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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Arroz

Salvo pelo Governo

Foram realizados entre janeiro e julho 13 leilões públicos para desafogar o mercado de arroz. A alta oferta e o real valorizado, fatores que estimulam a importação do Mercosul, são os vilões da cotação interna. Área 2011/12 deverá encolher 3,7%

Laura Ruschel, da Agência Safras

O arroz é um importante produto do agronegócio brasileiro ao ocupar o segundo lugar entre os produtos agrícolas mais consumidos no país. Entretanto, tal importância não foi refletida no mercado da commodity. No primeiro semestre de 2011, os valores do cereal despencaram em todo o território nacional, começando a esboçar uma reação apenas em julho. Em janeiro, a saca de 50 quilos do arroz em casca em Pelotas, na região sul gaúcha, oscilou de R$ 22,32 a R$ 24,20 por saca, fechando a média do mês em R$ 23,12, o que significa recuo de 7,4% ante média de dezembro de 2010, que era de R$ 24,97. Diante desta queda tão pronunciada, o Governo Federal anunciou que iria continuar intervindo no mercado via mecanismos como o Prêmio de Escoamento de Produtos (PEP), Aquisições do Governo Federal (AGF) e Contratos de Opção, entre outros, que auxiliariam no escoamento do excedente do mercado interno no decorrer do ano.

As medidas começaram já no primeiro mês do ano, quando em 26 de janeiro a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) realizou um leilão de PEP para 57,5 mil toneladas. O resultado foi positivo, com 100% da oferta negociada, divididos em 50 mil toneladas para o Rio Grande do Sul e 7,5 mil toneladas para Santa Catarina. O fraco desempenho dos preços do arroz não foi limitado ao mercado interno. Na Bolsa de Mercadorias de Chicago (Cbot), o valor da saca de 50 quilos ficou em média a US$ 15,75 em janeiro, com recuo de 3,3% em relação ao mês anterior.

Ao que tudo indica, a principal causa para a queda da cotação do cereal no mercado brasileiro foi o aumento da oferta interna e o câmbio valorizado que, em dado momento, dificulta a exportação e facilita a importação do grão originário do Mercosul, aumentando a pressão sobre os preços. Em fevereiro, a média fechou em R$ 22,50 por saca de 50 quilos em Pelotas, 2,7% abaixo da média de janeiro, seguindo em ritmo decrescente de preços. Para conter essa queda no valor do cereal em março, mês que dá início ao ano comercial 2011/12, o Governo decidiu começar a utilização de seus mecanismos, o quanto antes e da forma mais agressiva possível, pois é nos meses de março e abril que a oferta é mais acentuada, período em que se concentra a colheita.

Na Bolsa de Chicago, a saca ficou na média de US$ 16,72, com aumento de 6,2% ante janeiro, evidenciando a divergência de preços entre o mercado internacional e brasileiro no período. Porém, no dia 3 de março, o Governo decidiu realizar o primeiro leilão de PEP do ano comercial 2011/12, para 100 mil toneladas — 90 mil para o Rio Grande do Sul e 10 mil para Santa Catarina. O total negociado no leilão foi de 96,6 mil toneladas, sendo 86,6 mil toneladas para o Rio Grande do Sul, ou 86,6% do total, e 10 mil toneladas para Santa Catarina, ou 10% do total disponibilizado no estado. A partir de então, e até o fim de julho, foram realizados outros 11 leilões para 1,470 milhão de toneladas que, do total, negociaram 73,4%, ou 1,079 milhão de toneladas.

Até julho, a distribuição do PEP foi feita em quatro estados, sendo 1,140 milhão de toneladas destinadas para o Rio Grande do Sul, onde foram negociados 87% do disponível, ou seja, 991,7 mil toneladas. Para Santa Catarina, foram 140 mil toneladas oferecidas e 60% negociadas, ou 84 mil toneladas. Para o Mato Grosso do Sul, ficaram disponíveis 100 mil toneladas, com apenas 3,1% comercializadas, ou 3,1 mil toneladas. Já no Paraná, das 100 mil toneladas disponíveis, não foi realizada nenhuma negociação.

