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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Boi Gordo

No embal.o do consumo

No embalo do consumo

O crescimento da renda e do emprego explica a procura por cortes mais nobres e de maior valor agregado. Alguns preços históricos são reflexo da oferta ajustada e da demanda interna consistente
Vanda Araújo e equipe de analistas de Safras & Mercado

Oano 2010 se confirmou até sua metade com um ótimo movimento de demanda interna para o setor de carnes, mas um padrão modesto de fluxo de exportações. No caso da carne bovina, os preços voltaram a bater recorde em alguns cortes no primeiro semestre, refletindo uma demanda interna consistente e uma oferta de gado ajustada. A pouca oferta de animais para abate manteve o mercado brasileiro de boi gordo valorizado no primeiro semestre de 2010. Dados de produção para o período mostram que nos primeiros cinco meses do ano os abates de bovinos tiveram retração de 0,8% em volume, com o país somando 13,1 milhões de cabeças abatidas contra 13,2 milhões de igual período de 2009.

A produção de carne bovina, no entanto, ganha perfil mais consistente devido ao peso do boi abatido no primeiro semestre, um pouco acima da média. As pastagens estiveram em plenas condições ao longo da safra e o pecuarista reteve o gado focando o ganho de peso no período. Animais com peso acima da média foram abatidos na safra 2010, o que deve colaborar para a expansão da produção de carne bovina. Números preliminares em julho apontavam para 4,14 milhões de toneladas no semestre, volume 3,2% acima do mesmo período de 2009.

Com mais oferta referente à produção do primeiro semestre, os preços da carne bovina e do boi gordo poderiam justificar movimentos mais pessimistas para a safra de 2010, mas não foi o que aconteceu. A carne bovina atingiu preços recordes nos cortes de traseiro em três momentos do primeiro semestre, refletindo a demanda consistente de mercado interno. Em março, abril e junho, os preços do traseiro no atacado paulista se aproximaram de R$ 6,50 quilo, um novo recorde, enquanto os cortes de dianteiro se mantiveram em R$ 4,40, patamares considerados elevados para o período.

“O nível de crescimento econômico brasileiro é ponto relevante para o mercado. Com 9% de expansão no primeiro trimestre do ano e projeção anualizada para 6,5%, o PIB sem dúvida impacta positivamente no perfil da demanda interna do setor de carnes”, avalia Paulo Molinari, analista de Safras & Mercado. “Com o crescimento de renda e emprego há uma curva de expansão do consumo de forma natural e com maior expressão sobre os cortes mais nobres e de maior valor agregado. Com ganho de renda, a expansão de demanda é mais evidente em segmentos de maior qualidade e valor agregado. Por este motivo, o atacado confirmou altas surpreendentes nos cortes de traseiro para um período de safra”. Molinari observa que o neutralizador deste processo seria um crescimento de oferta proporcional e uma condição de preços mais estável, mas a oferta de gado para abate seguiu ajustada à demanda durante todo o semestre e houve pontos importantes de suporte de preços via consumo.

Entressafra difícil — Em 2009, sob o efeito do El Niño, as chuvas se prolongaram no inverno e se unificaram com a antecipação das chuvas da primavera. Os pastos estiveram em boas condições em pleno inverno e houve oferta de gado de pasto mais gado confinado. Além disso, as chuvas também afetaram os confinamentos forçando o pecuarista à venda do gado confinado. Em 2010, a situação é completamente diferente. O fenômeno La Niña trouxe situação característica no inverno com paralisação brusca das chuvas no Centro-Oeste. Em algumas localidades de Mato Grosso, as chuvas pararam em abril. “Esta é a primeira característica da entressafra 2010. Não há boi gordo de pastagem alongado da safra para venda”, aponta o analista de Safras.

De acordo com Molinari, a escassez de chuvas retrai consideravelmente a oferta de gado pesado oriunda de pasto e semiconfinamento. Desta forma, a oferta segue restrita aos primeiros lotes de confinamento que surgem em alguns polos de produção e incapaz de atender toda a demanda dos frigoríficos. Sem oferta, as escalas encurtam, a oferta de carne bovina no varejo e no atacado se reduz e o mercado abre espaço para nova alta, situação vivenciada na virada de julho para agosto, com o destaque de que agosto traria um ponto tradicional de alta demanda, que era o Dia dos Pais. Por conta da escassez de oferta, a última semana de julho confirmou escalas curtas, para 48h nos frigoríficos, com forte procura por boi gordo e preços em elevação. A arroba do boi gordo, que no início de julho era cotada a R$ 82/85 livre de Funrural, a prazo, em São Paulo, subiu para R$ 83/ 87, a prazo no final do período. O atacado, por sua vez, teve nova alta, com os cortes casados de traseiro e dianteiro atingindo patamares recorde de R$ 6,70 x 4,70 quilo.

Futuros garantem preço — A alta de preço da carne bovina no atacado, no entanto, não se refletiu totalmente nos preços do boi gordo. Levantamento de Safras & Mercado mostrou que no primeiro semestre de 2010 a arroba foi negociada a R$ 80,15 em São Paulo, livre de Funrural, para pagamento em 30 dias, contra R$ 82,10 de igual período de 2009, retração de 2,46%. Na opinião do analista de Safras, esse comportamento reflete uma modificação nas margens operacionais internas, talvez possibilitada pela maior concentração de frigoríficos de maior porte.

