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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Trigo

Reação das cotações

No primeiro semestre de 2011, houve recuperação das cotações do trigo – reflexo da alta das cotações internacionais em razão, principalmente, da quebra da safra russa devido ao clima

Juliana Winge, da Agência Safras

O mercado brasileiro de trigo encerrou o primeiro semestre de 2011 com uma média de preços superior à apresentada em igual período do ano passado. No interior do Paraná, entre janeiro e junho, o preço médio ficou em R$ 520,89 por tonelada, com valorização de 15,2% em relação aos R$ 436,65 praticados no primeiro semestre de 2010. Nas regiões de produção do Rio Grande do Sul, a variação de preço da tonelada no mesmo período foi positiva em 17,2% – de R$ 400,96 para R$ 470,09. Essa reação das cotações tem como pilar de sustentação a recuperação da alta das cotações internacionais. Nos seis primeiros meses de 2010, a média de preços praticados na Bolsa de Chicago (Cbot), base primeiro contrato, ficou em US$ 4,83/bushel. Em 2011, a média subiu para R$ 7.83/bushel (+62,2%).

Vale lembrar que o cenário fundamental que norteava o primeiro semestre de 2010 no âmbito global era muito diferente do verificado em igual momento de 2011. A temporada mundial vai de junho de um ano até maio do próximo. Isso significa que grande parte do primeiro semestre de 2010 foi regida por um quadro fundamental com uma relação estoque/consumo de 31% e com 198 milhões de toneladas em estoques, o maior volume desde 2000/01. Além disso, a notícia que mudou o rumo das cotações – a quebra da safra russa – saiu apenas em julho. Isso significa que durante todo o primeiro semestre de 2010 o quadro fundamental era extremamente baixista.

Nos primeiros seis meses de 2011, o abastecimento global do cereal era bem mais enxuto. A quebra na Rússia mudou o patamar de preços na Bolsa de Chicago de cerca de US$ 5/bushel entre janeiro de 2009 e junho de 2010, para uma média próxima a US$ 8. Entre os fatores exógenos ao abastecimento mundial, a forte elevação do milho em Chicago corroborou para a potencialização da tendência de alta no trigo. Como estes cereais são substitutos na ração animal, seus preços são altamente correlacionados.

Com as aquisições da indústria brasileira concentradas nos parceiros intrabloco, os preços internos dependem diretamente das cotações na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Porém, esses países têm seus preços formados a partir das bolsas norte-americanas. Isso porque, quando ocorre uma elevação nos Estados Unidos (maior exportador mundial), o trigo argentino, por exemplo, fica mais competitivo no mercado internacional. A maior demanda pelo cereal faz com que haja uma recuperação das suas cotações até o momento em que o norte-americano volte a ficar competitivo.

Prova disso é que com a média de preços do primeiro semestre de 2010 a US$ 4,82/bushel em Chicago, na Argentina a média ficou em US$ 228/tonelada. Com a cotação nos Estados Unidos indo para US$ 288/ tonelada na média dos seis primeiros anos de 2011, na Argentina as cotações foram para US$ 341/ tonelada (49,5%). Esta elevação menos que proporcional em relação à verificada nos Estados Unidos (62%) deve em grande parte à política do governo argentino que impõe cotas para vendas internacionais.

Na temporada 2010/11, o Brasil produziu em suas lavouras 6 milhões de toneladas, e para atender a demanda precisou importar 6,9 milhões de toneladas

Outro aspecto a ser ressaltado é que para o Brasil o repasse da alta dos preços internacionais foi ainda menor (15% no Paraná e 17% no Rio Grande do Sul). Parte desse comportamento deve-se ao mercado cambial. Nos seis primeiros meses de 2010, o dólar comercial foi trocado por uma média de R$ 1,80. Em 2011, de janeiro a julho a média foi de R$ 1,63/dólar (queda de 9,3%). Essa valorização da moeda brasileira torna mais atrativa as aquisições internas e, assim, pressiona as cotações no âmbito doméstico. Para verificar o impacto cambial sobre as cotações no Brasil, podem-se converter os preços da Argentina para a moeda brasileira. Neste caso, a alta apresentada no país vizinho nos dois períodos analisados foi de 36%, ainda superior aos percentuais de alta nas cotações recebidas pelos produtores brasileiros.

