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Soja

Mais uma safra abençoada

Com resultados expressivos na comercialização, os produtores brasileiros de soja deverão apostar na cultura novamente na temporada 2011/12. Com isso, o Brasil deverá elevar a área pela quinta temporada consecutiva. É a sinalização de um novo recorde na produção

Dylan Della Pasqua, da Agência Safras

Pela quinta temporada consecutiva, os produtores brasileiros de soja estão diante de um cenário extremamente favorável. Preços remuneradores, quadro de oferta e demanda mundial apertado e boa produção encaminhada – se o clima ficar dentro do normal. Diante disso, a oleaginosa volta a ser alternativa de produção e deverá ganhar área ainda maior nesta temporada. Se tudo der certo, o Brasil deverá contabilizar mais uma produção recorde.

O tradicional levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado para os principais produtos da safra brasileira de verão 2011/12, que no caso da soja chegou a sua 22ª edição, tem como objetivo central identificar o sentimento presente dos produtores em relação à decisão de cultivo desta nova safra, que começará a ser semeada no final de setembro e início de outubro, a depender evidentemente do comportamento do clima (a tendência deste ano é de chuvas chegando mais cedo, com uma primavera úmida, diferente de 2010). No ano passado, para uma intenção de plantio divulgada em julho de 23,849 milhões de hectares, a área efetivamente semeada chegou a 24,200 milhões de hectares, com diferença maior de 1,5%, superando a média de 1,4%, a maior dos últimos cinco anos (3,5% em 2009; 0,3% em 2008; 0,3% em 2007 e 1,4% em 2006). Neste caso, embora todo o direcionamento do mercado tivesse sido mapeado, a surpresa ficou por conta da intensidade do estímulo via preços, em função da disparada das cotações no mercado internacional a partir de agosto de 2010, quando das perdas de safra mundial de trigo e milho.

Para essa nova temporada, a sinalização é mais uma vez para incremento na área de soja no país. A princípio, em ritmo inferior ao avanço de 3,3% nesta última safra. Desta vez, diferentemente ao observado em 2010, quando a motivação inicial para a soja não vinha exatamente do mercado, há uma grande combinação de variáveis favoráveis à soja, as quais o analista de Safras & Mercado Flávio França Júnior destaca: lucratividade média bastante positiva; aumento da disponibilidade de crédito; preços recebidos com forte aumento sobre 2010; preços futuros praticados e indicados ainda firmes, e, em alguns momentos, até maiores; boa demanda interna e externa; elevação do nível tecnológico das lavouras; e provável diminuição das áreas de algodão, arroz e feijão. A questão maior fica por conta da definição na intensidade desse movimento de aumento no cultivo de soja.

Área maior — A área a ser cultivada no Brasil na safra 2011/12 deve ficar entre um intervalo de 23,838 milhões a 25,338 milhões de hectares, com média ficando em 24,638 milhões. Esse total, em caso de confirmação, representará um incremento de 1,8% sobre os 24,200 milhões de hectares cultivados na safra atual. “Com isso, deveremos ter o quinto avanço consecutivo da cultura, consolidando novo recorde histórico para o país”, ressalta França Júnior. “Evidentemente, esses parâmetros podem ser modificados para cima ou para baixo, se acaso tivermos intensificação ou diminuição do impacto de algumas variáveis, notadamente na questão dos preços – a exemplo do ocorrido nos últimos dois anos. Ao levarmos em consideração condições relativamente normais de clima e o incremento no nível de utilização de tecnologia nas lavouras, chegamos a uma estimativa preliminar de produtividade de 3.054 kg/ha, o que resultaria em um potencial médio de produção no país de 75,240 milhões de toneladas, com intervalo máximo e mínimo ficando entre 72,822 milhões e 77,361 milhões, de acordo com as variações da área”, ressalva.

Nessa hipótese, haverá um aumento de 1,2% sobre os 74,380 milhões de toneladas da safra recorde obtida em 2011. A maior preocupação fica por conta do clima, já que a ausência dos fenômenos El Niño e La Niña (neutralidade) deixa as previsões de chuvas e temperaturas mais erráticas e imprecisas. Safras indica mudanças no perfil do plantio nesta temporada em relação à safra passada. Desta vez, não há homogeneidade em função da área na Região Sul, que tem indicação inicial de retração em 0,8%. Neste caso, basicamente relacionado com a possível recuperação da área de milho na safra de verão, fortemente estimulado pelos preços mais altos. Nesse ponto é importante observar que as relações de preços podem se alterar nas próximas semanas e modificar a decisão dos produtores.

