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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Laranja

As constumeiras incertezas

O Brasil fornece 8 em cada 10 sucos consumidos no planeta, mas o citricultor brasileiro reclama da concentração das indústrias. O mercado mundial se mostra promissor
Luiz Silva


Relatórios recentes de analistas do mercado internacional indicam grandes oportunidades para sucos e néctares. Mais: na chamada era de saúde e bem estar, o mercado de sucos está maduro para crescer. Baseado neste panorama, o presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio Viegas, diz que a citricultura brasileira ganha espaço, pois é responsável por mais de 80% do mercado mundial de sucos de laranja. Então, é o momento para o citricultor ganhar dinheiro? Viegas revela que, infelizmente, não.

O dirigente explica que as mudanças reais observadas na citricultura são poucas. Apesar de uma alta expressiva nos preços da laranja na safra 2010 devido a quebras de produção no Brasil e na Flórida/EUA nem todos os citricultores vão beneficiar-se dos preços, uma vez que estão amarrados a contratos que os obrigam a continuar entregando a sua produção a preços abaixo de R$ 6, enquanto seu custo ultrapassa os R$ 15. "Os citricultores endividados não têm renda para manter os tratos culturais necessários, perdem produtividade e caminham para a insolvência", avisa.

Mas o professor titular da USP em Ribeirão Preto/SP, Marcos Fava Neves, especializado em planejamento estratégico do agronegócio, oferece outra visão. Garante que o momento econômico da citricultura brasileira é bom, pois os preços da fruta estão subindo devido à escassez de produto, em função de uma safra bem menor na Flórida (130 milhões de caixas) e problemas de pragas e doenças na safra brasileira. Para 2011, ele vê boas perspectivas, pois os referidos problemas não irão desaparecer.

Segundo a pesquisadora do Cepea/Esalq Margarete Boteon, o preço pago pela caixa de 40,8 quilos no portão foi por volta de R$ 15 em junho de 2010. Ela explica que esses são os maiores preços desde março de 2007, em termos nominais. Em relação aos contratos da safra paulista 2010/11, os produtores estão mais focados na colheita e na entrega das frutas. Para os poucos que ainda negociam a safra, os valores declarados para novos contratos chegam a R$ 16 a caixa, envolvendo praticamente todas as variedades.

Viegas reitera, no entanto, que haverá muita incerteza até meados de 2011. Explica que, apesar do aumento do risco de furacões na Flórida, ainda há expectativa de uma pequena recuperação da produção naquele estado. No Brasil, a atuação do La Niña traz a expectativa de uma seca prolongada, que pode afetar a próxima safra. "Apesar disto, as indústrias que nunca fazem previsões, nem para a safra em curso já anteciparam `previsões' de aumento na safra 2011/12. Nós interpretamos isso como ameaça de redução dos preços na próxima safra. Tudo é possível numa cadeia produtiva onde um dos elos tem o controle total sobre todos os preços", lamenta. Para o presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), Christian Lohbauer, nos últimos dez anos as exportações de suco se situaram num patamar entre 1,2 milhão de toneladas e 1,4 milhão de toneladas. Em 2009, o Brasil vendeu 1,3 milhão de toneladas e em 2010 não deverá ser diferente, assim como em 2011. "É um mercado estabilizado e maduro", diz. O que varia, na verdade, é o preço pelo suco exportado. Os valores pagos são melhores em 2010 se comparados ao período anterior. Em 2009 foi US$ 1,2 mil a tonelada, e em 2010 (até julho) estava US$ 2,2 mil, por cotações da Bolsa de Nova York. "O que vai marcar o próximo ano (2011) em relação à tonelada não é praticamente nada. Em relação aos preços, temos os velhos fundamentos de mercado, como as safras da Flórida e Brasil, qual o tamanho dos estoques nesses dois produtores e se haverá, ou não, eventos climáticos decisivos para a formação dos pomares", explica Lohbauer.

O presidente da Associtrus mostra-se otimista em relação ao mercado externo. Diz que o investimento que as grandes distribuidoras, como Coca Cola e Pepsi Cola, têm feito em aquisições de fábricas de sucos em todo o mundo dá uma boa dimensão das perspectivas de mercado para o suco de laranja. "Um recente relatório sobre o mercado de sucos na União Européia aponta para o potencial de crescimento do consumo de sucos na Europa, que absorve cerca de 70% das exportações brasileira. Lá, o consumo de sucos é de apenas 23 litros per capita por ano, enquanto o consumo de refrigerantes e de cerveja supera 76 litros anuais cada um", destaca.

O dirigente lembra ainda que a demanda cresce nas economias emergentes, enquanto o mercado nos países mais desenvolvidos e onde se concentra a demanda, sofre devido à recessão e à política de aumento de margens imposta pelas indústrias, engarrafadoras e distribuidoras, que desde o início da década de 1990 vêm aumentando o preço do suco ao consumidor e reduzindo o preço da laranja ao produtor. Em decorrência disso, as exportações brasileiras se estabilizaram, enquanto a oferta de laranja caía, tanto no Brasil como na Flórida. Para Neves, no mercado externo, a esperança são os países emergentes, onde a laranja entra em forma de néctares. Nos desenvolvidos, as perspectivas não são boas.

Já o mercado interno, embora totalmente desestruturado, cresce com o aumento de renda da população e sofre as consequências de ser tratado como reserva estratégica da indústria, na avaliação de Viegas, da Associtrus. Para ele, isto significa que, nos momentos em que a demanda da indústria cai, o mercado fica abastecido e quando a demanda da indústria aumenta, o mercado interno sofre o desabastecimento. "Isso gera uma grande volatilidade nos preços e na qualidade do produto ofertado", observa. Já conforme o professor Neves, o mercado doméstico é firme, pois o Brasil vem crescendo muito, o que faz com que o consumo cresça em quase todas as classes sociais, mais nitidamente na C, D e E.

Suco concentrado
Na avaliação de Viegas, este cenário é explicado pela excessiva concentração do setor industrial, que ele acusa de cartelizado há cerca de 20 anos. "Apesar de estar sendo investigado durante todo este tempo, vem conseguindo, através de artimanhas jurídicas, de seu poder econômico e político, escapar das malhas da lei. E, numa demonstração de desafio aos órgãos de defesa da concorrência, realizou a fusão da Citrovita com a Citrosuco, concentrando ainda mais o setor", acusa, observando que, a partir de então, o segmento conta com apenas três empresas. O presidente da Associtrus afirma que essas empresas dividem os produtores entre si, combinam preços, impõem contratos leoninos e unilaterais e, com os ganhos pela apropriação da renda dos citricultores, ampliaram seus negócios e implantaram seus próprios pomares, que lhes deram um desproporcional poder de mercado sobre os seus fornecedores.