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Algodão

Ao ritmo da volatilidade

O preço do algodão vivenciou dias históricos no início de 2011. Mas em março/abril, a cotação da pluma desabou para pouco mais da metade do valor recorde anterior. Assim, a área da safra 2011/12, que chegou a ser prevista para aumentar entre 10% e 15%, deverá, na realidade, cair 9%

Rodrigo Ramos, da Agência Safras

O primeiro semestre de 2011 no mercado brasileiro de algodão foi marcado pela volatilidade, que fica explícita quando comparamos a diferença Fotos: Carlos Rudney/Abrapa entre a cotação máxima e a mínima apresentada no período. No dia 15 de março, a pluma era cotada no Cif de São Paulo a R$ 4,03 por librapeso (maior valor da história); no dia 30 de junho, havia recuado para R$ 1,85, diferença de R$ 2,18. Antes disso, a maior diferença entre a máxima e a mínima no primeiro semestre havia ocorrido em 2004 (R$ 0,54 por libra-peso). No mesmo período de 2010, o spread entre a máxima e a mínima foi de R$ 0,20 por libra-peso. “Diante da intensidade das oscilações, o período foi de extrema dificuldade para a tomada de decisão para ambas as pontas do mercado”, lembra o analista de Safras & Mercado Élcio Bento.

No primeiro trimestre do ano, as cotações buscavam recordes de alta diariamente. “Neste cenário, os produtores que aceitassem os preços poderiam estar perdendo a chance de vender ainda melhor no dia seguinte”, lembra. “Já os compradores da pluma, se entrassem com maior agressividade no mercado, temendo novas elevações, acabariam potencializando a elevação”. Além disso, uma inversão do mercado faria com que ficassem totalmente fora da realidade. Como se não bastasse, as cotações próximas a R$ 4 por libra-peso praticamente inviabilizavam as operações. Sem demanda pela fibra, muitas indústrias optaram por dar férias coletivas ou elevar ao máximo a capacidade ociosa.

Guinada em abril — No segundo trimestre houve uma drástica inversão no comportamento do mercado. “Esta mudança no âmbito interno teve como ponto de partida o rompimento do canal de alta que se verificava na Bolsa de Nova York (Ice Futures)”, frisa Bento. Entre julho de 2010 e março de 2011, o mercado internacional seguiu uma escalada, sustentada pela redução dos estoques finais da fibra no mundo. As cotações muito acima do custo de produção levaram a um incremento da área plantada no mundo inteiro. “Com isso, ainda na primeira quinzena de abril de 2011, os preços no âmbito global inverteram o comportamento”, comenta.

Este foi o ponto de partida para que os vendedores ingressassem no mercado com os últimos lotes da safra velha e registrassem negócios futuros. Com a forte retração, os vendedores mantiveram a postura de comprar apenas o necessário para atender necessidades imediatas. “Num momento de forte retração, comprar maiores lotes implica ficar fora da realidade dos concorrentes que deixaram para adquirir no dia seguinte”, ressalta.

Com a intensificação dos trabalhos de colheita, o segundo semestre iniciou com queda nas cotações no Brasil. Ao final da segunda semana de julho, a fibra era cotada a R$ 1,55 por libra-peso no Cif de São Paulo, o menor patamar desde 11 de junho de 2010. Em relação ao mesmo período de junho, o preço era 26% inferior. Segundo Bento, o avanço da colheita deixa o mercado sobreofertado. “Na outra ponta, com as cotações recuando dia após dia, os compradores permanecem pouco presentes, adquirindo somente o suficiente para atender necessidades imediatas e aguardando momentos mais interessantes para comprar”, explica o consultor. Dentro desse contexto, a dúvida que paira no mercado é sobre qual será o ponto de suporte doméstico. Para responder a esta pergunta é preciso partir de três fatores principais: o abastecimento interno, as cotações internacionais e o comportamento cambial.