A justificativa dada para esta diferença está relacionada às questões qualitativas. Apesar das condições climáticas terem garantido números de PH (Peso por Hectolitro) elevados, as indústrias reclamaram dos baixos níveis de W (força de glúten). Outro fator que contribuiu foi a entrada do governo na ponta vendedora do mercado. Com 1,2 milhão de toneladas alojados nos armazéns da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), inclusive com trigo até de 2008, o governo aproveitou o cenário de preços acima do mínimo estabelecido (R$ 477/ tonelada para o trigo pão) para recolocar o produto no mercado. O preço de venda, entre R$ 480 e R$ 510 por tonelada para o trigo pão, acabou servindo de referência para a formação de preços.

Exportação recorde — Independentemente das justificativas, o menor repasse da alta em relação aos principais exportadores mundiais acabou gerando algo inédito para a cadeia produtiva brasileira. Dentro da temporada 2010/11, até junho, o país embarcou 2,515 milhões de toneladas, um volume recorde. Desse volume, 1,783 milhão de toneladas foram subvenciados pelos leilões de Prêmio para Escoamento do Produto (PEP). Então, o descolamento das cotações internacionais permitiu ao Brasil embarcar sem auxílio do governo um volume de 732 mil toneladas. Do total exportado, 67% partiram do Rio Grande do Sul. Com a saída da Rússia do mercado internacional, o cereal gaúcho, que tem características semelhantes, acabou sendo uma alternativa.

Uma análise do quadro de oferta e demanda nacional ajuda entender a importância do volume embarcado para dar liquidez ao mercado. Na temporada 2010/11, a cadeia tritícola brasileira iniciou com estoques de 1,7 milhão de toneladas. A produção interna foi de 6 milhões de toneladas. O volume importado será de 6,9 milhões de toneladas. Assim, a oferta total de trigo no Brasil foi de 14,593 milhões de toneladas. O consumo interno é de 10,2 milhões de toneladas para farinha, 430 mil toneladas para sementes e 200 mil toneladas para ração animal. Então, sem as exportações o país encerraria a temporada com 3,8 milhões de toneladas em estoques. Esse grande excedente teria forte impacto sobre as cotações. Com a válvula de escape das vendas externas, o saldo final será de 1,25 milhão.

No Rio Grande do Sul, esta situação é ainda mais clara. Os gaúchos iniciaram a temporada com 767 mil toneladas em estoques, produziram 1,9 milhão de toneladas e importaram 584 mil toneladas (farinha e grão), fechando uma oferta de 3,25 milhões de toneladas. O consumo de trigo no Rio Grande do Sul é de aproximadamente 750 mil toneladas para farinha e 280 mil para ração e semente. Desta forma, sem as exportações, o Rio Grande do Sul teria que escoar 2,22 milhões de toneladas para outros estados, o que é muito complicado, dada a maior distância dos mercados consumidores, o ICMS (12%) e a lei de cabotagem.

O USDA estima um consumo global (humano, ração e semente) de 664 milhões de toneladas na temporada 2011/12, superando a previsão anterior em 6 milhões

Azar russo — Em suma, a elevação das cotações no mercado brasileiro de trigo em relação ao mesmo período do ano passado teve como ponto de partida a quebra da safra russa e a consequente elevação das cotações internacionais. O repasse para o Brasil foi menor, devido ao comportamento cambial, às questões relacionadas à qualidade e à entrada do Governo na ponta de venda. De qualquer forma, a queda das cotações no Brasil acabou abrindo a janela de exportações. A dúvida que fica é se para o segundo semestre de 2011 essas condições serão mantidas.

