescer na proporção da demanda. “Isso ocorre em função do avanço do plantio de grãos e cana-de-açúcar em áreas de pastagem, o que vai ajustando cada vez mais a oferta, resultando em alta de preços. Tal cenário mostra que a situação do boi gordo no Brasil é mais grave do que parece, a ponto de praticamente não existir mais os tradicionais períodos de safra e de entressafra, pois a oferta já não cresce mais na proporção dos demais segmentos”, destaca.

Boa demanda e câmbio — O mercado brasileiro de carne bovina teve um desempenho que pode ser considerado favorável internamente. “Tivemos uma boa demanda doméstica, o que resultou em sustentação de preços no atacado, por conta do ciclo de produção baixo”, comenta. Molinari destaca que o setor chegou a ser impactado pela estiagem no primeiro trimestre, por conta do atraso na entrada de gado da safra nova e da antecipação nos abates de gado leve no final de 2010. “Por outro lado, essa situação serviu para ajustar a oferta, o que inibiu uma maior pressão nas cotações”, disse.

No mercado internacional, provocou surpresa a queda geral nas exportações de carne bovina brasileira e sul-americana na primeira metade de 2011. Levantamento de Safras & Mercado indica que os embarques nacionais somaram 783,2 mil toneladas (em equivalente carcaça) entre janeiro e junho, volume 17% inferior ao registrado no mesmo período de 2010, de 940,3 mil toneladas. A receita, por outro lado, cresceu, passando de US$ 2,247 bilhões para US$ 2,459 bilhões.

Para Molinari, esse retrocesso nas vendas pode ser atribuído, no caso dos mercados sul-americanos, ao baixo quadro de oferta. No caso do Brasil, o recuo nas vendas de quase 160 mil toneladas (em equivalente carcaça) é decorrente do fator cambial, com a forte valorização do real frente ao dólar. De modo geral, o alto preço da carne bovina no mercado internacional na moeda norte-americana também foi um fator importante para a retração nas vendas, embora tenha contribuído para uma recuperação na receita dos frigoríficos brasileiros. “O preço médio obtido no primeiro semestre de 2010, que era de US$ 3.714 por tonelada, chegou a US$ 4.804 por tonelada nos seis primeiros meses de 2011”, sinaliza.

A comparação das vendas de carne industrializada segue mostrando uma dificuldade do Brasil neste segmento de negócio. “Fechamos a primeira metade de 2009 com vendas de 210 mil toneladas, os primeiros seis meses de 2010 com embarques de 181,4 mil toneladas e o período janeiro a junho de 2011 com exportação de 134,3 mil toneladas, o que reflete diretamente as restrições impostas pelo mercado norte-americano ao produto nacional”, analisa.

Molinari registra que o embargo russo às carnes brasileiras, iniciado em 15 de junho de 2011, não trouxe grande impacto às exportações de carne bovina de modo a abalar o mercado interno. “Tivemos alguns efeitos regionais, caso de Mato Grosso, por ser um grande estado produtor de carne de gado. Nos demais estados afetados, como Paraná e Rio Grande do Sul, o impacto pode ser considerado discreto até o momento, tanto que as vendas para este destino cresceram 3% no primeiro semestre frente ao mesmo período de 2010”, avalia. De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carnes (Abiec), o Brasil embarcou 146,563 mil toneladas de carne bovina à Rússia de janeiro a junho de 2011, contra 142,832 mil toneladas no primeiro semestre do ano anterior. A receita teve bom crescimento, de 38%, passando de US$ 476,4 milhões para US$ 658,5 milhões.

Abates em queda — Um dos grandes fatores responsáveis pela alta nos preços internos ao longo dos últimos anos, o abate segue mostrando decréscimo. “O abate está cada vez menor, o que acaba interferindo significativamente no quadro de oferta e demanda”, esclarece Molinari. O analista sinaliza que entre janeiro e maio de 2011, o Brasil abateu 12,936 milhões de cabeças de gado, volume 6,4% aquém das 13,827 milhões de cabeças registradas no mesmo período do ano anterior. “Esse é um movimento que vem se repetindo ano após ano desde 2007. Se compararmos o volume abatido em 2011 com o de janeiro a maio daquele ano, teremos um recuo considerável – acima de 23%. O volume atualmente registrado no Brasil consegue ser inferior até mesmo ao de 2004, quando nos cinco primeiros meses foram abatidas 13,879 milhões de cabeças, o que reforça a ideia de que a carne bovina deverá continuar trabalhando com patamar de preço elevado”, projeta.