Com os maiores preços da história, a produção brasileira subiu de 1,122 milhão para 2,05 milhões de toneladas (+83%) da safra 2009/10 para a 2010/11

Produção quase duplica — Com os preços nos maiores patamares da história, os produtores nacionais cultivaram cerca de 1,35 milhão de hectares de pluma na safra 2010/11, incremento de 63% em relação aos 835 mil hectares da safra anterior. A produção subiu de 1,122 milhão para 2,05 milhões de toneladas (+83%). O quadro de abastecimento na temporada atual (março de 2011 até fevereiro de 2012) iniciou com 350 mil toneladas em estoques, uma redução de 350 mil toneladas em relação às 700 mil toneladas que iniciou o ano comercial anterior. “Porém, o volume adicional de 928 mil toneladas no volume a ser colhido foi mais que suficiente para cobrir a redução dos estoques iniciais”, lembra Bento.

“Ainda no lado da oferta nacional, é importante registrar que entre março e junho de 2011 o Brasil importou 110 mil toneladas de algodão, contra 19 mil do mesmo período do ciclo anterior”, frisa Bento. Nos meses seguintes, com a queda das cotações no âmbito interno, o ritmo das aquisições internacionais deve cair. Mesmo assim, o montante comprado até julho já supera as 62 mil toneladas adquiridas durante toda a temporada 2010/11. Considerando que até o final do ciclo o país tenha adquirido 150 mil toneladas, serão 88 mil toneladas adicionais em relação ao ano passado. “Os números mostram que o aumento da produção interna foi suficiente para cobrir o rombo que havia nos estoques e elevar a oferta total (estoques + produção + importação) em 667 mil toneladas, de 1,884 milhão para 2,55 milhões de toneladas”, completa.

Com os maiores preços da história, a produção brasileira subiu de 1,122 milhão para 2,05 milhões de toneladas (+83%) da safra 2009/10 para a 2010/11

Demanda vai aumentar — No lado da demanda, estima-se um consumo de 1,04 milhão de toneladas, com queda de apenas 10 mil toneladas em relação ao ano anterior. “Esta redução pode ser creditada à elevação das cotações no início da temporada”, afirma o analista. Porém, a manutenção da economia interna aquecida permite projetar uma recuperação nos próximos meses. “Isto tende a acontecer a partir do momento em que os agentes considerarem que as cotações encontraram seu ponto de equilíbrio e as indústrias retomarem o ritmo normal”, prevê. Excluindo-se o mercado internacional da análise (importações e exportações), a produção nacional supera o consumo em 1,01 milhão de toneladas. Com isto, os estoques subiriam de 350 mil para 1,36 milhão de toneladas (288%). “Neste caso, o carryover (estoques de passagem) nacional seria suficiente para atender o consumo nacional com uma folga de 320 mil toneladas”, pondera.

Num exemplo hipotético em que o país exporta 550 mil toneladas do produto, a demanda (produção + exportação) seria de 1,59 milhão de toneladas e os estoques de 960 mil toneladas, o maior volume desde 2008/09, quando a média de preços no Cif de São Paulo foi de R$ 1,25 por libra-peso. Na temporada 2010/ 11, com 300 mil toneladas em estoques, a média foi de R$ 2,25 por libra-peso. “Isto deixa claro que, para aliviar a pressão sobre as cotações no Brasil, a válvula de escape será o escoamento via exportações”, ressalta Bento. Então, no atual ciclo, o mercado doméstico tende a ter como parâmetro a paridade de exportação. “Esta, por sua vez, está intimamente ligada às cotações internacionais e ao comportamento cambial”, lembra.

A situação verificada no Brasil também é válida para o mercado global: preços elevados na temporada 2010/11 e forte avanço da produção para 2011/12. “No entanto, para entender o movimento é preciso buscar o seu início, que está na temporada 2009/10”, pondera o analista. O mundo iniciou o ciclo comercial em agosto de 2009 com 13,2 milhões de toneladas de pluma em estoques. Em julho de 2010, o volume havia recuado para 9,64 milhões e a relação estoque/consumo de 56,4% para 37,4%. “Depois de um longo período com uma relação estoque/consumo superior a 50%, tinha-se um suporte fundamental para a recuperação das cotações”, explica.

Na Bolsa de Nova York, a cotação média subiu de US$ 0,53 por libra-peso em 2008/09 para US$ 0,74 em 2009/10 (38%). Na temporada 2010/11, a produção avançou 2,7 milhões de toneladas, mas não foi suficiente para cobrir o rombo de 3,5 milhões nos estoques iniciais. “Com isto, a oferta total mundial foi reduzida em 777 mil toneladas e os estoques só não voltaram a recuar porque a demanda caiu em 805 mil toneladas”, frisa. De qualquer forma, os 9,7 milhões de estoques finais e a relação estoque/ consumo de 38,7% contribuíram para as cotações internacionais (em Nova York) subirem 92%, para US$ 1,41.