O mercado doméstico de trigo operava em julho com reduzido volume de negócios. A proximidade da colheita da safra nova faz com que os moinhos reduzam o apetite comprador. Além disso, as ofertas de estoques públicos do cereal, apesar da baixa demanda, servem como balizadoras para a formação de preço nas negociações do mercado privado. No Paraná, o preço de venda recuou de R$ 510 para R$ 480/tonelada para o trigo pão tipo 01, até o final de julho. Com isso, em relação ao mês anterior (R$ 530), o preço atual (R$ 490) recuou 7,5%. Apesar disso, quando comparado ao mesmo período de 2010 (R$ 410), acumula 19,5% de alta. No Rio Grande do Sul, o cereal era indicado em julho a R$ 460/ tonelada na região de Santa Rosa, com queda de 2,1% em relação ao mês anterior (R$ 470) e alta de 18% quando comparado ao mesmo período do ano passado.

Câmbio — O dólar comercial opera em meados de 2011 nos menores patamares em relação à moeda brasileira desde 1999, quando houve uma mudança do regime cambial, de bandas cambiais para o de flutuação “suja” – onde o Banco Central realiza intervenções em momentos pontuais. As medidas anunciadas pelo Banco Central para atenuar a apreciação cambial não têm sido suficiente para reverter esta tendência. Os fundamentos da economia brasileira continuam firmes e, com uma taxa de juros reais elevada, a moeda americana continua ingressando no país.

Além disso, existe uma depreciação do dólar em relação às principais moedas do mundo. Em julho de 2011, em relação ao mesmo período do ano anterior, o euro valorizou-se 11% ante à moeda dos Estados Unidos. Um ano antes, eram necessários US$ 1,27 para comprar um euro; em julho de 2011 é preciso US$ 1,42. Esta desvalorização do dólar em relação às principais moedas internacionais é um fator altista para o mercado internacional de commodities. Porém, para a formação de preços internos, a valorização do real é baixista. Mesmo porque o padrão monetário nacional valorizou-se também em relação ao euro. Há um ano, a relação cambial era de R$ 2,30/euro, e passou para R$ 2,23. Com o dólar a relação era de R$ 1,77 e estava em R$ 1,58 em julho. Com a moeda nacional valendo mais, as importações são facilitadas e derrubam os preços domésticos (paridade de importação).

Safra global — De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o mundo produzirá 664 milhões de toneladas na temporada 2011/12 (iniciada em junho). Esse montante é 16 milhões de toneladas superior ao ciclo anterior. O acréscimo deve-se basicamente ao aumento da safra dos países da ex-URSS (de 81 milhões para 101 milhões de toneladas). Olhando-se sobre a ótica da oferta total mundial, esta elevação da produção é mais que suficiente para cobrir a redução dos estoques iniciais de 198 milhões de toneladas no ano comercial 2010/11 para 182 milhões de toneladas. Além disso, o USDA estima uma redução no volume de importações, de 125 milhões para 124 milhões de toneladas. Com isso, o suprimento mundial (estoques + produção + importação) subirá 4 milhões de toneladas, de 972 para 976 milhões de toneladas.

No lado da demanda, o USDA estima um consumo global (humano, ração e semente) de 664 milhões de toneladas na temporada 2011/12, superando o anterior em 6 milhões. As exportações são projetadas em 128 milhões (+1 milhão de toneladas). Assim, a demanda (consumo + exportações) será de 792 milhões de toneladas, aumentando 7 milhões em relação ao ano comercial anterior. Com a demanda crescendo mais que a oferta, os estoques finais recuarão em 3 milhões de toneladas, para 184 milhões. A relação estoque/consumo permanecerá em 28%. Isso significa que os fundamentos do mercado internacional indicam a manutenção das cotações nos mesmos patamares aos apresentados no ciclo anterior. Para 2011/12, a produção de trigo no Brasil está projetada em 4,8 milhões de toneladas. As importações estão apontadas em 6,7 milhões de toneladas, e estoques finais em 1,02 milhão de toneladas. A safra do cereal na Argentina foi projetada em 15 milhões de toneladas.