“Nas demais regiões, voltamos a ter a indicação de avanço na área, favorecido por algum ajuste para baixo na área de algodão, arroz e feijão, que devem abrir espaço para a soja. No Sudeste, o aumento inicial está sinalizado em apenas 1,5%, limitado pelo provável incremento do milho. Nas regiões Norte (+8,1%) e Nordeste (+6,3%), o avanço será maior, em áreas de pastagens e áreas novas, recém abertas com arroz. E no Centro-Oeste temos taxa indicativa preliminar de 2,8% de ampliação de área, ganhando espaço principalmente de algodão e pastagens”, completa.

Lucratividade positiva, aumento de crédito, bons preços atuais e futuros, demanda interna e externa aquecida deverão provocar a ampliação da área da oleaginosa em 3,3%

Fatores de Estímulo — Da mesma forma que já ocorreu nas últimas temporadas, esse sentimento mais otimista dos produtores em direção à soja é resultado do saldo positivo entre os diversos fatores que afetam a decisão do setor:

- Lucratividades médias parciais bem positivas. Em termos médios, a temporada atual vai caminhando para fechar com resultado ainda mais positivo do que o ano que passou em termos de lucratividade bruta. O resultado parcial até agora está variando de 33% a 52% em algumas das principais praças de negociação do país. Para chegar a essas relações, os produtores tiveram a seu favor a diminuição dos custos de produção, o avanço da produtividade média e a alta dos preços;

- Aumento na disponibilidade de crédito. No lado público houve o aumento na oferta geral de recursos de custeio pelo Governo Federal em 6% projetado pelo Plano Safra 2011/ 12, que juntamente com os recursos de comercialização passaram de R$ 75,6 bilhões para R$ 80,2 bilhões. No lado privado, melhora geral na capitalização dos produtores e compradores, em função dos bons resultados econômicos da safra;

- Aumento nos preços médios obtidos. As médias parciais dos preços até julho estão apontando ganhos sobre 2010 entre 22 e 26%, tomando como base algumas das principais praças de negociação do país. Na média brasileira, valor de R$ 43,50/60 kg, 28% superior aos R$ 34,00 do ano que passou. Alta sustentada basicamente pelo avanço de 30% nos preços da Bolsa de Mercadorias de Chicago (Cbot na sigla em inglês). E limitada pela queda de 12% na taxa de câmbio e de prêmios de exportação médios um pouco menores do que em igual momento do ano passado;

- Cenário de preços firmes na Bolsa de Chicago (Cbot). Em função da tendência de manutenção no aperto dos estoques dos EUA e do provável suporte vindo pelo mercado financeiro, as projeções de preços para 2012 seguem positivas, inclusive com o contrato maio 2012 na Cbot apontando ágio de US$ 17 cents/ bushel sobre as bases atuais. Esse quadro tem permitido a indicação e negociações de firmes volumes de safra nova, com preços semelhantes e, em alguns casos, até melhores que os atuais;

- Positiva sinalização da demanda. Apesar das turbulências na economia mundial, segue a tendência de PIB brasileiro maior em 2011 e 2012 (embora crescendo em menor ritmo), o que deve manter a demanda nas commodities agrícolas em crescimento;

- Cenário de incremento no nível tecnológico das lavouras, o que melhora as projeções de produtividade média em relação ao padrão histórico. Por consequência, estimulando as projeções de lucratividade;

- Quadro de preços desfavoráveis e sinais iniciais de recuo no plantio de produtos alternativos no verão, como algodão, arroz e feijão da 1ª safra;

- Indicações preliminares de prêmios novamente positivos para embarques na safra nova em abril e maio de 2012;

- Expectativa de aprovação do novo Código Florestal, o que elevará o nível de segurança legal para a atividade. Fatores Limitantes — Entretanto, também foi possível identificar algumas variáveis que devem limitar o mencionado incremento da área de soja:

- Aumento nos custos de produção. As primeiras planilhas que vão sendo montadas para o custeio desta nova safra vão apontando aumento nos custos de produção entre 5% e 10%, notadamente em cima da majoração nos preços dos fertilizantes;

- Maior estímulo para culturas alternativas de verão, como é o caso da cana e especialmente do milho. Neste caso, para uma relação média normal dos preços da soja x milho de 2 para 1, em 2011 haverá relação em 1,5 para 1, amplamente favorável ao milho;

- Resultados financeiros complicados com a rentabilidade (a relação da soja com inflação e principais ativos financeiros). A rentabilidade acumulada foi negativa em 13% no primeiro semestre de 2011;

- Manutenção da instabilidade e da insegurança quanto ao comportamento da taxa de câmbio, sem visão clara de grandes melhoras sobre as fracas bases de 2011. O câmbio voltou a ser o maior vilão na formação de preços do setor na temporada;

- Projeções de elevados estoques de passagem na temporada atual e também na próxima, o que pode limitar os preços no mercado interno, especialmente no período de entressafra.