Os preços do boi gordo e também da carne são corrigidos gradativamente, visto que a produção não tem conseguido crescer na proporção da demanda

Tal consideração fica ainda mais evidente se tomada como base a relação entre produção, disponibilidade interna e exportação. Conforme o analista, em 2004, por exemplo, quando o Brasil produziu 8,301 milhões de toneladas de carne bovina e exportou 1,847 milhão de toneladas, havia uma disponibilidade interna de 36,6 quilos por habitante. Em 2011, porém, tudo indica que a disponibilidade interna tende a ser inferior, estimada em 35,3 quilos por habitante, considerando uma exportação de 1,855 milhão de toneladas e uma produção de 8,65 milhões de toneladas. Isso mostra que a oferta de carne bovina vem diminuindo, o que se traduz em maiores preços para o consumidor final.

As dificuldades enfrentadas pelos setores de carne de frango e suína no primeiro semestre, com a forte alta nos insumos básicos da ração animal, como milho e soja, possivelmente deverá ser sentido pela cadeia produtiva de carne bovina na segunda metade do ano no setor de confinamento. Molinari ressalta que a incerteza em termos de tamanho da safra mundial para o cereal e a oleaginosa, o quadro de oferta mais ajustado e a demanda firme tende da contribuir para um incremento nos custos de produção do gado confinado no mercado doméstico. “As altas do milho e do sorgo, somadas às perspectivas de preços ainda mais elevados para o bezerro e o boi magro tendem a trazer custos maiores para o setor de confinamento. Esse é um fator inerente à vontade interna, influenciada basicamente pelo quadro mundial”, explica.

O setor de confinamento, por outro lado, tenderia a ofertar um volume maior de gado a partir de agosto, o que pode vir a atenuar o quadro histórico de menores abates bovinos na segunda metade do ano em relação ao primeiro semestre. Em 2011, a expectativa é de que a maior oferta de gado de safra seja proveniente de Mato Grosso. Para o confinado, o quadro de oferta deve ser dividido entre São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. “Em 2010, os confinadores prepararam sua oferta para uma sazonalidade normal, com vendas em setembro e outubro. A alta no preço do boi surgiu mais no final de outubro e começo de novembro devido à condição climática e ao volume de confinamento discreto para atender o mercado até o fechamento do ano”, analisa. Em 2011, boa parte dos pecuaristas colocou lotes no confinamento no final de maio e junho, apostando numa repetição do quadro do ano anterior e projetando aumentos mais fortes em novembro e dezembro.

Exportações enfraquecidas — Molinari afirma que o segmento de carne bovina ingressou na segunda metade de 2011 sem ainda dispor de um cenário mais favorável em termos de demanda externa. Segundo o analista, ainda não há esperança para uma recuperação das vendas externas do setor nas atuais condições de câmbio, o que manterá o desempenho aquém do registrado em 2010. “O câmbio dispõe de muitos argumentos para uma desvalorização ainda maior, mas possui poucos indicadores práticos. Portanto, não será ele um fator que poderá alterar favoravelmente as exportações brasileiras do setor de carne bovina no segundo semestre”, projeta.

Quanto ao mercado interno, o analista de Safras & Mercado entende que a demanda por carne bovina tende a se manter efetiva, a exemplo do cenário verificado na primeira metade do ano, ainda que os preços venham a ser mantidos em patamares elevados. “Os níveis de emprego e de renda da população brasileira permanecem consistentes e tendem a refletir uma boa condição de consumo na segunda metade do ano, seja para a carne bovina ou para as concorrentes, como a de frango e suína”, comenta.

Uma avaliação do atual mercado de carne bovina permite ao pecuarista trabalhar com uma boa perspectiva de preços para a segunda metade de 2011. Segundo Molinari, as cotações do boi gordo tendem a permanecer aquecidas. “Possivelmente, o mercado irá procurar patamares de preços próximos aos do primeiro semestre, variando entre R$ 105 e R$ 108 por arroba no mercado de São Paulo, no terceiro trimestre. Dali em diante, o comportamento de preços estará dependendo de um clima favorável ou não ao desenvolvimento das pastagens e de uma entrada maior ou menor de gado confinado ao mercado. Esses dois fatores definirão uma condição de maior alta ou não para o preço do boi gordo até o final do segundo semestre de 2011”, explica.

O abate segue mostrando decréscimo, uma das principais explicações pela alta nos preços internos nos últimos anos

No que tange os frigoríficos, a questão de preço a ser praticado dependerá muito do contexto a ser verificado no mercado. “Com valores possivelmente mais aquecidos na segunda metade do ano em diante, as indústrias obrigatoriamente necessitarão estabelecer um repasse de preços aos setores de atacado e varejo, o que deverá manter os preços em patamares elevados ao consumidor brasileiro nos demais meses deste ano”, prevê Molinari.