Através do Prêmio de Escoamento de Produtos, foi possível aumentar as exportações de arroz, que tiveram variação positiva de 183% ante mesmo período do ano passado, entre março e junho. Entretanto, de acordo com o analista de Safras & Mercado, Eduardo Aquiles, mesmo com a boa atuação do Governo a partir do primeiro mês do ano comercial 2011/12, com os leilões de Pepro, AGF, Contratos de Opção, entre outros mecanismos, o valor da saca no Rio Grande do Sul só começou a reagir com maior consistência na segunda metade de junho.

Na colheita, cotações desabam — As medidas do Governo em março foram contrabalançadas pelo início da colheita, que derrubou as cotações da saca de arroz em todo o país. A média paga pela saca naquele mês ficou abaixo de fevereiro, fechando a R$ 21,70 em Pelotas, recuo de 3,6%. Na Bolsa de Chicago, a saca fechou a US$ 14,96 em março, o menor patamar registrado até julho em 2011, resultado da boa oferta internacional. Em reais, o valor da saca no mercado internacional foi de R$ 24,82, 11% inferior em relação a fevereiro, quando era cotada a R$ 27,91, resultado do recuo das cotações mundiais.

A tendência negativa dos preços internos se estendeu em abril, fechando o mês cotado na média de R$ 19,67, o que representa uma retração de 9,3% em relação ao mês anterior. No âmbito internacional, a saca em dólares apresentou ligeiro acréscimo de 2,5%, passando de US$ 14,96 em março para US$ 15,34 em abril. “Efeito decorrente da boa valorização do cereal no mercado internacional”, explica o analista. Porém, a saca em reais na Bolsa de Chicago apontou um recuo de 2%, passando de R$ 24,82 em março para R$ 24,34 em abril, resultado da desvalorização do dólar frente ao real, com a taxa média da divisa norte-americana fechando a R$ 1,66/US$ em março e recuando para R$ 1,59/US$ em abril.

No mês de maio, o valor pago pela saca de 50 quilos fechou com a menor cotação mensal do ano até julho, atingindo R$ 19,38 por saca – desvalorização de 1,5% ante média do mês anterior. Já na Bolsa de Mercadorias de Chicago, o valor em dólares fechou na média de US$ 16,10, aumento de 5% ante ao mês anterior, enquanto o valor da saca de 50 quilos em reais teve aumento de 6,7%, puxada principalmente pela valorização da tonelada do cereal no mercado internacional, que passou de US$ 307 por tonelada para US$ 322 por tonelada, aumento de 4,9%. Em junho, a média paga por saca já apontava que as intervenções do Governo finalmente começaram a dar resultados positivos. No entanto, o valor praticado de R$ 19,83 em Pelotas ainda ficou muito abaixo do valor estipulado pelo Governo Federal, de R$ 25,80.

Porém, na Bolsa de Chicago, a saca de 50 quilos fechou a US$ 15,06, recuando 6,5% frente ao valor pago em maio – que teve como principal causa o recuo de 6,5% na cotação da tonelada em termos mundiais, que passou de US$ 322 por tonelada em maio para US$ 301 em junho. A saca transformada para reais no mercado internacional também apontou retração, passando de R$ 25,97 para R$ 23,51, puxada pela desvalorização do cereal em todo o mundo e pela valorização do real frente ao dólar, com a moeda cotada a R$ 1,61/US$ em maio e a R$ 1,56/US$ em junho.

Enfim, valorização — A boa notícia veio em julho, quando a reação dos preços foi significativa, com a variação de 11,6% no mês, com a saca na região de Pelotas iniciando cotada a R$ 20,70 e passando para R$ 23,10 no último dia útil do mês. No mercado mundial, a tonelada apresentou aumento de 16,3%, de US$ 301 a tonelada no mês anterior para US$ 350 em julho, o que acabou resultando na valorização da saca em dólares, que se estendeu de R$ 15,06 em junho para R$ 17,50 em julho. O valor da saca em reais no mercado internacional, por sua vez, também teve boa valorização, de 16,2%, passando de R$ 23,51 em junho para R$ 27,32 em julho.

