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Café

Nada a reclamar

A relação global oferta-demanda apertada propiciou boas cotações para o cafeicultor no ano comercial 2010/11. O mundo está tomando mais café

Lessandro Carvalho, da Agência Safras

O café foi um bom ativo financeiro – ou investimento – ao longo da temporada comercial 2010/11, levando-se em consideração o ano-safra que vai de julho de 2010 a junho de 2011. O período foi favorável para os produtores, que observaram preços internacionais e no Brasil mais altos. O quadro de aperto na oferta em relação à demanda prosseguiu na última temporada, garantindo sustentação às cotações. Depois de anos de safras modestas na Colômbia e de problemas em outras nações cafeeiras, e com o Brasil colhendo uma safra menor dentro do ciclo bienal da cultura em 2011, o mercado internacional refletiu um cenário de consumo crescente pela bebida com uma oferta limitada.

Segundo a Organização Internacional do Café (OIC), a produção mundial de café em 2010/11 foi de 133,3 milhões de sacas. Esse número refere-se à temporada em que o Brasil colheu uma safra cheia dentro do seu ciclo produtivo (colheita realizada em 2010). Vale dizer que safras restritas na América Central e Colômbia, além do Vietnã, entre outros, prejudicaram a oferta mundial nesse ano, em que os produtores brasileiros colheram uma safra maior. E, ainda assim, esse volume ficou ligeiramente abaixo do que o mundo consumiu, já que a estimativa para a demanda em 2010 foi de 134 milhões de sacas.

Para 2011/12, a OIC estima preliminarmente uma produção de 130 milhões de sacas, com a colheita no mundo refletindo a safra menor do Brasil em 2011. A Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) previu a produção no país em 43,5 milhões de sacas, com queda de 9,5% contra a safra de 2010 (48,1 milhões de sacas). Se o consumo mundial crescer de 2% a 2,5%, uma taxa razoável levando-se em consideração o histórico recente, haveria uma demanda chegando a 137 milhões de sacas. Assim, o déficit na oferta contra a demanda seria de 7 milhões de sacas na temporada, o que justifica as altas nas cotações do café em 2010/11.

O preço médio do café arábica na Bolsa de Mercadorias de Nova York, que baliza as cotações internacionais da commodity, foi de US$ 298,94 a saca na temporada 2010/11 (julho/ junho), com incremento de 65% sobre 2009/10 (US$ 181,19 a saca). Mais para o final da temporada, o mercado teve correções para baixo nos preços. Entre os motivos para isso, realização de lucros, o inverno ameno e sem maiores riscos de geadas no Brasil e as preocupações com as dificuldades financeiras nos Estados Unidos e Europa, que prejudicaram as commodities em bolsa.

No Brasil, o mercado físico fechou a temporada 2010/11 com o preço médio da bica de bebida dura no sul de Minas em 2010/11 (julho/junho) em R$ 425,41 ou US$ 255,39 a saca. Se comparado à temporada anterior, quando o preço médio ficou em R$ 274,10, houve um avanço de 55% em moeda local. Já na comparação em dólares, o acréscimo ficou em 67%. Destaque para a segunda parte da temporada (janeiro a junho), quando o preço do café sul-mineiro foi negociado em média a R$ 510,12 por 60 quilos.

O mercado físico brasileiro fechou a temporada 2010/ 11 com o preço médio da bica de bebida dura no sul de Minas em R$ 425,41 a saca, 55% superior à safra anterior

Mais para o final da temporada, os preços, entretanto, tiveram declínios, acompanhando perdas no mercado internacional. Segundo o analista de Safras & Mercado Gil Barabach, o mercado físico brasileiro acusou o avanço da oferta de café novo, com a colheita ainda em andamento em julho, e sentiu o efeito das baixas na Bolsa de NY. A queda no dólar também contribuiu com fraqueza das cotações. A divisa norte-americana acumulou desvalorização de 1,61%, vendida em média a R$ 1,5877 ao longo de junho. A pressão negativa vinda dessas variáveis explica a dimensão da queda interna das cotações, em especial dos melhores cafés, antes bastante valorizados, comenta Barabach. O arábica de bebida dura tipo 6 do sul de Minas Gerais terminou junho cotado em média a R$ 496,43 a saca, baixa de 7,56% em relação a maio, quando trocava de mãos a R$ 537,05.

Investimento top — O analista Barabach ressalta como o café foi um bom investimento em 2010/11. “Bem diferente da bolsa de valores brasileira, que acumulou no período ganho nominal de 1,89%, tomando como referência o índice Ibovespa entre julho de 2010 a junho de 2011. Em termos reais, a bolsa acumulou prejuízo, uma vez que a valorização sequer cobriu as perdas inflacionárias do período”, comenta. Outros ativos, como o ouro e a poupança, tiveram um comportamento semelhante, com valorização nominal pouco acima de 7%, em leve vantagem sobre a inflação. Na renda fixa, melhor desempenho para o CDB, que acumulou ganho nominal de 11,02%. Já o pior desempenho ficou por conta do dólar comercial, que amargou perda nominal de 12,7%.

“Aquele agente que comprou café no primeiro mês da temporada e vendeu o produto no último mês do ciclo comercial, ou seja, comprou em julho de 2010 e vendeu esse café em junho de 2011 somou retorno nominal superior a 60% para as bebidas melhores”, afirma. Eles adverte que os ganhos caem quase pela metade para a bebida rio e para o café conillon, 32% e 34%, respectivamente. Mesmo assim, muito acima da renda fixa e do benchmark da bolsa brasileira, observa Barabach. “No caso do café, o pior desempenho foi obtido pelo café arábica (600 defeitos) com destino ao consumo interno, que se valorizou pouco mais de 24% no período analisado, ainda assim bem melhor que os ativos financeiros”, analisa.

Para Barabach, a tendência para a atual temporada, que iniciou em julho de 2011, é de uma acomodação nos níveis de rentabilidade, não devendo haver essa desproporção, inclusive, com chance de alguma perda no decorrer da temporada. O ano de 2010 foi atípico, o que justifica esse avanço. E mesmo as diferenças entre as bebidas devem reduzir diante das perspectivas de aumento da oferta mundial de cafés arábica suaves.