Os preços muito acima da média histórica foram o convite para uma resposta do lado fundamental na temporada 2011/12, que no mundo é compreendida entre agosto/11 e julho/12. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), no ano comercial 2009/10, foram plantados 30,1 milhões de hectares no planeta. No ciclo posterior, 33,5 milhões, e em 2011/ 12, a área cultivada vai subir para 35,6 milhões. Vale destacar que os números do ano comercial 2011/12 no Brasil estão inseridos no 2010/11 mundial para o USDA.

Ainda de acordo com o Departamento, o ano comercial 2011/12 inicia com 9,7 milhões de toneladas em estoques (+ 27 mil toneladas), que somados aos 26,814 milhões de toneladas produzidas (+1,873 milhão) e importações de 8,34 milhões de toneladas, fechará com uma oferta de 44,816 milhões de toneladas (+2,45 milhões). A demanda subirá 1 milhão de toneladas – de 32,7 milhões para 33,7 milhões de toneladas. Com isso, os estoques finais irão para 11,104 milhões de toneladas (+1,437 milhão) e a relação estoque/consumo aumentará de 38,7% para 43,8%. “Isto sugere que as cotações devem recuar ante os patamares apresentados nos dois últimos ciclos comerciais”, aposta Bento.

Câmbio dificulta exportações — O dólar comercial opera nos menores patamares em relação à moeda brasileira desde 1999, quando houve uma mudança do regime cambial, de bandas cambiais para o de flutuação “suja”, onde o Banco Central realiza intervenções em momentos pontuais. “Os fundamentos da economia brasileira continuam firmes e, com uma taxa de juros elevada, a divisa norteamericana continua ingressando no país”, explica Bento. Além disso, existe uma depreciação do dólar em relação às principais moedas mundiais. “Esta desvalorização é um fator altista para o mercado internacional de commodities”, lembra. Porém, para a formação de preços internos, a valorização do real é baixista. “Com a moeda nacional valendo mais, as importações são facilitadas e as exportações dificultadas”.

Os três fatores considerados como chave para a formação de preços internos apontam para uma tendência de retração no mercado doméstico neste último semestre de 2011. “Com um excesso de oferta em relação à demanda, é preciso escoar o excedente”, ressalta o analista de Safras & Mercado. Para isso, contudo, é preciso que o algodão nacional seja atrativo para os compradores internacionais. Entretanto, com os preços globais em baixa e com o real valorizado, haverá dificuldade em exportar o excedente interno. “Mantido este cenário, o único ponto de suporte que pode ser vislumbrado é o preço mínimo estipulado pelo governo, de R$ 1,35 por libra-peso”, pondera. “Desta forma, o governo deverá entrar no mercado para estimular o escoamento”, completa.

No Brasil, para a safra 2011/12, deverá haver redução de 9,3% (da área plantada em relação à anterior) para 1,24 milhão de hectares

Área menor no Brasil — O primeiro levantamento de intenção de plantio para a safra 2011/12 realizado por Safras & Mercado, divulgado em julho, aponta uma redução de 9,3% da área plantada de algodão em relação a anterior: de 1,367 milhão para 1,24 milhão de hectares. “No período das cotações elevadas, no primeiro trimestre de 2011, os produtores pretendiam elevar a área entre 10% e 15%”, recorda Bento. Porém, a queda acentuada ocorrida entre abril e maio, e depois, entre junho e julho de 2011, mudou essa expectativa. “A tendência é de migração, principalmente para a soja na primeira safra e para o milho na safrinha”, aposta. Outro fator que pode interferir na decisão dos cotonicultores é a redução da produtividade na safra 2010/11, devido a intempéries climáticas. “Esta queda só não será mais intensa porque muitos produtores fixaram vendas para a próxima temporada”, finaliza.

No Brasil, para a safra 2011/12, deverá haver redução de 9,3% (da área plantada em relação à anterior) para 1,24 milhão de hectares