Até o final de 2011 a expectativa é de que a reação da commodity, tanto no mercado brasileiro quanto no exterior, se estenda e as cotações continuem subindo. “O que poderia conter mais facilmente a alta do arroz no Brasil seria a pressão da oferta do cereal originário do Mercosul. No entanto, isto não ocorre no momento devido à alta dos preços do cereal no mercado internacional”, aponta Aquiles.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o valor da tonelada já se encontrava em julho mais elevado do que o praticado no Mercosul. Isso poderia facilitar o escoamento do grão para fora do bloco, reduzindo a pressão de oferta na região. Para tanto, o que tem prejudicado o escoamento do arroz brasileiro para fora do bloco é a valorização do real, que torna o arroz mais caro em relação aos nossos vizinhos. Mesmo assim, no ano comercial 2011/12, iniciado em março de 2011, há um aumento acentuado de 183% na exportação do grão, passando de 120,5 mil toneladas entre março e junho de 2010 para 341,1 mil toneladas em igual momento de 2011.

Vistos os problemas do setor, a área cultivada do cereal na safra 2011/12 deverá ter redução de 3,7%, de 2,473 milhões para 2,382 milhões de hectares

Outro aspecto positivo é que o governo do Rio Grande do Sul pretendia reduzir o valor do ICMS do arroz e renegociar as dívidas, para que haja um estímulo maior aos produtores. “A expectativa é de que os preços tenham um impulso melhor entre os meses de agosto e setembro do que em julho, ficando próximo ao valor estipulado pelo Governo Federal, de R$ 25,80 na região de Pelotas”, afirmou o analista de Safras & Mercado.

No mercado internacional, a tendência observada também é de preços em alta, devido, principalmente, à elevação da cotação do milho e do trigo, que acaba puxando os valores do arroz, que é substituto direto dessas commodities (em especial do trigo). Porém, em dado momento, de acordo com o mercado internacional, a paridade de preços poderá conter o aumento do valor da saca no Brasil. Mas como o período de entressafra faz com que a oferta do produto diminua, isto deverá ocorrer somente no final de 2011 e início de 2012, sem afetar muito o mercado interno.

Retração na safra 2011/12 — No que diz respeito à próxima safra de arroz no Brasil, as intenções de plantio apontam para uma retração da área cultivada, devido a alguns fatores negativos que influenciaram a decisão dos orizicultores. “Para isso, existem variáveis endógenas, que são os fatores de origem interna do país, e os fatores exógenos, de origem externa, que afetam diretamente na tomada de decisão dos produtores”, afirma Aquiles.

“Os principais fatores endógenos negativos são os preços baixos decorrentes da safra recorde, o câmbio valorizado que dificulta a exportação, os impostos elevados em algumas regiões do país (ICMS), o novo Código Florestal, a tecnologia implantada e o recuo do consumo per capita do cereal no Brasil”, lista. “Já os fatores externos determinantes para a disposição de plantio são a oferta do cereal originário, em sua maioria, do Mercosul, que aumenta a concorrência e derruba preços internos, além dos altos preços de outras culturas no mercado mundial, que poderiam ocupar o lugar do arroz, dependendo da região”.

A área cultivada do cereal, segundo levantamento realizado por Safras & Mercado, terá ligeira redução de 3,7%, passando de 2,473 milhões de hectares na safra 2010/11 para 2,382 milhões de hectares na safra 2011/12. No Rio Grande do Sul, o maior produtor, com aproximadamente 64%, a área cultivada deverá ter queda de 5,3%, devido aos fatores negativos das últimas safras, como o endividamento dos produtores e o baixo preço do cereal no mercado interno causado pelo excesso de oferta. Além disso, no estado, o clima de algumas localidades, como na região da campanha, reduzirá o plantio.

As principais razões da queda da cotação no mercado foram o aumento da oferta interna e o câmbio, que facilitaram a entrada de arroz do Mercosul

Em Mato Grosso e no Maranhão, é presumível que, devido aos baixos preços, o produtor possa ficar desestimulado para a próxima safra, passando a plantar outras culturas que estão com valores mais atrativos no mercado internacional, como soja e milho. Em Mato Grosso, a queda poderá ser de 9,8%, passando de 252,8 mil para cerca de 228 mil hectares. Já no Maranhão a retração vai ser menor, de 0,5% na área cultivada, passando de 462,5 mil para 460 mil hectares.