Estoques podem ser recordes — Levando-se em conta a sinalização inicial de produção maior para 2012, o quadro de oferta & demanda para o complexo soja brasileiro indica manutenção de elevados estoques de passagem, inclusive com chances efetivas de elevação sobre as revisadas bases da safra atual;

- Na soja, além da revisão para cima na safra de 73,850 milhões para 74,380 milhões de toneladas, destaque para a revisão para baixo na estimativa de processamento, de 37,700 milhões para 36,500 milhões de toneladas. Com isso os estoques de 2011/12 saltaram de 3,595 milhões de toneladas na estimativa anterior para os atuais 5,345 milhões de toneladas, novo recorde para o país. E para 2012/13, o aumento da oferta terá dificuldades em ser absorvido pelo maior consumo, que tem indicação inicial de avanço em 5% no processamento e de 6% nas exportações – o que geraria novo avanço nos estoques para 6,135 milhões de toneladas;

- No farelo, os estoques da safra atual foram revisados para baixo desde o levantamento anterior, de 1,093 milhão para 743 mil toneladas, por conta do corte previsto na projeção de processamento. Mesmo com a retração na estimativa de exportação caindo de 15 milhões para 14,500 milhões de toneladas. E para a safra nova, estoques subindo a 873 mil toneladas em função de que a produção tenderia a avançar acima das projeções iniciais de consumo, balizadas em 5% de avanço no consumo interno e nas exportações;

- No óleo, os estoques da safra atual também foram revisados para baixo em função da redução no esmagamento, passando de 209 mil para 159 mil toneladas. Além da menor produção, o relatório trouxe 2011/2012 15 16 A GRANJA DO ANO MF SOJA redução na estimativa de consumo interno de 5,6 milhões para 5,55 milhões de toneladas; e de exportações de 1,750 milhão para 1,5 milhão de toneladas. Já para 2012/13, a sinalização é de estoques subindo para 179 mil toneladas. Tudo porque a produção tenderia a avançar um pouco acima dos 3% de projeção de incremento no consumo interno e de 7% nas exportações.

A estimativa é que a produtividade chegue a 3.054 quilos/hectare, e assim a produção brasileira alcançaria 72,240 milhões de toneladas, mas com perspectiva de 77,361 milhões

Balanço parcial melhora — A explicação deste otimismo para a temporada 2011/12 está baseada na análise sobre o desempenho de alguns dos principais indicadores da saúde financeira dos produtores brasileiros de soja no primeiro semestre de 2011. “No geral, um pouco diferente do que vimos nessa mesma época do ano passado (2010), o sentimento predominante é positivo em relação à soja, destacando resultados parciais bem melhores que os observados no ano que passou. Esse sentimento mais otimista para o setor está ligado à combinação de forte melhora nos preços médios praticados, com a retração nos custos de produção na época de implantação das lavouras e com os resultados médios muito bons em termos de produtividades médias”, avalia o analista de Safras Flávio França Júnior.

Este quadro se traduz em lucratividades brutas muito positivas e melhores que em 2010. A limitação básica está acontecendo pelo lado financeiro, uma vez que, mesmo melhores, os preços durante 2011 foram perdendo valor, resultando em rentabilidade negativa.

A análise dos preços — O primeiro indicativo a ser analisado sobre a ótica da remuneração dos produtores, e certamente o mais visível deles é o comportamento dos preços. Neste caso, o predomínio do sentimento vem sendo amplamente positivo até julho de 2011, considerando que as bases praticadas no mercado interno ficaram sempre muito acima das médias históricas e de 2010, seja em dólares, seja em reais. Os patamares, no entanto, perderam força até o início do mês de maio. “De todo o modo acreditamos que essa é uma variável amplamente estimulante ao avanço da cultura no país nessa nova temporada. Mas aqui temos uma diferença grande sobre o ano que passou: desta vez os preços da soja, mesmo melhores e remuneradores aos produtores, perderam força no comparativo com algumas culturas alternativas para a safra de verão, especialmente no caso do algodão e do milho”, frisa o analista.