No mercado futuro, uma atitude de venda acentuada de contatos na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) entre o final de junho e o início de julho tentou conter expectativas da entressafra 2010. Ao mesmo tempo em que o mercado físico seguiu com ausência de ofertas, talvez até com inédito encurtamento de escalas, os preços futuros do boi gordo operaram com dificuldades de refletir a realidade do físico devido à presença agressiva de vendas nos vencimentos mais longos, principalmente outubro. “Em uma outra situação, o quadro difícil de ofertas no físico teria sido refletida de forma fiel nos vencimentos futuros na BM&F, o que não vem ocorrendo em 2010”, avalia o analista.

Ele observa que apesar de um segundo semestre difícil para a oferta interna, tendo em vista a seca que se aprofunda nas regiões de produção, o mercado insiste em bloquear uma sinalização de alta nesta entressafra. "Os preços mais baixos nos vencimentos futuros tendem a desmotivar a colocação de gado no segundo turno dos confinamentos e talvez gerar situações ainda mais graves no último trimestre do ano comercial, do ponto de vista da disponibilidade de gado para abate", considera Molinari.

Demanda interna consistente — O destaque do primeiro semestre no mercado de boi gordo, no entanto, ficou com a boa demanda. A economia brasileira cresceu 9% no primeiro trimestre de 2010 e tem projeção anual atualizada para 6,5%. Num ano em que o Brasil bate recorde de crescimento econômico, o perfil da demanda acaba sendo um pouco diferente do tradicional, explica o analista de Safras. “Emprego e renda estão em expansão. Os padrões de consumo interno também se alteram e procuram níveis de produtos de maior valor agregado. A expansão de renda eleva o consumo e os segmentos de maior valor agregado e de maior preferência do consumidor acabam ganhando espaço para elevação de preços. No caso da carne bovina, esta situação é muito evidente”, avalia. Na opinião do analista, essa condição de oferta ajustada e demanda firme tende a ser um fator de suporte para os preços do boi gordo e da carne bovina ao longo de 2010.

Exportações em recuperação — Além da boa demanda interna, o mercado sinaliza com recuperação nas exportações de carne bovina. Dados consolidados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) mostram que no primeiro semestre de 2010 as exportações somaram US$ 2,352 bilhões, 23% a mais que o vendido no mesmo intervalo de 2009. Em volume, o aumento foi menor na mesma comparação, de 2%, para 971,9 mil toneladas (equivalentecarcaça). Em junho, as exportações alcançaram US$ 455 milhões, alta de 19% sobre igual mês de 2009. Já o volume caiu 2%, para 177 mil toneladas (equivalente-carcaça), principalmente por conta da suspensão das exportações de carne industrializada para os EUA.

A Rússia segue como o maior importador de carne bovina in natura do Brasil. De janeiro a junho, importou 203 mil toneladas (equivalente-carcaça) ou US$ 455,2 milhões. O Irã figura como o segundo maior importador com 139,6 mil toneladas, ou US$ 367,818 milhões. De acordo com a Abiec, o preço médio do produto in natura subiu para US$ 3.986 tonelada em junho, 24% a mais do que em igual período de 2009. “Estamos vendendo volumes ainda discretos, porém com preços mais altos”, destaca Molinari, para quem o resultado em receita não revela o quadro real das exportações. De acordo com o analista, o Brasil vem tentando elevar preços em dólar no mercado internacional para compensar a valorização constante do real frente às demais moedas e os preços firmes do boi gordo, mas tem encontrado resistência na crise econômica europeia, na desvalorização das moedas dos importadores e na forte competição com a demanda interna.

Molinari frisa que, mesmo com a Argentina fora das exportações, o Brasil não tem um ano excepcional em vendas e tenta equilibrar as margens operacionais em relação ao câmbio sobrevalorizado. Na sua opinião, uma taxa de câmbio mais desvalorizada em 2010 colocaria uma condição melhor para as exportações do setor carnes. O analista também aposta no crescimento da economia mundial. O Fundo Monetário Internacional prevê uma melhora nas projeções para o desempenho da economia global e estima uma expansão de 4,6% em 2010, ante a estimativa anterior de 4,2%, segundo o relatório World Economic Outlook (Perspectivas da Economia Mundial). No Brasil, a projeção para a expansão do PIB subiu de 5,5% para 7,1%, o maior aumento entre as projeções.

Este perfil do crescimento econômico mundial é fundamental para o ritmo das exportações brasileiras e da capacidade internacional em absorver preços em dólar mais elevados. Como o Brasil mantém a sua moeda em valorização, há necessidade de preços em dólar mais elevados para equilibrar margens operacionais de exportação. Quanto melhor o perfil da economia mundial, melhores serão as condições para a exportação brasileira de carnes, avalia o analista de Safras. Já a Abiec aposta num incremento mais significativo das exportações no segundo semestre de 2010, com o país retornando aos níveis de 2007, quando exportou US$ 5 bilhões em carne in natura e derivados.