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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Feijão

Negócio (ruim) da China

Produção recorde e importações da Ásia achatam os preços do grão no mercado interno e podem desestimular o plantio da próxima safra. E o Governo ainda reduziu o preço mínimo

Gilson. R. da Rosa

Companheiros quase inseparáveis na mesa dos brasileiros, feijão e arroz vivem realidades bastante semelhantes na safra 2010/11: produção recorde, preços achatados, queda no consumo e concorrência com o produto importado. Mas enquanto o arroz disputa o mercado com o cereal produzido no Mercosul, o maior concorrente do feijão está outro lado do mundo, na China. Nos últimos três anos, entraram no país mais de 150 mil toneladas do grão oriundas da Ásia. Anteriormente, os grandes montantes eram importados da Argentina.

Em 2010, a produção de feijão no país ficou abaixo dos volumes consumidos anualmente pelos brasileiros, ou seja, foram colhidas 3,3 milhões de toneladas para um consumo de 3,5 milhões. Em decorrência disso, os preços do grão se elevaram bastante, e com uma garantia de preço mínimo em R$ 80/ saca, a produção atingiu um recorde em 2011. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra de feijão em 2011 deve gerar volumes superiores a 3,7 milhões de toneladas, o que já provocou a queda de preços pagos ao produtor desde janeiro.

Para minimizar essas variações, que acontecem frequentemente, o Governo decidiu reduzir os preços mínimos do feijão na safra 2011/12 em todas as regiões produtoras. O valor passará de R$ 80 para R$ 72, queda de 10%. Com isso, o Governo pretende equilibrar o mercado, cobrindo os custos de produção, mas sem criar um incentivo extra para o plantio do grão. “Com preços elevados, a oferta do produto tem sido maior num primeiro momento, mas seguida por um desestímulo ao plantio, porque os valores acabam caindo na sequência, em função do excesso de oferta no mercado. Queremos reduzir essa volatilidade”, afirmou o secretário adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Gilson Bittencourt.

Na avaliação do pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, Alcido Elenor Wander, a medida do Governo deve realmente balizar o mercado, já que existia muita discussão se o preço mínimo de R$ 80 era correto ou não. “Como o mercado estava bem acima disso, esse valor serviu como estímulo para a ampliação de área por parte dos agricultores. Assim, ao ampliar essa produção, geramos uma superoferta e entramos em 2011 com algumas regiões com preços abaixo de R$ 50 para o produtor, que não cobria os custos de produção”, observa.

Política estratégica — O analista da Correpar Corretora de Mercadorias e presidente do Conselho Administrativo do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe), Marcelo Lüders, atribui essas variações à ausência de uma política definida e estratégica para o mercado de feijão. “O Governo baixa o preço mínimo como neste ano, pois não consegue antever as movimentações do mercado percebidas pelos especialistas da iniciativa privada. Existem dois mercados distintos, o do feijão preto e do feijão carioca. O feijão preto representa praticamente 15% da produção nacional e todos os anos complementamos, na entressafra, com feijão vindo da Argentina. Ocorre que nos últimos dois anos a China também começou a exportar para Brasil, fruto da valorização da moeda brasileira e da mão de obra barata daquele país. Assim, em plena safra, este ano o Governo permitiu que houvesse importação abaixo do preço mínimo praticado no período”, reclama.

De acordo com Lüders, as importações da China (que ocorreram entre novembro de 2010 e junho de 2011), deverão provocar uma enorme redução na área cultivada com o feijão preto, devido ao desestímulo que os produtores, principalmente os do Paraná, vem sofrendo. “Mas em relação ao feijão carioca, que corresponde a quase 70% do consumo nacional, a situação é outra, pois o produto não é consumido fora do Brasil. Assim, quando sobra, não temos para quem exportar e quando falta não temos de quem importar. Por esta razão, ele muitas vezes dispara e em outras ocasiões cai vertiginosamente, desestimulando a produção e dando impulso ao um novo período de valorização”, explica. “Agora, este ano, com as commodities que concorrem diretamente com o feijão, como o milho, soja e cana-de-açúcar, aumentando suas áreas de plantio, fica claro que teremos uma forte diminuição de área para a safra 2011/ 2012”, prevê.

Além da concorrência com o produto nacional, o feijão chinês também trás consigo dúvidas em relação a sua qualidade e sanidade. “O problema é que o consumidor brasileiro não sabe o que o produtor chinês usou para plantar esse feijão. Não sabemos que insumos foram usados, e se possuem registros no Brasil. Não sabemos nada, só que o feijão entra como moeda de troca, por outros produtos nossos”, argumenta Alcido Wander, da Embrapa.

O preço do feijão carioca de melhor qualidade estava cotado no mercado paulista em julho de 2011 a R$ 120 a saca de 60 quilos. O carioca comercial, que possui uma qualidade inferior, não ultrapassa a casa dos R$ 85, enquanto o feijão preto é cotado a menos de R$ 75.

Perspectivas — Falar em longo prazo para o feijão, na opinião de Lüders, é uma temeridade por se tratar de uma cultura que tem três safras anuais. “Hoje, o Brasil tem capacidade de produzir feijão o ano inteiro. Mas diante das varáveis expostas anteriormente, podemos esperar um segundo semestre com momentos de diminuição de oferta e breves rallys de preço, que podem chamar a atenção da mídia e colocar o produto como o vilão de uma eventual inflação nesse período”, avalia. “Já no início de 2012, podemos esperar baixas de preço devido ao momento de colheita da nova safra. No entanto, os indicadores como vendas de insumos, entre eles as sementes, apontam desde já para uma redução da área a ser plantada. Somado a isso, temos o desestímulo fora de hora impetrado pelo Governo, que baixou o preço mínimo para R$ 72”, estima o analista.

Para Alcido Wander, o feijão continuará sendo um negócio essencialmente voltado para o mercado interno. O tipo carioca, segundo ele, terá oscilações de preço, já consideradas quase que normais ao longo dos últimos anos. “Essas oscilações são resultantes de possíveis quedas de produtividade em regiões importantes produtoras. Porém, como a cultura é de ciclo relativamente curto, em aproximadamente três meses, após qualquer pico de preço, já teremos nova oferta de produto chegando, de maneira que o mercado irá se regular ao longo do ano”, avalia.

Ainda conforme o pesquisador da Embrapa, os preços pouco motivadores para o feijão preto ao longo do primeiro semestre de 2011 podem influenciar na decisão dos produtores na próxima safra. “Considerando que a China consegue colocar o seu produto, no caso, o feijão preto, no mercado brasileiro a custos muito baixos, é provável que isso continue acontecendo, a menos que o Brasil tome alguma medida que restrinja a entrada deste produto”, prevê. “Porém, levando-se em consideração que a China é um parceiro estratégico para o Brasil, mais do que o Brasil é para a China, é pouco provável que isso venha a ocorrer”.