Considerando valores parciais em julho de 2011, há um acumulado do ano das cotações em dólares com médias superiores às de todo 2010 de 22% a 26%, tomando como base algumas das principais praças negociadoras do país. No próprio mês de julho, houve elevações de 24% a 33% sobre o mesmo mês de 2010. Já nos valores em reais esses ganhos são um pouco mais baixos, oscilando nesta análise de 12% a 16% sobre as médias totais de 2010. Destacando o fato de que no início de julho os preços estavam também de 9% a 17% melhores do que julho passado.

Para entender esse fortalecimento das cotações domésticas basta observar que, dos três indicadores básicos da formação dos preços no país, apenas um estava negativo em julho no comparativo com a temporada passada. E o principal deles, que é a cotação externa, referenciada pelo mercado de futuros da Bolsa de Chicago, apontava ganho expressivo. Até o início de julho de 2011 o mercado spot da Cbot na soja tinha valor médio avançando 30% sobre a média total do ano anterior.

Embora com algum suporte também pelo lado financeiro, com alta expressiva do petróleo e queda no dólar no mercado internacional, o suporte vem com mais ênfase com o aperto nos estoques norteamericanos. “Também no lado positivo temos os prêmios de exportação que, apesar de estarem abaixo da média geral do ano passado (+US$ 66,13 cents/bushel), se mantiveram em território positivo durante praticamente todo o ano (média atual de +US$ 23,94 cents) e em patamares próximos e em alguns momentos superiores a igual período de 2010”, acrescenta França Júnior.

Pela manutenção de boa demanda, fretes marítimos comportados e valores altos dos prêmios de exportação nos EUA. A parte frágil desses indicadores está mais uma vez ligada à taxa de câmbio, que segue perdendo valor e neste momento tem média anual 8% inferior ao ano anterior. Reflexo da manutenção de fluxo positivo na entrada de capitais no país e da perda de valor do dólar no mercado externo.

Análise da lucratividade — A segunda variável fundamental nesse contexto de decisão dos produtores é a análise da lucratividade bruta, que compara a receita ao custo de produção. E também aqui o sentimento é amplamente positivo para a soja. A exemplo do que já foi registrado nas últimas quatro safras, o setor vem trabalhando com números muito favoráveis nesse levantamento parcial de 2011, praticamente sem chances de inverter essa condição até o final da temporada. Inclusive com firme avanço ao desempenho do ano que passou.

“Acontece que dessa vez temos a combinação de preços significativamente melhores, com alguma retração registrada nos custos de produção e com a obtenção de expressivas médias de produtividade em boa parte do país, com exceção aos estados atingidos pelas perdas pelo excesso de chuvas no período de colheita (caso de estados como o Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais)”, explica o consultor. “Tomando como referência cinco das principais regiões de produção, tivemos retração no custo de produção variando de 3% no Rio Grande do Sul e Goiás, a 7% no Paraná. Apenas o Mato Grosso teve elevação em 4%. Além disso, o diminuto efeito provocado pelo fenômeno La Niña permitiu que a produtividade média alcançada fosse generalizadamente elevada sobre a já positiva safra passada”.

Dessa excepcional combinação há a observação de lucratividade bruta parcial positiva de 52% no Rio Grande do Sul, na região de Passo Fundo, de 45% no Paraná, região de Cascavel, 36% no Mato Grosso, região de Rondonópolis, 35% em Goiás, região de Rio Verde, e de 33% no Mato Grosso do Sul, região de Dourados. Todos utilizando como base o custo operacional de produção, que é o custo total menos a renda dos fatores, como a remuneração do capital próprio e a remuneração da terra.

Análise da rentabilidade — A terceira e última importante variável na renda dos produtores é a única negativa nesta safra até julho/2011: a análise da rentabilidade, que considera a soja como ativo financeiro, ou seja, opção de investimento, e compara suas variações mensais com a inflação e com outros importantes ativos financeiros existentes no país. Neste caso os resultados parciais são bastante negativos, a exemplo do que já havia acontecido em igual momento de 2010.

“O desempenho desse primeiro semestre (de 2011) foi bem ruim, brigando de perto com a variação do índice Ibovespa, como a pior opção de investimento do período e ficando abaixo das demais opções analisadas. O pior desempenho ocorreu na BM&FBovespa, com perda real (já descontada a inflação) de 12,71% entre janeiro e junho. Em seguida veio a soja média, com perda real de 12,68% (-11,61% em Cascavel, - 9,93% em Passo Fundo e -13,77% em Rondonópolis). No mesmo período ainda houve perdas de 9,59% no dólar paralelo, 9,11% no dólar comercial e de 4,83% do ouro na BM&FBovespa. E ganhos de 2,36% no CDB pré-fixado e de 0,43% na caderneta de poupança”, conclui o analista.